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Estado de Minas

Quadrilha presa cometia tráfico, contrabando e desvio de bebida no Galeão

Investigação aponta que quadrilha especializada em tráfico de drogas e contrabando atuava no Galeão com ajuda de funcionários e terceirizados da Infraero e também da Receita Federal


postado em 19/12/2017 08:09 / atualizado em 19/12/2017 11:41

Foram expedidos 36 mandados de prisão e um mandado de condução coercitiva: tráfico de drogas e contrabando(foto: Agência Brasil/Divulgação)
Foram expedidos 36 mandados de prisão e um mandado de condução coercitiva: tráfico de drogas e contrabando (foto: Agência Brasil/Divulgação)

Em fevereiro deste ano, agentes da Polícia Federal (PF) haviam descoberto uma mala despachada do Rio de Janeiro em um voo para Amsterdam, mas que estava em nome de um casal que voou para Salvador. Em um procedimento padrão, a mala foi devolvida para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão. Ao passar pelo aparelho de raio X, a PF descobriu 37 quilos de cocaína no interior do objeto. Esse processo, que é uma rotina do órgão para o tipo de apuração, foi também o pontapé para a Operação Rush, que resultou na prisão, nesta terça-feira (19/12), de uma sofisticada quadrilha internacional de tráfico de entorpecentes, contrabando e até desvio de bebidas de aeronaves em pouso.

 

Até por volta das 10h, ao menos 20 pessoas haviam sido presas por envolvimento no esquema criminoso. Foram expedidos 36 mandados de prisão e um mandado de condução coercitiva, expedidos pela 1ª Vara Federal Criminal (RJ). As ações ocorreram nos bairros do Recreio dos Bandeirantes, Barra da Tijuca, Campo Grande, Ramos, Ilha do Governador, Olaria, Bonsucesso, Saúde, Inhaúma, Praça Seca, Tomás Coelho, Magalhães Bastos, Vaz Lobo, Bangu e Jacarepaguá. Municípios de Queimados (RJ), Belford Roxo (RJ), Angra dos Reis (RJ) e São Paulo (SP) também foram alvo de buscas.

 

De acordo com a PF, o esquema contava com a participação de funcionários e terceirizados da Infraero, funcionários de companhias aéreas,  com apoio de servidores públicos da área de fiscalização aduaneira da Receita Federal. Segundo a polícia, esta é a maior operação policial realizada do Galeão. "Entre os mandados de prisão, pelo menos 23 são em desfavor de funcionários do aeroporto e 02 contra servidores da Receita Federal", explicou a PF em nota. Os presos serão conduzidos à sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Eles serão indiciados por organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico de drogas, corrupção, facilitação ao contrabando e descaminho, descaminho, furto qualificado, além de associação criminosa. Após os procedimentos de praxe, serão encaminhados ao sistema prisional.

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A atuação dos suspeitos ocorria de forma corriqueira no aeroporto internacional Tom Jobim, o Galeão. Segundo a investigação, em uma das diversas atuações da quadrilha, funcionários do aeroporto escolhiam um passageiro de forma aleatória, imprimiam um tíquete com o nome dele, colocavam em uma mala cheia de drogas e a encaminhava para um voo internacional. O destino das malas, geralmente, era a Europa. O ato criminoso só era possível com o auxílio de funcionários com acesso à área restrita do aeroporto, "os quais eram incumbidos de colocar malas em voos internacionais sem que as mesmas sofressem qualquer espécie de inspeção".

 

Foram identificados três núcleos dentro da rede de corrupção:  além do responsável pelas drogas, haviam um de contrabando e outro de descaminho e desvio de bebidas que seriam usadas nos serviços de bordo de aeronaves. Os grupos recebiam ordens de um ex-funcionário do Galeão, que era responsável por recrutar os demais membros do grupo criminoso. "Ele era auxiliado por seu pai, que ainda exercia atividade laboral no Aeroporto Internacional do Rio", esclareceu a PF.

 

Escapando da fiscalização alfandegária

 

O segundo grupo tinha o desembarque do terminal como área de atuação. As bagagens vindas do exterior eram retiradas pelos operadores de esteira do desembarque internacional e posteriormente desviadas para a esteira do desembarque doméstico. Dessa forma, o grupo conseguia evitar a fiscalização alfandegária e o pagamento do tributo devido. "Quando o passageiro passava pelo canal de inspeção da Receita Federal, em geral portava apenas bagagens de mão", disse a PF. Em seguida, as malas eram retiradas por um funcionário da companhia aérea no interior do setor de desembarque doméstico e entregue ao passageiro no saguão do aeroporto ou até mesmo na calçada exterior do aeroporto.

 

Em outra frente de atuação, funcionários do terminal marcavam encontros com passageiros que participavam do esquema, ainda na porta da aeronave. Eles acompanhavam essas pessoas até o canal aduaneiro, onde a liberação da bagagem era feita por um servidor da Receita Federal. Os objetos passavam pelo raio x mesmo que este identificasse mercadoria entrando de forma irregular sem recolhimento dos tributos e taxas legais. "Esse servidor foi flagrado durante as investigações recebendo propina para liberar mercadorias", afirmou a PF.

 

Vinho e champanhe eram roubados

 

A ousadia do grupo era tamanha que havia criminosos especializados no desvio de bebidas nas aeronaves, crime que ocorria diariamente. Na lista entravam garrafas de vinho e champanhe, além de garrafas em miniatura de bebidas no interior das aeronaves em pouso. De acordo com a PF, empresas de "cattering", que fornecem suprimentos para empresas aéreas, com apoio de vigilantes, furtavam bebidas de aeronaves. O crime ocorria em áreas conhecidas por eles como "pontos cegos", onde era feita a triagem dos produtos. Segundo a investigação, o esquema "mostrou-se bem estruturado, contando também com auxílio de membros de empresas com trânsito livre na pista do Galeão, responsáveis por retirar a mercadoria furtada das dependências do aeroporto". O destino era a venda ilegal para uma rede de receptadores.

 

De acordo com a operação, agentes de portaria e segurança também eram cooptados para fazer "vista grossa" na saída das bebidas. Em setembro, a PF realizou a prisão de dois funcionários do aeroporto e de um receptador, quando foram apreendidas cerca de 2.715 garrafas de bebidas, veículos e dinheiro.

 

Check-in da droga era facilitado

As drogas que circulavam livremente pelo Galeão pertenciam a dois estrangeiros, um albanês e um romeno e ficavam armazenadam em um galpão localizado no Mercado São Sebastião, na Penha (RJ). O entorpecente era cuidadosamente preparado em malas para o embarque. O transporte até o terminal de embarque era feito por meio de táxi, "pois a quadrilha considerava que assim seria menor o risco de o veículo ser parado em uma blitz", de acordo com a investigação da PF.

 

No balcão de check-in, funcionários da companhia aérea providenciavam a duplicação irregular de etiquetas de bagagem despachadas por outros passageiros, que não tinham relação com o grupo criminoso, afixando às malas preparadas pela quadrilha, para as quais providenciavam o despacho. "O objetivo era garantir a entrada delas na área restrita, simulando destinação para voo doméstico", afirmou a PF.

 

Operadores de rampa, integrantes do grupo criminoso, ao identificarem a bagagem contendo a substância entorpecente, deixavam de colocá-las no contêiner do voo doméstico, desviando as mesmas para contêineres de malas que ingressariam em voos internacionais. A investigação apontou ainda outra forma de acesso da cocaína, pela área de apoio do aeródromo. No curso das investigações, a PF realizou, em setembro, a maior apreensão de cocaína da história do Galeão, contabilizando mais de 300kg da droga.

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