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Solidez intelectual e capacidade de diálogo marcaram vida política de Déda O governador vai ser velado em Aracaju. O velório será aberto ao público à noite.

Denise Rothenburg

Publicação: 02/12/2013 09:37 Atualização: 02/12/2013 08:52

 (Carlos Moura/CB/D.A Press 
)
"Minha luta vai ser outra em 2014". A frase foi dita pelo governador de Sergipe, Marcelo Déda, em 23 de março, durante almoço em Brasília como governador da Bahia, Jaques Wagner. Ambos tinham acabado de participar da reunião entre a presidente Dilma Rousseff e os governadores do Nordeste. Déda se referia à luta contra o câncer no estômago, diagnosticado no ano passado, contra o qual lutou até a madrugada desta segunda-feira (2/12) no hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Tinha 53 anos, dos quais 31 dedicados à vida pública. O governador vai ser velado em Aracaju. Uma parte do velório será restrita a familiares e amigos e à noite será aberto ao público.

Déda desembarcou em Brasília como deputado federal em 1995, primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso. Logo se destacou na bancada por duas qualidades: a solidez intelectual e a capacidade de diálogo, coisa rara no PT daquele começo tucano. Ele havia começado a carreira filiando-se ao PT, em 1981, aos 21 anos. Depois de uma temporada como advogado da CUT, e de sindicatos associados, e algumas eleições perdidas, se elegeu deputado estadual em 1986, mas não conseguiu a reeleição em 90.

Conhecedor da literatura e da ciência política, era aberto a conversas com todos os partidos, o que fazia com que ele muitas vezes tivesse embates internos, uma vez que uma grande parcela petista resistia às negociações com os tucanos. A boa convivência só deixava de ocorrer na hora dos embates em plenário, quando o então líder do governo, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), acionava o rolo compressor para aprovar os projetos de interesse do governo. Certa vez, Déda chegou a comentar brincando com Luís Eduardo: "O pai do senhor, presidente, é tão educado e o senhor tão duro. Com quem aprendeu a ser assim?" Diante da resposta, "com a minha mãe", os dois riram juntos, dada a fama do "Toninho Malvadeza" que acompanhou o senador baiano por toda a vida.

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A boa convivência fazia com que as festas de aniversário de Déda em Brasília virassem notícia por causa dos adversários do PT que reuniam. O governador gostava de cantar, fez várias parcerias com o atual ministro do Tribunal de Contas da União, José Múcio Monteiro, que também toca violão. Em Sergipe, na seara das festas criou o Forrócaju para fazer frente ao São João de Campina Grande e Caruaru, os mais famosos do país.

A ala do PT mais afeita às conversas políticas com a oposição se ressentiu quando o deputado sergipano renunciou ao mandato parlamentar no final do ano 2000 para assumir a prefeitura de Aracaju. Dois anos depois, quando Lula foi eleito presidente, Déda administrava Aracaju e, assim, ficou fora do grupo que dominou o governo federal. Essa condição, entretanto, lhe permitiu buscar um diálogo com a oposição e atuar nos bastidores de forma a auxiliar a blindagem sobre o Planalto, de forma a preservar Lula, quando estourou o mensalão em 2005. Lá estava ele, de novo, no papel de ponte na política nos bastidores e fazendo falta ao partido naquele momento tão delicado.

Com Lula reeleito, em 2006, Déda também não voltou a Brasília para figurar entre os representantes do primeiro escalão governamental porque venceu João Alves Filho na disputa pelo governo de Sergipe. Em 2010, no ano seguinte à descoberta do primeiro câncer (no pâncreas) e duas cirurgias, Déda foi reeleito governador contra o mesmo João Alves, do DEM. A disputa, entretanto, foi mais acirrada, uma vez que o governador se viu obrigado a ficar 100 dias afastado do cargo para cuidar da saúde.

Déda estava há mais de um mês no hospital Sírio Libanês em São Paulo, acompanhado da mulher, Eliane, e dos filhos. No último sábado, os médicos avisaram a família que era hora das despedidas. Alguns amigos foram visitá-lo, entre eles, o senador Antonio Carlos Valadares, do PSB, e o ex-prefeito Edvaldo Nogueira, parceiro de chapa de Déda nas duas eleições para a prefeitura. Nogueira deixou o hospital anunciando que a situação era irreversível. A luta de Déda terminou mais cedo do que ele esperava. O governador deixa cinco filhos, Marcella, Yasmin e Luísa, do primeiro casamento com Márcia; e os meninos João Marcelo e Matheus, com Eliane.



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