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Protestos, lágrimas e indignação marcam um ano da tragédia na Boate Kiss Participantes pintaram no asfalto a silhueta de 242 corpos, representando cada uma das vítimas da tragédia

Publicação: 27/01/2014 07:59 Atualização: 27/01/2014 09:50

 (Ronaldo Mendes / AE)


Às 3h, horário em que teve início o incêndio que matou 242 pessoas na Boate Kiss, lágrimas, indignação e um buzinaço marcaram um ano da tragédia que comoveu o Brasil em 2013. Cerca de 500 pessoas participaram do ato, que começou na madrugada desta segunda-feira (27/1) em Santa Maria, em frente ao prédio onde funcionava a casa noturna. E enquanto familiares e amigos relembram com tristeza a perda de entes queridos, uma investigação, compilada em cerca de 11 mil páginas, continua com questões pendentes. Famílias seguem sem indenização, sobreviventes com problemas de saúde e ninguém preso. A tragédia é considerada a maior em número de mortes nos últimos 50 anos no país.

Antes do protesto, os participantes pintaram no asfalto a silhueta de 242 corpos, representando cada uma das vítimas da tragédia, cobrindo quase que completamente o chão da Rua dos Andradas. Um grande coração branco foi pintado na frente da entrada da danceteria. Ali os familiares das vítimas depositaram uma rosa branca e velas acesas.

Moradores da cidade gaúcha de Santa Maria fazem procissão e montam painel com fotos das vítimas do incêndio na boate kiss  (Macedo/Agencia RBS)
Moradores da cidade gaúcha de Santa Maria fazem procissão e montam painel com fotos das vítimas do incêndio na boate kiss


Dentro de uma programação iniciada na semana passada, na tarde de hoje, os nomes das vítimas serão lidos um a um, na praça central da cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde estava localizada a boate. "Teremos um culto ecumênico. Então eu acredito que a leitura dos 242 nomes dos falecidos irá nos afetar muito. Vai ser muito forte isso", diz Adherbal Ferreira, pai de Jennefer.

A filha dele tinha 22 anos na época do incêndio e estava prestes a terminar o curso de Psicologia. Foi o próprio pai que a levou de carro para a festa. Horas depois, a jovem perdeu a vida na boate. Ferreira é presidente da Associação de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria. Sua organização preparou para o último fim de semana uma conferência chamada Novos Caminhos, onde foi discutida a questão da segurança em centros de entretenimento e comerciais, para evitar que situações como a que levou seus entes queridos se repitam. O encontro também foi marcado por homenagens e depoimentos de familiares das vítimas.

Gritos, fumaça e dor

Por volta das 3h do dia 27 de janeiro de 2013, o vocalista da banda de música regional "Gurizada Fandangueira" levantou um sinalizador para efeitos pirotécnicos que incendiou o local. Havia mais de mil pessoas no local, num espaço que comportava no máximo 700. O fogo do sinalizador atingiu o forro sintético do teto. Pedaços começaram a se desprender e a cair no chão. Sem extintores de incêndio que funcionassem, com apenas duas portas frontais de saída e com uma multidão tentando escapar, o incidente rapidamente se tornou uma tragédia.

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Em meio a uma nuvem tóxica, muitos morreram asfixiados. Alguns jovens que escaparam voltaram para ajudar. Vinicius Rosados, de 26 anos, estudante de Educação Física de 1,94 m de altura, chegou a retirar do local 14 pessoas, em alguns casos duas de uma vez. Mas seus pulmões não resistiram e ele morreu intoxicado. "Este local, antes de se tornar uma boate, era um depósito de bebidas. Foi reformado e tinha apenas duas entradas na frente, junto a outros dois prédios comerciais. Não havia nenhuma maneira de sair por trás ou pelos lados", explica à AFP Marcelo Dornelles, subprocurador-geral de Justiça do estado para Assuntos Institucionais.

Sem culpados

Inicialmente, a justiça ordenou a prisão do vocalista da banda, do produtor, que acendeu o sinalizador, e de dois sócios-proprietários da boate, sob a acusação de homicídio culposo. No entanto, em maio do ano passado todos conseguiram autorização para responder em liberdade. "Não há presos, todos estão soltos. Vivemos uma impunidade", diz Ferreira. Quatro bombeiros também enfrentam acusações administrativas. Eles eram encarregados de entregar a licença de funcionamento da Kiss. "Eles utilizavam um programa para fazer cálculos para permitir as autorizações. Este software simplificava os dados e não estava em conformidade com a lei. Muitas coisas não foram checadas adequadamente. Mas, em tais condições, não poderia funcionar", explicou Dornelles.

Foram ouvidas mais de 200 pessoas. A defesa solicitou o testemunho dos mais de 600 sobreviventes, o que pode tornar o processo interminável. Alguns advogados de familiares também pediram indenização, mas até o momento não conseguiram nada. Ferreira explica que esta não é sua preocupação agora, mas que se faça justiça.

Traumas sem cura

Após o incidente, cerca de 116 pessoas ficaram feridas. Algumas perderam partes de seu corpo. Outras ainda têm dificuldades para respirar. E quase todas ainda carregam a angústia do que viveram. Sueli Guerra, chefe do centro de atendimento criado especialmente para as vítimas no Hospital Universitário de Santa Maria, conta que logo após o incêndio o estabelecimento havia registrado 1.588 vítimas diretas e indiretas. "A maioria com problemas respiratórios e que receberam atendimento pneumológico e reabilitação com fisioterapia e fonoaudiologia", relata à AFP. "Há muitos pacientes na ala de psiquiatria devido ao trauma. Um grupo menor de pacientes com queimaduras exige cuidados mais complexos", conta.

Algumas famílias também se sentem sobreviventes eternas. Elaine Gonçalves, que havia ficado viúva meses antes do incêndio, declarou que perdeu seus dois filhos na Kiss. Às vezes, disse ela, liga o rádio para ouvir as músicas que gostavam para, de alguma forma, não sentir sua ausência.

Com informações da France Presse

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