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Rossi nunca esteve entre os mais badalados, mas teve sucesso estrondoso Cantor pernambucano deixa grande legado à música. Ele perdeu a luta contra o câncer ontem, aos 69 anos

Paulo Pestana, Especial para o Correio

Publicação: 21/12/2013 10:24 Atualização: 21/12/2013 11:02

Chamar Reginaldo Rossi de Rei do Brega é, no mínimo, uma redução. Até porque ele já era grande quando começou o apartheid que segregou os artistas populares em nome do bom gosto. Os norte-americanos usam uma palavra melhor para definir um artista como ele: enterteiner.

O relativo sucesso da música O Pão no auge da jovem guarda fez dele o primeiro ídolo nordestino do movimento, mas não no sul-maravilha, onde ele tinha participação discreta nos programas de televisão. Rossi, como se dizia, estourou no norte. Naquele Brasil, acima de Minas Gerais, era tudo norte. E como não havia satélite nem transmissão ao vivo de tevê, foi ele quem virou o Recife do avesso com um programa de televisão que se tornou um marco. A invasão do iê-iê-iê se deu pela Hora do Rei.

Irreverência: shows de Reginaldo Rossi foram inesquecíveis (	Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Irreverência: shows de Reginaldo Rossi foram inesquecíveis


Nos anos 1970 ele se reinventou. O rock ainda estava na raiz, mas ele buscou um pouco do bolero, de chanson, misturou tudo e criou Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme, que pode ser definido como o protobrega, mas sem o preconceito que o termo carrega. Foi a partir dessa canção que se moldou toda uma geração de artistas, hoje chamados de brega por absoluta falta de imaginação dos rotuladores de plantão. Vieram Odair José, Amado Batista, Amilton Lelo, Evaldo Braga, Fernando Mendes, José Augusto e uma infinidade de cantores que traduziam o sentimento dos mais humildes.

O Brasil deve muito a essa turma, não apenas pelas canções que criaram, mas também porque foram eles os financiadores dos chamados “discos de prestígio”, que faziam parte dos suplementos quinzenais de lançamentos das gravadoras. Assim, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Cláudia Barroso, Lindomar Castilho, Diana e Nelson Ned faziam o faturamento com o qual as gravadoras investiam em artistas como Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Walter Franco, Jards Macalé, que davam prejuízo.

Rossi nunca esteve entre os mais badalados, mesmo com sucesso estrondoso. Sempre se dedicou ao fiel público nordestino, o que prejudicava sua exposição no sul, até que Garçom fez cumprir seu destino e o recolocou no topo. Ao contrário dos colegas, Rossi sempre brincou com a fama. Seu ídolo era Roberto Carlos, a quem emulava desde os primeiros anos; usava o mesmo pedestal de microfone, forçava o tom anasalado da voz, imitava a mesma inflexão e divisão rítmica. Mas ele nunca se afastou do rock: em Amor, amor, amor e A raposa e as uvas chegava a soar como outro de seus ídolos, Paul Anka.

Os shows foram inesquecíveis. Ele nunca entrava com repertório definido, ia sentindo o clima, contando histórias, inventando blagues. Com letras simples, rasteiras às vezes, ele provocava os fãs e demolia preconceitos ao zombar dos traídos — o que era uma tragédia com Lupicínio Rodrigues, virava comédia. Ser chamado de corno nunca mais teve a mesma conotação, desde que ele banalizou o termo, tratando a traição como um fato corriqueiro. Tinha orgulho de dizer que muitas facadas foram evitadas pela distensão que suas músicas provocaram. Está aí um bom título para ele: Reginaldo Rossi, o pacificador.

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