Cais do Valongo, a porta de entrada dos escravos é reaberta no Rio

As pedras do Cais do Valongo, abaixo de uma praça coberta com uma espessa camada de concreto, são marcas desse passado que luta para cicatrizar em um Brasil, que, apesar de seu multiculturalismo, ainda vive o racismo

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postado em 01/07/2017 11:09

Mauro Pimentel/AFP

 
Rio de Janeiro, Brasil - À primeira vista, é um simples conjunto de blocos de pedras desgastadas pelo tempo na zona portuária do Rio de Janeiro. Mas essas pedras estão carregadas da história dolorosa dos escravos africanos que desembarcaram no Brasil. As pedras do Cais do Valongo, abaixo de uma praça coberta com uma espessa camada de concreto, são marcas desse passado que luta para cicatrizar em um Brasil, que, apesar de seu multiculturalismo, ainda vive o racismo.

Elas foram pisoteadas há dois séculos por quase um milhão de escravos recém-chegados no Brasil, procedentes da África, principalmente ocidental. "Com as pesquisas arqueológicas que trouxeram à luz os vestígios do cais, imediatamente percebemos que estávamos diante de um local de memória único nas Américas, porque não há outro vestígio de desembarque", explica o antropólogo Milton Guran, responsável pela candidatura deste sítio arqueológico no Patrimônio Mundial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A candidatura foi oficializada em março de 2016, e a decisão final dessa agência da ONU será tomada durante uma reunião de dez dias que começa domingo (2), na cidade polonesa da Cracóvia. Em 2012, a cidade do Rio de Janeiro já havia sido declarada Patrimônio Mundial da Unesco em razão de suas riquezas naturais, entre o mar e a montanha.

O reconhecimento desse novo sítio lhe permitiria ser incluída na mesma lista que a ilha da Goreia. Declarada Patrimônio Mundial em 1978, a ilha senegalesa é reconhecida como o ponto de partida simbólico dos escravos africanos para a América. A milhares de quilômetros de distância, do outro lado do Atlântico, os vestígios do Cais do Valongo permitem reconstruir o final de uma terrível viagem.

Herança pesada
"Aqueles que sobreviviam à travessia, tinham que percorrer apenas mais alguns passos para chegar ao seu próximo destino, o mercado dos escravos, formado por várias lojas espalhadas em torno da praça", explica o historiador Cláudio Honorato.

"Era um bairro inteiro transformado em um grande complexo em torno desse comércio, com lojas de compra e venda de escravos, lojas para fazer o ferro para prender os escravos", acrescenta o pesquisador do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que expõe milhares de ossadas de uma gigantesca fossa comum descoberta não muito distante do Cais do Valongo.

Os escravos não permaneciam muito tempo no Rio de Janeiro. Uma vez vendidos, eram rapidamente levados para as plantações de cana-de-açúcar do Nordeste, as minas de ouro de Minas Gerais, ou para as plantações de café da região de São Paulo.

Os números são difíceis de estabelecer com precisão, mas muitos historiadores concordam que o Brasil recebeu mais de quatro milhões de escravos vindos da África, ou seja, 40% das vítimas do tráfico para as Américas. Uma herança pesada de ser carregada por um país que foi um dos últimos a abolir a escravidão, em 1888.

Principal porta de entrada dos escravos no Rio de Janeiro do final do século XVIII e meados do século XIX, o Cais do Valongo desapareceu progressivamente, sob várias camadas de coberturas variadas.

Com as obras de extensão da metrópole do Rio, o Valongo foi descoberto a uma centena de metros do mar. O sítio arqueológico foi revelado em 2011, durante escavações realizadas antes das obras de revitalização da zona portuária, um dos projeto faraônicos para os Jogos Olímpicos de 2016. "Sabíamos que o Cais do Valongo se encontrava neste local, mas não esperávamos encontrar muita coisa e foi absolutamente surpreendente a forma como se preservou, em função da grande profundidade em que está", comentou a arqueóloga Tânia Andrade Lima, responsável pelas escavações.

Acima dos blocos de pedra grosseiramente talhados, sobre os quais os escravos caminhavam, é possível observar pedras finamente modeladas, usadas para formar o Cais da Imperatriz, relata a pesquisadora. "Pedras que a gente chama pé de moleque, pedras grosseiramente talhadas, que estão bem mais embaixo. São pedras para negros. Isso acima é pedra para branco", explica.

Crime contra humanidade
O cais foi, de fato, totalmente transformado e rebatizado em 1843 para receber a princesa Teresa Cristina Maria de Bourbon, que desembarcou no Brasil para se casar com Dom Pedro II. "Essa superposição é fortemente simbólica, porque contrasta os dois extremos da sociedade: uma princesa de Bourbon, chegando da Europa para se casar com nosso imperador e, embaixo, os escravos, quer dizer, ela pisando sobre os escravos", ressalta a arqueóloga. "O Cais da Imperatriz foi a primeira tentativa de ocultar esse local de memória", afirma Cláudio Honorato.

Ele vê no reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial uma "reparação" frente "a um crime contra a humanidade, cujos descendentes continuam a pagar ainda hoje". Para Milton Guran, isso "obrigaria o Brasil a reconhecer suas raízes africanas" e "estimularia o turismo da memória".

Para atrair turistas em massa, muitos esforços ainda são necessários neste bairro pouco frequentado e pouco seguro. Protegido por um simples gradeado, sem presença policial, o sítio é particularmente vulnerável. No meio da semana, um par de sapatos foi jogado no meio do sítio. Uma outra maneira de pisotear este local de memória tão sensível.
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