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Caminhada pela Vida pede fim do genocídio de jovens negros de São Paulo

A passeata, organizada pelo Fórum em Defesa da Vida, reuniu familiares de vítimas, militantes e simpatizantes da causa

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postado em 02/11/2016 15:31

A 21ª Caminhada pela Vida e pela Paz ocupou as ruas do extremo sul da capital paulista hoje (2) pedindo o fim do genocídio contra jovens negros e contra a população das periferias. A passeata, organizada pelo Fórum em Defesa da Vida, reuniu familiares de vítimas, militantes e simpatizantes da causa e seguiu da Paróquia Santos Mártires, no bairro de Jardim Ângela, até o Cemitério Jardim São Luís.

O padre da Paróquia Santos Mártires, Jaime Crowe, falou da importância da caminhada, que ocorre desde 1996. “Iniciamos [a caminhada] quando o Jardim Ângela foi conhecido como o [bairro] mais violento do mundo. Já caiu a violência, mas ainda não chegamos onde queremos. Queremos nenhuma morte a mais, nenhum jovem a menos. Enquanto estão sendo ainda assassinados adolescentes e jovens, nós precisamos levantar o nosso grito pela vida”, disse o religioso.

“Nosso grito é para que haja uma mudança na polícia, a desmilitarização da polícia e haja uma polícia mais próxima ao povo. Uma das lutas do Fórum em Defesa da Vida foi o policiamento comunitário, mas já foi jogado para o escanteio nos últimos anos e apelamos para que isso seja retomado, uma segurança próxima ao povo”, acrescentou.

Henrique Galdencio, 32, morador da zona sul, participa da caminhada desde sua primeira edição, quando ele tinha apenas dez anos. “Há sete anos eu perdi um primo, vítima de homicídio. Há quatro anos perdi outro primo, também vítima de homicídio. Então, isso é recorrente na minha família”, contou. “Eu acho importante participar da caminhada da paz, principalmente aqui na zona sul de São Paulo, onde a criminalidade é muito grande, onde não existe punição para quem comete crimes de tamanha gravidade”.

Para Fabiana Ivo, do Fórum em Defesa da Vida, a caminhada é uma maneira de dar visibilidade à violência sofrida pelos jovens da periferia. “Estamos há 21 anos lutando para dar visibilidade a um genocídio que é diário, a partir da ausência de políticas públicas voltadas diretamente para a juventude”, disse.

“Hoje é um momento de dar visibilidade para uma luta que está posta há 21 anos nessa região, em um bairro que já foi considerado o mais violento do mundo e que hoje permanece na estatística como o terceiro bairro mais violento do estado de São Paulo”, acrescentou Fabiana.

Jovens desaparecidos


Integrante do Movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, que teve um filho assassinado em 2006, no episódio que ficou conhecido como Crimes de Maio, esteve na caminhada pela paz e falou do caso recente de cinco jovens desaparecidos na região do Grande ABC, estado de São Paulo, desde 21 de outubro.

“O desaparecimento é uma das maiores torturas para os familiares. Eu sou irmã de desaparecido, eu vi minha mãe, durante 36 anos, morrendo lentamente. Eu enterrei meu filho, minha mãe não. Eu não enterrei o meu irmão. É uma lacuna, é uma ferida aberta, muito mais aberta do que a de uma mãe que enterra seu filho, que já é doído”, disse.

Os cinco jovens desaparecidos estavam indo de carro a uma festa em um sítio em Ribeirão Pires e, desde então, as famílias não tiveram mais notícia deles. A última informação que a família recebeu foi uma mensagem de um dos jovens no celular dizendo ter sido parado em uma blitz policial. Como há a suspeita de participação de policiais no desaparecimento dos garotos, a Corregedoria da Polícia Militar está acompanhando o caso e também já começou a ouvir o depoimento das mães.

“Eu me alimento dessa luta [contra a violência e o genocídio]. Eu peço força pro meu filho pra continuar viva e pra lutar pelos que estão vivos. Essa foi a missão que ele me deu. Cada um desses jovens que tomba é uma dor, é como se tombasse o meu filho de novo”, desabafou. Débora lamentou também que outras mães deixem de lutar por medo. “Menos mães estão na rua para lutar porque o estado toca o terror, toca a cultura do medo e temos que quebrar essa cultura do medo, porque o estado pode ser um gigante, mas nós mães somos muito mais” finalizou
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