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Sete meses após alerta, governo retoma debate sobre mortes por chikungunya

"Saímos do primeiro encontro motivados. Mas vieram as mudanças políticas, alterações de equipe, o assunto foi esquecido, nada avançou", disse o infectologista Carlos Brito

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postado em 31/10/2016 16:00

Agência Estado


Sete meses depois do alerta e sem nenhuma medida adotada, o Ministério da Saúde retoma a discussão sobre o elevado número de mortes por chikungunya no Brasil. Dentro de duas semanas, especialistas de vários Estados devem se encontrar em Brasília para tentar decifrar as razões que levam a infecção, provocada por um vírus transmitido pela picada do Aedes aegypti, a causar tantas mortes. Até agora, foram confirmados 120 óbitos pela doença. O número pode ser muito maior do que a estatística oficial. A confirmação de casos suspeitos é lenta, em virtude das dificuldades enfrentadas pelos laboratórios oficiais.

Embora importante, a discussão convocada pelo ministério é considerada tardia. Um encontro semelhante foi feito em abril. Na época, foi reconhecida a necessidade de se estudar os casos até então reunidos, identificar os fatores de maior risco para o agravamento das infecções e, a partir daí, fazer uma espécie de manual voltado para profissionais de saúde. Às vésperas do verão, período de maior risco de epidemia, nada foi feito.

"Saímos do primeiro encontro motivados. Mas vieram as mudanças políticas, alterações de equipe, o assunto foi esquecido, nada avançou", disse o infectologista Carlos Brito. Agora, avalia, será difícil que descobertas sejam feitas a tempo de se reduzir, por exemplo, erros no tratamento de pacientes.

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Somente em Pernambuco, foram notificados este ano 354 casos suspeitos de mortes de pacientes com arboviroses (grupo de doenças que inclui dengue, chikungunya e zika). Desse total, 134 foram até agora identificadas: 62 por chikungunya e 37, por dengue e 35 apresentaram resultados positivos para os dois vírus "Esse é o maior número de mortes relacionadas a arboviroses no Estado desde que os dados começaram a ser contabilizados", afirmou Brito. Nos últimos 20 anos, disse, a maior marca encontrada no Estado foi de 37 mortes por dengue. O infectologista não hesita em atribuir a marca deste ano à chikungunya. "Não se via isso no passado."

A Secretaria de Estado de Pernambuco afirma que, além do diagnóstico laboratorial, é preciso uma investigação de cada caso, para se assegurar que a arbovirose foi de fato o motivo da morte do paciente e não um cofator.

A preocupação aumenta quando se leva em consideração o risco da doença no País. Este ano, a chikungunya provocou epidemia no Nordeste, com incidência de 368 casos a cada 100 mil habitantes. A maior concentração ocorreu no Rio Grande do Norte: 702 casos a cada 100 mil habitantes. Epidemiologistas temem que essa onda agora se replique em outras regiões do País.

Brito explica que a chikungunya é conhecida por provocar epidemias explosivas. Foi o que ocorreu, por exemplo, na América Central em 2013 e 2014. No Brasil, por razões desconhecidas, a transmissão da doença demorou a ganhar força. Os primeiros casos foram registrados há dois anos, mas foi somente este ano que a circulação do vírus ganhou todo o País. "Ela se espalha com muito mais facilidade do que dengue e zika", disse. A estimativa, disse, é de que, numa epidemia, a doença possa atingir até 30% da população de uma área afetada. "Daí a preocupação. Se a mortalidade for de um caso a cada mil habitantes..."

Além da mortalidade, a chikungunya preocupa por causa das limitações aos pacientes e, também, pela infecção nas gestantes. Na população em geral, a doença pode se tornar crônica, levando a dores incapacitantes nas articulações. "Há casos em que o paciente, depois de um período de melhora, volta a ter dores muito fortes - fazendo com que ele tenha de se afastar do trabalho e de atividades rotineiras", completou.

Há também relatos de a doença ser transmitida da gestante para o feto. O processo, no entanto, ocorre nos últimos meses da gestação. "Ela pode provocar efeitos gravíssimos. Levando à morte do bebê logo depois do parto", afirma Brito.

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