Brasil

Tráfico de armas por via marítima domina portos de Santos e de Paranaguá Segundo a Polícia Federal, quadrilhas têm escolhido os portos de Santos e de Paranaguá, onde apenas 1% dos contêineres são escaneados, e trazem preferencialmente artefatos de grande porte

Edson Luiz

Publicação: 10/07/2011 08:00 Atualização:

Fuzis roubados do Exército em 2006: comércio ilegal no Brasil tem presença cada vez maior de artefatos das forças armadas de países vizinhos  (Marcelo Regua/Agencia O Dia - 4/3/06)
Fuzis roubados do Exército em 2006: comércio ilegal no Brasil tem presença cada vez maior de artefatos das forças armadas de países vizinhos

A Polícia Federal (PF) detectou um novo modelo de tráfico de armas. Grande parte dos armamentos que entram ou saem do país ilegalmente passam agora por via marítima. Hoje, apenas 1% dos contêineres inspecionados nos portos de Santos e Paranaguá são escaneados pela PF, o que facilita o embarque ou desvios de armamentos estrangeiros. Diagnóstico realizado pela área de inteligência do órgão mostra também que as armas que chegam ao Brasil para abastecer o crime organizado não é mais o mesmo: são velhas, usadas e muitas são desviadas das forças armadas de países da América Latina. Nas apreensões realizadas recentemente, há até artefatos utilizados na guerra das Malvinas.

Segundo os levantamentos da PF, a maior parte das armas que entram no país são de grande porte. O diretor de Combate ao Crime Organizado, Oslain Campos Santana, afirma que a intenção dos criminosos é usar os armamentos em roubo a bancos, carros fortes e resgate de presos, principalmente. Além disso, a PF detectou que muitas quadrilhas estão utilizando armas velhas, como os fuzis AK-47, um dos mais comuns nas guerras étnicas na África e no Leste Europeu. A razão atribuída a isso é o aumento dos preços. Um fuzil M-16, por exemplo, passou de R$ 5 mil para R$ 20 mil em poucos anos. O mercado escasso incentivou a criação de quadrilhas especializadas em aluguel de armas pesadas para outros bandos.

De acordo com o delegado, as rotas marítimas preocupam hoje tanto quanto as terrestres. No mapa traçado pela Polícia Federal começam a aparecer os portos de Paranaguá, no Paraná, e de Santos, em São Paulo, onde a própria PF admite que a fiscalização é falha. A inspeção dos contêineres que seguem ou chegam do exterior é por amostragem, e, com o aumento do comércio exterior, a proporção do que é examinado tem diminuído. No mês passado, a PF conseguiu apreender 140 quilos de cocaína que estavam prensadas em portas exportadas para a África.

Outra preocupação em relação ao tráfico de armas é o Lago Itaipu, no Paraná, por onde entram os chamados formiguinhas: pessoas que trazem para o território brasileiro armas de pequeno porte ou acessórios dos artefatos, que são montados no país.

No Norte do país, as armas entram pela Colômbia, pela Bolívia e pelo Suriname, onde a fiscalização é precária por causa da extensão da fronteira. Os armamentos passam pelas fronteiras do Amapá, do Acre, do Amazonas e de Rondônia. A PF chegou a apreender, recentemente, fuzis calibre .30, pertencentes às Forças Armadas bolivianas. Na fronteira Sul, a entrada dos artefatos é pela Argentina, de onde vêm pistolas Bersa, granadas e armas utilizadas durante a Guerra das Malvinas, conflito entre o país sul-americano e o Reino Unido, ocorrido em 1982. O Paraguai é uma das rotas mais comuns.

Para a PF, a dificuldade na comercialização modificou as atividades dos traficantes de armas, que estão se voltando para a droga. Segundo dados de inteligência da PF, quem negocia com armamentos são pessoas especializadas e que conhecem o material. Além disso, a investigação em torno dessas quadrilhas é difícil, já que os traficantes usam modos de atuação diferenciados e, ao contrário do que ocorreu com o tráfico de drogas, as atividades não são contínuas. O comércio ilegal não apenas atinge os artefatos de grande porte, mas também as de calibre baixo, como pistolas e revólveres. Nesse caso, o tráfico é feito com armas brasileiras, que seguem para o exterior e retornam ao país de forma clandestina.

Hoje, o Brasil figura na segunda colocação, entre 57 países, no ranking do número de mortes causadas por armas de fogo. Levantamentos de organizações não governamentais e do próprio governo confirmam que a maior parte dos óbitos são ocasionados por artefatos de baixo calibre, de origem nacional e que foram objetos de desvios.



Fronteira vulnerável

De onde vêm as armas que chegam ao Brasil por terrra


Colômbia
as armas podem entrar por Letícia, na fronteira com o estado do Amazonas, ou por meio dos rios ao longo da floresta.

Suriname
Os armamentos entram no país pelo Pará ou Amapá. As densas florestas facilitam o tráfico.

Paraguai
São vários os locais por onde entram armas contrabandeadas. Cuidad del Leste e Pedro Juan Caballero são as principais cidades paraguaias no Sul do país; na fronteira com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, há milhares de estradas vicinais.

Bolívia
As armas podem entrar por Guayara-Merin, na fronteira com Rondônia, ou por Cobija, que faz divisa com o Acre.

Argentina
Os armamentos chegam a vários estados próximos à fronteira, principalmente na cidade gaúcha de Uruguaiana.



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