Construído nos anos 1960, carro Patinho Feio faz história

Com disciplina, estudo e persistência, um grupo de quatro adolescentes construiu, nos anos 1960, um carro lendário que se tornaria famoso em corridas na cidade e fora dela

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postado em 10/09/2017 06:00

Arquivo/CB/D.A Press
 
Na prova automobilística 500km de Brasília, edição de 17 de setembro de 1967, o segundo lugar valia mais que o primeiro, e o veículo mais desacreditado entre os concorrentes foi, também, o mais amado pela torcida.
 
Os personagens principais dessa história são o sonho de quatro amigos apaixonados pela velocidade e a máquina, subproduto de um fusca batido com peças de ferro velho e uma carcaça de chapas rebitadas nos moldes escolhidos pela equipe Camber e montado em cerca de 20 dias. Batizado pelo público de Patinho Feio, a caranga pretendia disputar com Porsches, Ferraris e outras grandes marcas do mundo dos automóveis.
 

O dispensável primeiro lugar da disputa ficou com um Alfa GTV da renomada Scuderia Jolly Gancia, da Alfa Romeo. O concorrente, esquisito, porém leve, surpreendeu até os próprios idealizadores, José Álvaro Vassalo, mais conhecido como Zeca Vassalo, Jean Luiz da Fonseca, Helladio Monteiro e Alex Dias Ribeiro, que viria a se tornar piloto de Fórmula 1. A corrida, que aconteceu nas ruas da capital, e o modelo inusitado, que chamou a atenção de todos, entraram para a história de Brasília e do automobilismo.
Patinho Feio correria, ao menos, até a década de 1970. Com o tempo, ganhou rodas esportivas e até aerofólio. E chega hoje aos 50 ainda em condições de rodar, símbolo de idealismo e resistência para seus construtores e para todos os que presenciaram a corrida.

A primeira disputa do Patinho Feio foi, também, a mais importante. Aconteceu em uma época em que a frota de carros local era muito menor, bem como o número de semáforos. O quarteto de amigos tinha a esperança de que a “lata-velha” conseguisse dar ao menos uma volta. A largada aconteceu na base do sorteio e os azarões ainda saíram na 33ª posição, a última, para ser mais preciso. Deram a partida e dispararam, para a surpresa dos concorrentes. Já na primeira volta, deixaram vários competidores comendo poeira. Na terceira, estavam em sexto lugar, na quarta, em quarto e, em pouco mais de uma hora de disputa, brigavam pela segunda colocação.

Montados e impulsionados pelo chassi e pela mecânica de um fusca, acompanhando os indicadores dos ponteiros no rústico painel do modelo, o grupo corria o mais rápido que podia. Os bolsos vazios talvez ajudassem a dar leveza para a desengonçada máquina com trejeitos de gafanhoto. Ainda nem tinham terminado de pagar o financiamento dos pneus. Quando entraram, a plateia e os outros pilotos deram risada. Quem eram os loucos que levaram aquele gafanhoto para a corrida? Nas últimas voltas, tinham conquistado Brasília. As chances de vencer eram reais. Uma reviravolta. Ainda assim, o Alfa Romeo chegou em primeiro. Os aplausos, porém, eram para os jovens brasilienses.

Bodas de ouro
 
Oficialmente, Patinho Feio se chamava Camber PT1, sendo Camber o nome da oficina criada pelos quatro. À época, os mais velhos, Alex e Jean Luiz, tinham 18 anos. Eles aprenderam sobre mecânica com um profissional da área, quase que informalmente. Os outros dois eram adolescentes. “Nosso exemplo era uma oficina chamada Torque. Como não podíamos usar o nome, fizemos um brain storm e pegou o Camber”, relembra Alex. A ideia era criar uma empresa para consertar e envenenar motores, resultado do amor pelo automobilismo. Mas eles não tinham carros para modificar, a não ser os dos pais. “Quando decidimos que faríamos a oficina, não tínhamos nada. Mas o pai do Heládio tinha sido sócio de uma oficina que fechou. De repente, uma série de ferramentas estavam à nossa disposição”, completa.

Inicialmente, a Camber funcionava na garagem da casa da mãe do Zeca, na W3 Sul. Ela também permitiu que eles construíssem um barraco no quintal, para guardar equipamentos, mas ninguém tinha coragem de deixar o carro com os garotos. O fusca batido pertencia ao pai de Alex, o médico Isaac Barreto Ribeiro, que sofreu um acidente enquanto ia para o trabalho, no Hospital do Gama. O diagnóstico era perda total. “Eu falei, ‘pai, me dá o fusca’. Ele ficou meio cabreiro. No fim, disse que ia dar o carro, mas não daria nem um tostão. Teríamos que nos virar”, conta o ex-piloto.

Desafios
 
A primeira versão do Camber PT, ou do Patinho Feio, mostrou logo a que veio. “O carro, sem carroceria, com a barra do volante apoiada na perna e uma garrafa Pet como tanque de combustível, corria muito. Olhamos o regulamento para corridas e decidimos pôr, no chassi, só o mínimo necessário para competir”, revela Jean Luiz. Eles também tinham de convencer o presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo a deixá-los correr. “Dissemos que tínhamos construído um carro. Ele pediu para levá-lo lá. Se estivesse tudo dentro do regulamento, permitiria”, conta Jean. “Ele não acreditava que fôssemos voltar. Por mais feio e estranho que fosse, ele olhou (o carro). Estava tudo dentro do regulamento. Foi obrigado a aceitar. E o carro só ficou completamente pronto no dia da corrida”, completa Alex.

Apesar da aparência não convencional do Patinho Feio e da baixa probabilidade de um grupo de adolescentes fazer um carro de corrida funcional, o segredo do grupo de amadores foi justamente o profissionalismo. Eles estudaram cada detalhe, incluindo a pilotagem e os trajetos. Sacrificaram noites e fins de semana para alcançar o sonho. Em 1968, Patinho Feio concorreu no 1.000km de Brasília.  Posteriormente, disputou a Corrida de Goiânia e também esteve na inauguração do Autódromo do Rio de Janeiro, além de ser carro-madrinha em várias disputas, incluindo a primeira do circuito de Interlagos. Ganhou um aerofólio fabricado pelo grupo.

Após a primeira vitória, a Camber se transformou em uma oficina famosa na capital. Foi revendedora oficial de marcas como Puma, Yamaha, Fittipaldi e outras. Os meninos saíram da garagem e se mudaram para a Asa Norte. Mais tarde, foram para a Asa Sul. De lá, saíram três pilotos da Fórmula 1. Além de Alex, o tricampeão Nelson Piquet, que também correu no Patinho Feio, e Roberto Pupo Moreno.

O sonho se manteve até meados de 1974. “Deixamos um legado. Uma lição de empreendedorismo. Saímos do nada, sem dinheiro. E o sonho chegou aonde chegou. Se você imaginar, acreditar no sonho, estudar e trabalhar pra valer, tem tudo para dar certo. Em qualquer ramo”, afirma Jean. “A Camber, como pessoa jurídica, durou sete anos. Mas o espírito da Camber continua vivo. O espírito é eterno”, declara Alex. “A Camber não era uma empresa, mas um estado de espírito”, completa o primeiro.

Inclinação de projeto
O nome faz referência à inclinação das rodas de um veículo em relação ao motor. O topo do pneu deve estar mais afastado do chassi que a base, para evitar deformidades na base. Fora do valor de projeto do veículo, além do desgaste da borracha, pode causar instabilidade. Ao contrário do que se imagina, é muito difícil tirar o camber da medida de fábrica.
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