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Crise na Venezuela divide manifestantes em São Paulo Os manifestantes favoráveis a Maduro estavam em maior número (cerca de 60 pessoas) e chegaram antes, por volta das 14h

Agência Brasil

Publicação: 19/02/2014 19:59 Atualização:

De um lado da rua, manifestantes favoráveis à permanência de Nicolás Maduro no governo da Venezuela. Do outro, manifestantes que pedem a saída do atual presidente do país. Ambos reunidos, na tarde de desta quarta-feira (19/2), em frente ao Consulado Geral da República Bolivariana, em São Paulo. Ao mesmo tempo e de forma pacífica.

Os manifestantes favoráveis a Maduro estavam em maior número (cerca de 60 pessoas) e chegaram antes, por volta das 14h. Muitos deles são ligados a movimentos sociais e a partidos de esquerda. Havia também venezuelanos e funcionários do Consulado apoiando o ato. O Cônsul Geral da Venezuela em São Paulo, Robert Torrealba, participou da manifestação.

“Esta é uma iniciativa dos movimentos sociais e dos partidos que simpatizam e são amigos da Venezuela e do processo político que aconteceu lá. Estão acontecendo uma série de fatos na Venezuela, que estão sendo muito manipulados. E qualquer manifestação de solidariedade no mundo todo ao povo venezuelano e ao processo político é sempre importante”, disse o cônsul.

Segundo ele, a onda de protestos que provocou a morte de cinco pessoas não é algo inédito no país. “Não é a primeira vez que está acontecendo isso na Venezuela. É um processo de sabotagem permanente. Para nós, é mais um processo que pretende desestabilizar as ações de um governo legítimo, eleito pelo povo. É um processo de golpe continuado”, acrescentou o cônsul.

“Estamos denunciando a tentativa de golpe que aconteceu na Venezuela”, disse Pedro Paulo Bocca, secretário da articulação dos movimentos sociais da Aliança Bolivariana para as Américas no Brasil. “O que está ocorrendo lá é um processo de desestabilização política em que se coloca muita gente na rua, que as vezes nem sabe o que está acontecendo, por meio de uma liderança golpista, rancorosa, que tentou tirar o Chávez [Hugo Chávez] do poder em 2002, e que agora conseguiu uma nova brecha com a morte de Chávez, e com o momento econômico complicado da Venezuela”, disse ele.

A professora venezuelana Carolina Rodriguez, que está em férias no Brasil, participou do ato em favor de Maduro. “Vim defendê-lo porque há pessoas gritando paz e pedindo paz, mas que fazem ações violentas para sair de um governo democrático, [mas agindo] de forma antidemocrática”, disse. Para ela, o apoio do Brasil e dos outros países da América do Sul ao governo Maduro é extremamente importante para a Venezuela.

“A união de todos os povos latino-americanos deve se manter e fortalecer. A diferença é que, em 2002, quando a direita fascista tentou dar um golpe ao governo Chávez, não existia, como hoje, as mesas [de negociação] do povo latino-americano. Agora temos a Unasul [União de Nações Sul-Americanas], o Mercosul, por isso agora somos mais fortes. E não vamos deixar que se mude o que a maioria decidiu e deseja: que é continuar [o governo Maduro]”, disse ela.

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Enquanto os manifestantes a favor de Maduro gritavam e cantavam palavras de apoio, a estudante Juliana Ribeiro Lima decidiu enfrentar o grupo sozinha, gritando contra o atual presidente da Venezuela. Ela disse que tem muitos amigos que vivem na Venezuela e que relatam os problemas que lá ocorrem. “Lá não tem papel higiênico, não tem comida. Quem discorda dele, morre”, falou ela.

Poucos momentos depois, por volta das 15h, o protesto de Juliana deixou de ser solitário. Outros sete manifestantes chegaram para se posicionar na calçada oposta do Consulado, exibindo faixas, pedindo a saída de Maduro. Uma delas foi o professor de filosofia Filipe Celeti. “Sou contra qualquer tipo de governo que inicia agressões contra pessoas não agressoras”, disse ele.

“O problema do governo Maduro é o fato de ser um governo socialista, com controle enorme sobre a economia, o que gera escassez e empobrecimento da população, além de exercer controle de informação e de expressão. É um governo com liberdades suprimidas tanto individualmente, de não poder se expressar, quanto economicamente, de não se poder comprar e vender livremente”, ressaltou Celeti.

“Todas as eleições no mundo, democráticas, válidas ou não, não justificam um regime que tolhe a liberdade do seu povo. Que regime é esse que um opositor vai preso ou que se tira um canal de TV do ar que é contra ele? Isso não é democracia. Democracia não é simplesmente vontade da maioria. Democracia é a vontade da maioria, respeitando as liberdades individuais”, acrescentou Felipe França, advogado e estudante de economia, também contrário ao governo atual venezuelano.

Mas, ao final da manifestação, os ânimos foram se contendo e os grupos foram se misturando. Não compartilhavam a mesma ideia, mas preferiram o diálogo com o seu opositor. Um exemplo foram os dois professores [ambos também ex-militares] Antônio da Silva Ortega [que ministra aulas de história e geografia] e Ernesto Tichler [professor aposentado de engenharia], que se reuniram em um canto da rua, amigavelmente, para bater papo e discutirem suas ideias divergentes sobre a Venezuela. Outra coincidência, além da profissão, é que ambos citaram a democracia para defender suas opiniões sobre a situação política venezuelana.

“Defendo a democracia. Estou aqui, ao lado do povo patriota da Venezuela, que luta contra uma ditadura que, do meu ponto de vista, se continuar, vai massacrar seu próprio povo”, disse Ortega. Já Tichler defende o governo Maduro. “Vim aqui para mostrar meu apoio ao governo bolivariano, uma vez que defendo a democracia. Todo mundo defende a democracia. Mas quem defende a democracia apoiando um golpe para derrubar um governo legitimamente eleito, não está defendendo a democracia, mas um golpe. E quem defende um golpe é fascista”, disse ele.

Para ambos, o que aconteceu em frente ao consulado, com dois grupos distintos se reunindo para trocar ideias ao final de uma manifestação, foi um grande exercício democrático. “É um direito democrático de todos. Aqui estamos, cada um defendendo seu lado. Às vezes há agressões por palavras, mas acredito que, se as pessoas se conhecerem melhor, isso fortalecerá nossa democracia”, falou Ortega. “É muito bom que todos se manifestem. Sou contra apenas a se usar violência para querer derrubar um governo. Mas o debate sempre é bem-vindo”, ressaltou Tichler.

Ao final das duas manifestações, representantes dos dois grupos combinaram a realização de um debate, na Universidade de São Paulo, para discutir a questão da Venezuela. A data não foi agendada.

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