Início do recesso parlamentar não significa fim da crise política

Nas próximas duas semanas, os parlamentares estarão de recesso, mas isso não significa que os dias serão tranquilos na Esplanada

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postado em 16/07/2017 08:00 / atualizado em 15/07/2017 22:33

Editoria de Arte/C.B/D.A Press

O início do recesso parlamentar, na última sexta-feira, não significou que a crise política entrou de férias. Longe disso. Ao longo das próximas duas semanas até que o Congresso retome os trabalhos, governistas e oposicionistas seguirão trabalhando nas bases para conquistar votos contra ou a favor do processo envolvendo o presidente Michel Temer.

 

Novas delações do ex-deputado Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro devem ser oficializadas. Quando retornar de uma missão oficial aos estados, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deverá apresentar novas denúncias, por obstrução de justiça e formação de quadrilha.

 

“Quando foi o último recesso que serviu para amenizar as crises?”, questionou o cientista político e professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Carlos Melo.


Ele lembra que, em janeiro de 2016, após a decisão do Supremo Tribunal Federal de definir o rito de tramitação do impeachment de Dilma, a impressão era de que a então presidente escaparia da cassação. Quando o Congresso retornou aos trabalhos, em fevereiro, bastaram três meses para que a petista fosse afastada do cargo. Para Melo, após o êxito do governo na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ), onde conseguiu — à custa da troca de deputados e da liberação de emendas parlamentares — aprovar, por 41 a 24, um relatório favorável ao presidente; os interessados em afastar o peemedebista buscarão novas alternativas.

 

“Podemos prever que fatos novos — se existirem — apareçam na última semana de julho, mais próximo do retorno dos trabalhos parlamentares”, completou Melo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), marcou para o dia 2 de agosto a sessão plenária para votar o relatório apresentado pelo deputado Paulo Abi-Ackel, após a base conseguir derrubar o texto adverso apresentado pelo deputado Sérgio Zveiter (PMDB-RJ). O próprio Planalto já trabalha com novos atrasos provocados por falta de quorum em agosto, levando o processo para setembro.


A ideia inicial do Planalto era resolver o caso antes do recesso. Agora, a estratégia é empurrar com a barriga. “Esse governo já sobreviveu a tantos escândalos e tem tantos ministros envolvidos em denúncias que fica difícil precisar o que é necessário para que ele seja derrubado”, reconheceu o professor de ciência política do Ibmec-MG, Adriano Gianturco. É com isso que o Planalto conta. Para um integrante da cúpula do Planalto, quanto mais o processo demorar, mais a classe política e os agentes econômicos chegarão à conclusão de que é melhor deixar Temer até o fim do mandato e delegar ao povo a escolha do novo presidente por eleições diretas em outubro de 2018.


Um fiel escudeiro do presidente Michel Temer garante que dá para relaxar nas próximas duas semanas. Carlos Marun (PMDB-MS) diz que a vitória na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dá a segurança de que o governo precisa nos próximos dias. “Essa denúncia já está liquidada. É um sinal de tranquilidade, mas não de desconcentração. E de felicidade, porque conseguimos provar a fragilidade da denúncia. Depois dessa, duvido que venham outras denúncias. Caem por terra todas as outras acusações”, defende Marun.

Para o deputado federal Daniel Coelho (PSDB-PE), não há possibilidade de um recesso tranquilo pela frente, pois a crise política existe independentemente de parar o Congresso ou não. Em relação ao encaminhamento da denúncia em plenário, Coelho diz que não faz diferença o governo conseguir derrubar a denúncia. “O placar dos votos é que será determinante. A chance de a base governista vencer é enorme, mas um governo que tem 270, 280 votos contra ele não tem condições de governar”, acredita.

Há também quem acredite que o contato dos deputados com o eleitorado nos estados pode ser prejudicial para o governo, pois sentiriam o termômetro da influência que um voto pró-Temer poderia causar nas próximas eleições, em outubro de 2018. “Todas as pesquisas indicam que o Temer tem de sair. Os deputados ficarão constrangidos e isso arrastará um número importante de votos”, acredita o líder do PT na Câmara, Carlos Zarattini (SP).

Pressão, sem gente na rua ou panelas sendo batidas. O sociólogo Bruno Borges explica o motivo da apatia. “Em todo o mundo, especialmente nos países ocidentais, há uma onda de negação das instituições e da política como espaço de resolução de conflitos. Essa realidade potencializa a tendência.” Internamente, afirma Bruno, há um sentimento de esgotamento na população. Diante de uma democracia muito recente, o país viveu momentos intensos de mobilização na década de 1990 — com o impeachment do ex-presidente Fernando Collor — e a iniciada em 2013, que culminou na saída de Dilma Rousseff do poder.

“Duas vivências que não conseguiram proporcionar uma terceira via. A partir daí, tudo piorou. Passamos a questionar o Executivo, o Legislativo e até o Judiciário. A sociedade questiona o seu poder de organização, porque não se chega a uma representatividade. Há um desgaste natural, desconfiança e constrangimento”, explica Borges. O sociólogo, porém, lembra que, apesar de não haver pressão nas ruas, existe um forte assédio pelas redes sociais. “É uma pressão real. O político mais novo reconhece isso e acompanha. Não é o fato político a que a gente está acostumado. A rua tem força para tirar um governo. A internet talvez não tenha, mas é uma força que não podemos deixar de considerar”, acrescenta.

Julho longe da folga

Recesso significaria tempo de paz no Congresso, porém, com o adiamento da votação da denúncia de Temer para 2 de agosto, as próximas duas semanas prometem ser conturbadas. Confira os cenários positivo e negativo para o governo:

Calmaria

» Com pelo menos mais uma denúncia contra o presidente da República na mesa, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, passará esta semana nos Estados Unidos, em missão oficial.

» Sem os trabalhos no Congresso, governo terá mais facilidade de negociar com a base e de traçar uma estratégia sobre a votação da denúncia em plenário. Alguns falam em esperar as outras para votar todas de uma vez e evitar sucessivos desgastes.

Tormenta

» Vazamento de delações do doleiro Lúcio Bolonha Funaro e do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

» Pressão sobre os deputados em seus colégios eleitorais.

» A apresentação de novas denúncias por Rodrigo Janot.

» Na última semana de julho, o Comitê de Política Monetária do Banco Central anunciará uma nova queda na taxa de juros. A depender do percentual, indicará o nível de confiança no governo sobre a capacidade de tocar ou não as reformas.

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