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"Esperança de encontrar minha filha é o que me move todo dia", diz mãe Vera Lúcia Ranu fundou, em 1996, a Associação Mães da Sé e coordena a Associação Nacional de Prevenção e Busca a Pessoas Desaparecidas %u2013 Mães em Luta

Agência Brasil

Publicação: 11/05/2014 15:19 Atualização: 11/05/2014 15:21

“A esperança de encontrar a minha filha é o que me move todos os dias, me faz levantar da cama e continuar com o meu trabalho, ajudando outras famílias”. A declaração é de Vera Lúcia Ranu, 55, mãe de Fabiana Renata, desaparecida em 1992, quando tinha 13 anos. Em novembro daquele ano, a filha saiu de casa para ir à escola, no bairro Jaraguá, na zona oeste de São Paulo. Desde então, nunca mais foi vista.

Na semana do Dia das Mães, Vera contou como conseguiu transformar essa dor em ação. Com outras mães de crianças desaparecidas, ela fundou, em 1996, a Associação Mães da Sé. Hoje, coordena a Associação Nacional de Prevenção e Busca a Pessoas Desaparecidas – Mães em Luta.

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O interesse pelo trabalho de prevenção surgiu a partir da percepção de que, apesar do esforço de busca, o número de desaparecidos só crescia. “Resolvi trabalhar para levar à sociedade informação sobre as principais causas desse problema”, relatou. Segundo Vera, os conflitos familiares correspondem a 70% dos casos. “O desaparecimento ainda é um tabu muito grande, porque muitas famílias acham que isso não pode acontecer com elas. É preciso falar sobre isso”, apontou.

Em nove anos, a associação que ela coordena ajudou a encontrar 250 pessoas, das quais 60% são crianças e adolescentes. O cadastro da entidade possui aproximadamente 1,3 mil pessoas.

Após o desaparecimento da filha Fabiana, um dos momentos mais marcantes da vida de Vera ocorreu há aproximadamente dois anos, quando ela viu uma simulação da foto da filha adulta, produzida em meio digital. O programa do governo estadual produz imagens do desaparecido com a idade que ele teria atualmente. “Sempre imaginei minha filha do jeito que ela era quando saiu de casa para a escola. Vendo ela na foto, mesmo que digitalizada, com 34 anos, me gerou uma dor muito maior de saber tudo que perdi e talvez ela também tenha perdido nesses 21 anos de separação”, relatou.

Para ela, a dor da dúvida é pior do que saber se Fabiana está ou não morta. “Não enterrei minha filha”, lamentou. No caso de desaparecidos há mais de 10 anos, é possível requerer um atestado de morte presumida, informou. Ela, no entanto, se recusa a solicitar esse documento. “Quero que o Estado dê uma resposta para o que aconteceu com a minha filha”, justificou.

O tráfico de pessoas é uma das suspeitas para o desaparecimento de Fabiana. “Nos anos 1980, 1990, não se falava muito na questão do tráfico humano, e ainda não se fala. Acho que a minha filha e a maioria dessas meninas que não foram encontradas deve ter sido levada para prostituição, e por alguma razão não conseguiram voltar, por medo, não conseguiram mandar notícia. Ou aconteceu algo pior”, apontou.

Vera teve mais dois filhos: Fabíola, de 27 anos, e Luís Paulos, de 25. Tem também dois netos, um de 10 anos e uma de 5 anos. É a ausência de Fabiana, no entanto, que movimenta os dias dela. “A perda de um filho é uma dor tão grande, tão grande, que você pode ter inúmeros outros, mas aquele que não está presente acaba sendo a sua meta”, relatou. Ela reconhece que muitas vezes deixa de dar a mesma atenção aos que estão presentes, mas explica que foi na luta que encontrou uma motivação para superar a perda. “Aprendi que todo trabalho social é levado pela dor ou pelo amor. O meu, infelizmente, foi levado pela dor, mas também por amor à minha filha. Isso é o que me move”, declarou.

Ela destaca que são as mulheres que normalmente assumem esse papel protagonista na busca pelos filhos desaparecidos e acabam utilizando essa luta como forma de superar a perda. “São elas que passam mais tempo com os filhos, que engravidam. Minha filha foi muito desejada, demorei quatro anos, depois de casada, para tê-la. A gente cria um mundo de sonhos”, relatou. Apesar de conseguir lidar cotidianamente com a dor, Vera reconhece que as datas comemorativas são particularmente mais dolorosas. “A gente demonstra uma felicidade, mas é por fora. É pela família, pelos filhos, pelos netos. Por dentro, a gente está sangrando”.

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