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Reginaldo Rossi tirou o peso da traição e igualou homens a mulheres Colocações simples, cômicas e quase despretensiosas "cutucavam" a ferida

Publicação: 21/12/2013 12:25 Atualização: 21/12/2013 12:20

Tiago Barbosa
Diário de Pernambuco


Nas letras das músicas, na postura, na conversa informal, no argumento defendido com ou sem o microfone nas mãos, diante ou por trás das câmeras, Reginaldo Rossi debochou de uma condição culturalmente incômoda no imaginário brasileiro: o corno. O homem traído jocosamente retratado nas linhas simples dos cordéis, nas costuras orais de rimas dos poetas populares, na piada maldosa do dia a dia ou na vingança desmedida registrada pelas estatísticas criminais ganha, nas canções entoadas pelo Rei do Brega, uma justificativa moral para existir e deve se conformar com os chifres colocados sobre a cabeça.

As colocações simples, cômicas e quase despretensiosas cutucam a ferida aberta por padrões patriarcais e machistas comuns à sociedade brasileira, especialmente à nordestina, na qual o homem introjeta desde cedo a ideia de ser livre para trair, controlar e mandar nas mulheres. Rossi compreende o quadro de subjugação. Inverte o rumo. E equilibra os sexos no imprevisível jogo de amores e paixões. Sujeita letras próprias ou de outros autores a um feminismo às avessas, reduz a carga de desilusões amorosas e encaixa elementos do cotidiano para se aproximar da realidade do público, com a licença do trocadilho, fiel às composições.

Rossi sempre se sentiu tranquilo para filosofar sobre as próprias músicas e os conceitos presentes nelas (Leo Pinheiro/Divulgação)
Rossi sempre se sentiu tranquilo para filosofar sobre as próprias músicas e os conceitos presentes nelas


A combinação de dois hits do Rei, apontados por ele mesmo como junção necessária para entender a figura do corno, sintetiza a atenção dispensada pelo cantor ao assunto. Na música Garçom (1987), Reginaldo transforma a dor de ser deixado pela mulher em lamúria para ser compartilhada, chorada e afogada na mesa de um bar, divã insubstituível da dor de cotovelo. Ele evoca o profissional dos estabelecimentos, o serviçal das mesas e do balcão, e o classifica como confessor da humanidade. É a captação inequívoca de uma dor democrática, comum ao rico e ao pobre. "No bar, todo mundo é igual/ Meu caso é mais um, é banal/ Mas preste atenção, por favor/ Saiba que o meu grande amor hoje vai se casar".

Na canção Dia do corno, a referência chega ao clímax. "É onde eu digo tudo", prefacia Rossi. A letra retoma o bar como ponto de convergência dos desiludidos amorosamente: "Hoje é o dia do corno, foi bom te encontrar/ Vamos tomar um bom porre para comemorar/ A mulher que você ama, eu amo também/ Pelo que eu sei, ela já enganou mais de cem".

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À vontade no palco ou mesmo em estúdio, Rossi sempre se sentiu tranquilo para filosofar sobre as próprias músicas e os conceitos presentes nelas. E são justamente os comentários feitos antes das canções o endosso à nova forma de ver e analisar a figura do homem traído. Até mesmo com uma concepção diferenciada de um sentimento geralmente apontado como nobre, presente em músicas de outros gêneros musicais: "Saudade nada mais é que dor de corno", compara o Rei. Na explicação para hits como o próprio Garçom, ele tripudia da gaia levada. “Homem acha que pode trair a mulher e nada acontece. Eu era um cara assim, traía minha mulher várias vezes. Aí, um dia, cheguei em casa e sabe quem estava na minha cama? O Ronaldinho”, ele brinca, na introdução da música no CD Reginaldo Rossi - Ao vivo (1998), responsável por fazê-lo ser sucesso em todo o Brasil.

A traição é tema recorrente no cancioneiro popular brasileiro - e até nos círculos dos músicos chamados de mais sofisticados pela crítica, ávida pela eterna distinção entre nobres e plebeus do som. O cantor Amado Batista aborda o assunto com pesar e tragédia na canção O julgamento, sobre o júri de um assassino confesso da própria mulher, depois de apanhá-la na cama com outro homem. Waldick Soriano investe no desespero, em Traição, receoso de um triste fim após a notícia do casamento da mulher amada com outro. Mas Reginaldo recodifica a dor de ser enganado, normaliza e satiriza a situação do homem traído dentro de uma lógica universal: "Quando o chifre dói, o diploma cai da parede". Quem nunca sofreu por amor fique à vontade para discordar. Mas não hoje. Hoje é o dia do corno, é bom te encontrar…

As letras e os chifres

Saí da tua vida
"Saí da tua vida, de cabeça erguida/ Coisa que você não fez/ Eu já chorei demais/ Agora vem a sua vez/ Eu acho que vai ser melhor para todos três"

Em plena lua de mel
"Dizem que o seu coração/ Voa mais que avião/ Dizem que seu amor/ Só tem gosto de fel/ Vai trair o marido em plena lua de mel"

Eu devia te odiar
"Eu devia te esquecer/ E até outro amor procurar/ Eu devia ter coragem e dizer/ Dessa vez, eu vou te esquecer/ Dessa vez, eu sei que vou te odiar/ Mas eu volto a te amar"

Dia do corno
"Mas homem adora mentir/ E enganar a mulher/ Homem adora trair/ Mas a quer bem fiel/ Então tem que levar o troco/ Ele tem que pagar/ Sofrendo, chorando e bebendo/ Na mesa de um bar..."

Meu fracasso
"Me dê um pouco de atenção/ Quero abrir meu coração/ E lhe contar do meu fracasso/ Amo demais uma mulher/ Que agora diz que não me quer/ Que sente amor em outros braços"

Ingratidão
"Ela estava tão sofrida/ E eu cuidei dessa pessoa/ E até lhe dei o meu amor/ Mas ao mostrá-la ao meu melhor amigo/ Por ele, ela me deixou / Meu Deus, meu Deus/ Ela me trai com o melhor amigo meu"

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