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Comissão Nacional da Verdade faz diligência em antiga vila militar no Rio A audiência pretende investigar casos como o do sargento e o de estudanetes que morreram no local em maio e novembro de 1969, respectivamente

Agência Brasil

Publicação: 23/01/2014 20:38 Atualização:

Integrantes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) fizeram hoje (23/1) uma diligência técnica nas dependências da antiga unidade da Polícia do Exército na Vila Militar de Deodoro, acompanhados por pessoas que foram torturadas na unidade durante a ditadura (1964-1985). Segundo a advogada Rosa Cardoso, uma das integrantes da comissão, os testemunhos e a análise dos peritos foram muito importantes para ajudar a reconhecer os locais de tortura, que passaram por muitas reformas ao longo dos últimos anos.

“Os peritos dão autenticidade técnica, porque têm competência para dizer que houve mudanças e, confrontando com o testemunho das vítimas da tortura, podemos dizer que este é o lugar do qual estão falando”, disse Rosa. Para ela, as informações serão fundamentais para a audiência pública de para amanhã (24) no auditório do Arquivo Nacional, para apurar casos de morte e tortura na Vila Militar. “Estamos fechando as pontas do quebra-cabeça, pois não falamos apenas para as pessoas mais próximas, acostumadas a ler sobre tais fatos, que viveram esse período e que acreditam nos fatos sem apresentação de maiores evidências. Estamos falando para o futuro”, explicou a advogada. Por isso, é preciso apresentar a informação de uma maneira muito consistente, acrescentou.

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A audiência pretende investigar casos como o do sargento da Polícia Militar do antigo Estado da Guanabara Severino Viana Colou e do estudante de medicina Chael Charles Schreier, de 23 anos, que morreram no local em maio e novembro de 1969, respectivamente.

O advogado Francisco Celso Calmon, integrante do Fórum Direito à Memória e à Verdade do Espírito Santo, foi preso por ser militante da Vanguarda Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e passou cerca de quatro meses na Vila Militar. “Caí junto com minha namorada, hoje mãe dos meus três filhos, que tinha apenas 16 anos e ficou encarcerada durante 40 dias”, disse Calmon, ao lembrar que já estava lá quando o estudante Chael foi preso. “Ouvi os gritos do Chael até ele não poder mais gritar”, relatou. Calmon à comissão uma lista com os nomes de 14 agentes do Estado que praticaram torturas na unidade de Deodoro, dois já falecidos.

“Passaram mais de 50 presos por aqui. Não me agrada voltar aqui, mas o que estamos fazendo aqui é história, não só para nós, não só para este relatório, como também para essa guarnição saber que aqui aconteceu isso [tortura]”, disse o advogado.

Para ele, o mais importante é que os algozes dos torturados sejam reconhecidos. “E que tenham a hombridade de comparecer amanhã [na conferência] e esperamos que, além da Justiça os criminalizar, talvez aconteça um milagre, que seria uma autocrítica deles, das Forças Armadas”, acrescentou.

Outra integrante da comissão, a advogada Eny Moreira, que defendeu dezenas de presos políticos, juntamente com o jurista Heráclito Sobral Pinto, disse que "perdeu a conta" dos clientes torturados no local. “Nunca vi a tortura ser feita, mas sou testemunha de barbáries”, afirmou Eny, lembrando o dia 10 de novembro de 1972, quando o Jornal Nacional informou que a 'terrorista' Aurora Maria Nascimento Furtado morreu em um tiroteio. “A família me pediu para liberar o corpo. Quando recebi o corpo, Aurora estava literalmente dilacerada: afundamento no maxilar, sem bicos dos seios, um dos olhos pendurado, rasgo do umbigo até a vagina, fratura externa no braço – a última coisa que fizeram com ela foi pressionar com um torniquete de aço seu cérebro. Por isso, o olho saltou”.

Rosalina Santa Cruz também ficou presa na Vila Militar, mas em outra unidade, e lá ficou com mais seis mulheres, todas na mesma cela, durante todo o ano de 1972. Rosalina lembrou que as mulheres eram sempre torturadas nuas e apenas por homens, geralmente, com choques na vagina. Seu irmão, Fernando Santa Cruz, que foi preso no Rio, é considerado desaparecido político. “Minha mãe [Elzita] tem 100 anos e ainda espera notícia do filho”.

A Comissão Nacional da Verdade foi criada em 2012 e deve encerrar seus trabalhos em dezembro deste ano, quando publicará o relatório final, com conclusões e recomendações para reformas em instituições e políticas públicas.

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