Motorista que matou 3 tinha rotina entre farras e clínica para reabilitação

Segundo amigos, João Victor costumava pegar o carro para fazer rachas. Era "tranquilo", mas se transformava sob efeito de álcool e drogas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 28/11/2017 11:06

Diário de Pernambuco
 
Um homem festeiro, dependente químico desde a adolescência e que gostava de fazer racha pelas ruas do Recife. É assim que João Victor Ribeiro de Oliveira, 26 anos, é descrito por amigos e pessoas que o conheciam de festas. Estudante de engenharia civil e morador de Casa Caiada, em Olinda, ele passava mais tempo em shows e casas de eventos do que estudando, dizem os colegas. Tentou se livrar do vício em clínicas de reabilitação. Foi à última em março de 2016, quando chegou a assinar um contrato para ser internado. Foi à clínica, em Aldeia, Camaragibe, com o pai, numa quinta-feira. O combinado era que voltasse na segunda seguinte, mas nunca apareceu.

Segundo um amigo, ele é “uma pessoa tranquila que se transforma quando consome drogas e álcool”. O estudante sempre recebia conselhos de parentes, amigos e conhecidos para não dirigir drogado ou alcoolizado. “A gente dizia que poderia dar problema, mas ele gostava muito de fazer pega na rua e, na maioria das vezes, usava o carro do pai escondido”, relatou o rapaz. “Quando a gente falava de drogas, ele sempre dizia que fazia bem e o que fazia bem ele não ia largar”, completou. “Entrava e saía de clínicas de recuperação. A avó, coitada, fazia de tudo, queria vê-lo livre das drogas. Nem consigo imaginar como ela deve estar sofrendo”, contou outro amigo. 

Um terceiro amigo disse que João Victor pegou o carro do pai, pois o dele estava quebrado em uma oficina. “Ele já tinha se envolvido em outro acidente e o carro estava na oficina. O Fusion era do pai dele”, contou. “Ele era um cara tranquilo. Pena que tinha a mente ‘fraca’”, continuou. O Fusion tem 13 multas apenas em 2017. A primeira foi em 31 de janeiro e a última sete dias atrás.

Ao todo, o Detran-PE soma dívida de R$ 5.904,02 em nome do proprietário do carro. A lista inclui avanço de sinal; velocidade excessiva; uso de celular; ausência de segurança; direção sob efeito de álcool e estacionamento proibido. 

Como as infrações são registradas em nome do proprietário do veículo, não se sabe se elas foram cometidas por João Victor. De acordo com o Detran, a carteira do estudante de engenharia não estava suspensa quando o acidente aconteceu. O documento era válido até 2022. Até matar três pessoas na Tamarineira, era “ficha limpa” para o Detran. Em seu nome, não havia pontos ou multas.

Dia de fúria ao volante 

O domingo de João Victor estava sendo como ele já era acostumado. Bebida, festa e direção em alta velocidade. Não era a primeira vez que o estudante fazia a mistura perigosa. À polícia, ele afirma lembrar apenas de pegar o carro escondido do pai. Diz recordar de ter começado a beber por volta das 13h e ter sofrido um “apagão na memória”. Alega ainda que a consciência só voltou quando estava na Central de Plantões da Polícia Civil.

Alguns dos passos de João Victor no dia em que ele matou três pessoas, porém, podem ser recontados por meio de testemunhas e vítimas de outro acidente que ele causou no mesmo dia. Por volta das 19h, menos de uma hora antes da fatídica colisão contra o RAV4 na Tamarineira, o condutor bateu num Fox da frota do aplicativo 99POP. No carro estavam quatro amigas. “Ele bateu e fugiu. O motorista anotou a placa dele”, contou uma das passageiras.
 
Minutos depois, um motorista viu o Fusion em alta velocidade na Avenida Norte. Outro motorista presenciou o carro correndo “fora do normal” na Cônego Barata. De acordo com a testemunha, o veículo quase capotou perto da Ferreira Costa da Tamarineira. Cerca de 200 metros depois, colidiu com a SUV do advogado Miguel Arruda da Motta Silveira Filho. 

Quando foi encontrado pelo Samu, usava uma pulseira laranja de uma festa do AutoBar. De acordo com o estabelecimento, que estava fechado ontem, câmeras de segurança estão instaladas no local e podem ajudar a polícia. “A polícia não nos procurou, mas nos colocamos à disposição”, informou o AutoBar.

Recife teve duas blitze na noite do domingo 

Na noite de domingo, João Victor Ribeiro de Oliveira percorreu mais de 20 km no Ford Fusion. Ele saiu de Olinda, passou pelo menos por Casa Forte, Graças e Tamarineira. Naquele dia, sete blitze da Operação Lei Seca estavam montadas no estado: uma em Ouricuri, duas em Caruaru e arredores, duas na Avenida Governador Agamenon Magalhães (nos dois sentidos), uma em Sucupira e uma em Camaragibe. 

De acordo com o coordenador executivo da Lei Seca em Pernambuco, Fábio Bagetti, as equipes trabalham em locais e horários variáveis. “Podemos estar em qualquer lugar, então não necessariamente estaríamos onde ele passou. A operação é preventiva. Ela existe para salvar vidas. Como o índice de mortalidade na capital é menor do que no interior, colocamos equipes também fora da Região Metropolitana”, pontua.

Só este ano, 75 blitze foram montadas em um perímetro de 500 metros do local do acidente. Rua Cônego Barata, Avenida Norte (dois sentidos) e Estrada Velha de Água Fria estão entre os pontos mais fiscalizados pelas equipes, segundo Bagetti. “Procuramos mudar o local todos os dias. Voltamos ao mesmo lugar, mas tentamos trocar sempre de um dia para o outro”, explicou. Atualmente, o trabalho envolve nove equipes com cerca de 210 profissionais. “Temos o objetivo de aumentar de nove para 12 equipes. A proposta está com o estado para tirar do papel quando for possível”, disse Bagetti. O investimento atual é de R$ 1 milhão por mês.

No trabalho de orientação, a operação conta com quatro equipes educativas. Cada uma é composta por quatro pessoas com deficiência, cadeirantes ou muletantes, e dois auxiliares, que ajudam na condução dos deficientes e na entrega de panfletos e folders educativos. A ação ocorre em bares e pontos de aglomeração, como forma de evitar que os condutores dirijam após o consumo de álcool. As ações também acontecem em escolas, universidades, empresas e associações por meio de seminários e palestras.

A Lei Seca foi sancionada há nove anos, em 19 de junho de 2008. A associação entre álcool e direção, porém, não deixou de existir. Em 2016, 7,3% da população adulta das capitais brasileiras declararam que bebem e dirigem. No ano anterior, o índice foi de 5,5%. Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde mostram que o número de mortes em decorrência de acidentes de trânsito caiu mais de 11% em todo o país. Em 2015, 38.651 pessoas foram vítimas do trânsito, contra 43.780 óbitos registrados no ano anterior. 
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.