Pernambucano é o leigo que ocupa o cargo mais importante do Vaticano

Hoje, o 'matuto' do agreste pernambucano, como ele mesmo diz com orgulho, é um dos organizadores do Jubileu de Ouro da Renovação Carismática

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postado em 28/05/2017 08:00 / atualizado em 28/05/2017 11:52

Arquivo Pessoal
 


Recife — Filho de um marceneiro e uma dona de casa. Natural de Boca de Dois Rios, comunidade que fica na divisa entre os municípios de Surubim e Bom Jardim, no interior do estado. Nascido com ajuda de uma parteira, numa Sexta-feira da Paixão, em 12 de abril de 1968. Carismático, sorridente e cristão. Um homem que circula entre os corredores suntuosos do Vaticano, na Itália, e as estradas de chão batido da África. A descrição é de Gilberto Gomes Barbosa, 49 anos. Hoje, o “matuto” do agreste pernambucano, como ele mesmo diz com orgulho, é um dos organizadores do Jubileu de Ouro da Renovação Carismática, que terá início a partir do dia 31, em Roma, a capital italiana. Gilberto ocupa o mais alto posto que um leigo poderia ter na hierarquia da Igreja Católica como presidente da Fraternidade Internacional das Novas Comunidades de Vida e Aliança de Direito Pontifício (Frater). Ele é o primeiro brasileiro a exercer essa função e já se reelegeu.

 

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É a história do leigo de maior influência da Igreja Católica no mundo que se encontra com o papa cerca de seis vezes ao ano e representa aqueles que sentam nos bancos da Igreja e seguem o mesmo credo. A Frater foi criada pelo Conselho Pontifício para os leigos, em novembro de 1990, com o objetivo de integrar cerca de três mil novas comunidades ligadas à Renovação Carismática Católica no mundo. No Brasil, estima-se uma população de católicos carismáticos de 3,8 milhões, todos influenciados pelo pernambucano.

Gilberto usa uma medalha no peito com a imagem do Cristo Crucificado no Calvário, ao lado de Maria e o discípulo João aos pés da cruz. De forma tímida, ele aperta as mãos ao contar as histórias de Deus, fixa os olhos para o alto, como se estivesse sonhando, e sorri como se fosse menino do interior. A receita para não se perder entre a suntuosidade do Vaticano e as missões que realiza na África, por meio da Obra de Maria, da qual é fundador, é simples: dedicação ao que ele chama de “mistério do sofrimento”. Ao longo da vida, Gilberto já se encontrou com três papas: João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Fez cerca de 50 viagens ao Vaticano, desde 2013, e já visitou a África aproximadamente 50 vezes.

“O mesmo carinho com que eu vou para um hotel cinco estrelas eu sinto quando durmo no chão da África, sem luz, sem água encanada. Eu amo a África. No mesmo avião que eu saio daqui para ir a Roma, vou com a mesma felicidade à África”, conta Gilberto, na sede da Obra de Maria que fica na Várzea, Zona Oeste do Recife. Lá, naquele bairro, ele começou o ministério que o tornou conhecido no Brasil e no mundo, no início da década de 1990.

A Obra de Maria surgiu num casarão da Várzea, de cores azul e branca, como as do manto da mãe de Jesus, e hoje se estendeu para 17 países, entre eles, Moçambique, Costa do Marfim, Angola e Cabo Verde. A instituição foi fundada por Gilberto, com ajuda de Maria Salomé, cerca de cinco anos depois que ele começou a frequentar a Canção Nova, no município de Paulista. O religioso passava de ônibus quando avistou o casarão que não tinha sequer portas e resolveu que ali seria um espaço para servir a Deus. Todas as modificações no imóvel aconteceram de forma quase milagrosa. O Obra de Maria tem cerca de 2,7 mil missionários e é expoente da Renovação Carismática de Pernambuco.

Missão

Gilberto Barbosa não domina quatro idiomas, como exige o cargo que ocupa no Vaticano, onde circulam religiosos de vários povos e culturas, bispos, cardeais e o próprio papa. Mas a língua universal da caridade derrubou barreiras e o levou à função que ocupa, na qual chamou a atenção do papa Francisco não só pela dimensão da Obra de Maria, no Brasil, como pelas renúncias materiais que fez ao assumir a Frater.

O cargo de presidente da fraternidade internacional lhe dá direito de ter um apartamento, um escritório com relíquias de santos e um salário de 9 mil euros (R$ 33,1 mil). O espaço onde ele poderia trabalhar daria para abrigar até 100 pessoas. Não foi necessário. Nada disso, aliás. Gilberto vive com ajuda da Obra de Maria. “Aquelas jovens que falavam para mim (no dia da conversão)interpretaram as palavras do Evangelho. Eu não planejei nada, não sonhei nada (…) A quem é fiel no pouco Deus o confiará mais. Talvez seja isso. Eu fui fiel nas pequenas coisas e Deus me confiou grandes coisas.”

No fim do mês, o religioso comandará a missão de levar 8 mil brasileiros ao Vaticano para os festejos dos 50 anos de Renovação Carismática. É motivo de orgulho e elogios? “Todo mundo se sente bem quando é elogiado, como não? Jesus cobrou gratidão quando curou 10 leprosos e apenas um voltou para agradecer. Tudo que somos é tudo que Deus fez em minha vida”, disse ele, para depois completar. “Um cardeal do Vaticano brinca comigo. Ele diz: ‘Gilberto, você tem que entender. Quando testemunha as maravilhas de Deus, é um exemplo para as pessoas. Um pouquinho de incenso não faz mal a ninguém’.”
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