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Moradores de favela que será removida veem jogo na laje de casa A Favela do Metrô-Mangueira começou a ser removida há cerca de quatro anos, quando as primeiras das mais de 600 casas foram demolidas pela prefeitura do Rio

Agência Brasil

Publicação: 17/06/2014 16:49 Atualização: 17/06/2014 17:15

Moradores da favela Metrô-Mangueira que será removida (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Moradores da favela Metrô-Mangueira que será removida

Em um sofá, a família se espreme para ver o jogo, na laje da casa. Na cozinha, uma porção de batata frita é preparada, enquanto os torcedores se animam bebendo uma caipirinha feita dentro de uma garrafa de cachaça de plástico. Compondo o cenário, estão bandeiras do Brasil, espalhadas pela residência.

A cena descrita se encaixa em muitos dos milhões de lares brasileiros, nos momentos que antecedem jogos da seleção nacional. O que a torna especial, porém, é que a cena ocorre em uma favela que está sendo removida no processo de transformação da cidade por causa da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

A Favela do Metrô-Mangueira, localizada a menos de um quilômetro do Maracanã, começou a ser removida há cerca de quatro anos, quando as primeiras das mais de 600 casas foram demolidas pela prefeitura do Rio de Janeiro. Os moradores originais foram realocados em um conjunto habitacional próximo dali, mas, assim que essas pessoas saíram, dezenas de famílias ocuparam os imóveis vazios que continuavam em pé.

A família de Michele Martins, que morava no Morro da Mangueira, localizado do outro lado de uma linha férrea, foi uma delas. Já cadastradas pela prefeitura, elas aguardam a oportunidade de ser beneficiadas por imóveis do Programa Minha Casa, Minha Vida. Da porta da cozinha, onde preparava os quitutes para servir durante o jogo Brasil x México, Michele lamentou a situação de incerteza em que vive sua família de sete pessoas. “É muito ruim não saber ao certo para onde vamos.”

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“Infelizmente, não tenho dinheiro para comprar um ingresso e entrar no Maracanã, mas vamos acompanhando a Copa pela televisão. Hoje vai ter uma biritinha e uma comidinha na laje”, resume Michele. Na laje, uma mesa improvisada apoia a televisão e um sofá rasgado acomoda a família.

Carlos Antônio Jesus da Silva, mora com a esposa, cadeirante, e um cachorro que ganhou "há alguns meses", em uma das casas que serão demolidas em breve. Silva pagava alugada e resolveu ocupar uma das casas quando os moradores originais foram realocados para um conjunto habitacional. “Acho que não tem problema o governo fazer uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada. Algo de bom deve ficar [como legado] para a gente, mas tinham de pensar primeiro em dar saúde e educação para o povo. Não tenho dinheiro para comprar ingresso, embora seja tão cidadão quanto qualquer outro.”

Conhecido polo de oficinas de automóveis, a Favela do Metrô-Mangueira ainda mantém seu comércio, apesar de grande parte dos moradores ter saído do local. Responsável por uma das oficinas, Geraldo Gonçalves, de 53 anos, também vive um momento de incerteza. O projeto da prefeitura é construir um polo automotivo na área da favela e realocar todos os comerciantes no local.

“Seria melhor continuar aqui onde estou, porque o ponto é bom. As pessoas já sabem onde me encontrar. Não sei como vai ser esse polo”, diz. “Por enquanto, vemos o movimento de clientes cair, porque muitas pessoas acham que as oficinas nem existem mais”, ressalta o mecânico, que instalou a televisão no próprio local de trabalho para assistir a Brasil x México, enquanto adianta o serviço no carro de um cliente.

Alheio ao clima de Copa que toma conta do que restou da Favela do Metrô, o mecânico Josivan Paulo da Silva, é taxativo: não quer assistir a nenhum jogo do Brasil. “Essa é a Copa da vergonha. É uma Copa para estrangeiro e para quem pode pagar por um ingresso. Se eu gastar R$ 800 num ingresso, minha família passa fome. Não quero saber de jogo. Vou é trabalhar.”

Ex-operário que trabalhou na reforma do Maracanã, de 2011 a 2013, Carlos Monteiro até ganhou um ingresso para assistir ao jogo Rússia x Bélgica, mas não tem motivo para comemorar. Desempregado há cerca de uma semana, o morador da Mangueira aproveita um sinal de trânsito, em frente à Favela do Metrô para vender bandeiras do Brasil. “Por enquanto, o movimento está fraco. Acho que as pessoas não estão acreditando muito na seleção, não. Vamos ver se melhora com o passar do campeonato. Por enquanto, estou tendo até que baixar o preço, para ver se consigo vender alguma coisa.”

A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Habitação informou que todas as famílias que ocuparam as casas remanescentes da Favela do Metrô nos últimos anos foram cadastradas, estão recebendo aluguel social e deverão ser beneficiadas com imóveis do Minha Casa, Minha Vida.

Já as obras de instalação do Polo Automotivo Mangueira estão em processo de licitação. A assessoria de imprensa da Secretaria não soube informar quando as obras começarão ou serão concluídas. O complexo contará com 96 unidades comerciais, com dimensões entre 30 e 60 metros quadrados.

Na nota, a secretaria informa que a prefeitura resolveu remover a comunidadepor considerar “inadequada a ocupação residencial em via de intenso tráfego de veículos". "Com isso, poderá ser realizado o ordenamento do comércio automotivo local, importante vertente para geração de renda e trabalho dos moradores. A nota explica que a área beneficiada, pertencente ao Complexo da Mangueira, situa-se em uma região estratégica da cidade, rodeada de equipamentos de porte e caráter metropolitano, como o Complexo Esportivo do Maracanã, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a Quinta da Boa Vista, além de contar com boa infraestrutura de transportes metropolitanos, com redes de metrô e trem.

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