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Estado de Minas

Carlos Heitor Cony: Um eterno insatisfeito

Carlos Heitor Cony costumava dizer que escrever é consequência da insatisfação. A voz da inquietude de um dos nomes mais importantes da literatura brasileira cessou na sexta: Cony morreu por complicações após uma cirurgia no abdômen


postado em 07/01/2018 16:14 / atualizado em 07/01/2018 16:21

(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
(foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press)
 
Carlos Heitor Cony deixou um documento, registrado em cartório, com determinação para que não houvesse velório nem homenagens quando morresse. Também pediu para não ser enterrado no mausoléu da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro e que um dia chamou de jardim de infância às avessas. “No jardim de infância, você tem a vida pela frente. Na ABL não tem futuro, tem passado”, disse, em entrevista ao Correio, em 2010. Localizado no Cemitério São João Batista, no Rio, o jazigo coletivo abriga, entre outros, os restos mortais de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. O desejo de Cony condiz com a postura tímida e sarcástica do escritor e jornalista, que um dia concordou com um militar durante um interrogatório, após uma das seis prisões que sofreu durante a ditadura: só escrevia besteira. “Dei razão a ele. Até hoje, acho que não fiz outra coisa”, disse, em depoimento sobre o episódio. A ironia e o olhar mordaz, frequentemente descrito como cético e pessimista, sempre estiveram presente, nas falas, artigos e romances do autor.

O escritor morreu na noite de sexta-feira, no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro, onde estava internado desde 26 de dezembro para uma cirurgia no abdômen. O procedimento era arriscado devido à idade avançada do escritor, que morreu aos 91 anos de falência múltipla dos órgãos. Nascido no subúrbio carioca Lins de Vasconcelos, em 1926, Cony brincava que o pai, o jornalista e funcionário público Ernesto Cony Filho, nunca poderia imaginar que ele se tornaria escritor. Cony nasceu com um problema de dicção que o impediu de frequentar a escola. Por isso, aprendeu a ler e escrever com o pai, em casa. Só foi falar depois de crescido, ao se assustar quando avistou um avião pela primeira vez.

Menino, foi aluno do seminário São José. Ali aprendeu latim, francês, italiano e grego, além do português. O cardápio de disciplinas da escola incluía conhecimentos na área de filosofia, psicologia e ética, o que proporcionava uma formação vasta para as crianças. Mais tarde, Cony se tornou seminarista, mas a batina ficou para trás quando ele se percebeu cético demais para se confiar a Deus. Tomou o rumo da universidade e se inscreveu no curso de Letras Neolatinas da então Faculdade Nacional de Filosofia, mas nunca chegou a terminar a graduação.

Cony estreou no jornalismo em 1947 ao escrever para a Gazeta de Notícias, mas foi no Jornal do Brasil, em 1952, que realmente deu início à carreira. Ele gostava de dizer que foi um escritor que se tornou jornalista e não um jornalista que se tornou escritor, embora tenha chegado às redações de jornais antes de publicar os primeiros romances.

A escrita chegou à vida de Cony em 1955, quando começou a trabalhar no romance O ventre, que se tornaria um de seus livros mais importantes. Inspirado no existencialismo de Sartre, foi considerado uma obra extremamente negativista e por isso não conquistou o Prêmio Manuel Antônio de Almeida. No júri, estavam Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, que enalteceram o romance, mas negaram o prêmio pelo forte conteúdo da obra, história de um homem rejeitado pelo pai e pelo irmão por ser bastardo. O ventre só viria a ser publicado em 1958, pela Civilização Brasileira.

Nos anos seguintes, Cony publicaria 16 romances, quase um por ano, se tornando um dos autores mais produtivos da editora de Ênio Silveira. Em 1973, com Pilatos, voltou às temáticas fortes ao narrar a história de um homem que vaga pela cidade com o pênis decepado dentro de um recipiente. O romance foi visto por muitos como uma crítica à ditadura e uma metáfora da sociedade, então castrada do direito à democracia, mas Cony sempre rejeitou qualquer engajamento político. Ele se dizia inteligente demais para ser direita e rebelde demais para ser de esquerda. Foi muito criticado por não tomar partido e sempre evitou dar conotação política aos romances.

Deixava a política para as crônicas e artigos e não se esquivou de escrever contra o regime militar no Correio da Manhã, apesar de o jornal ser um dos apoiadores do golpe. “Não me considero colunista. O cronista comenta o fato do dia. E eu comentei os movimentos que eu vi como um cronista. Eu não era político. Nunca gostei (de política)”, disse, em entrevista ao Correio, em 2016. Entre os arrependimentos políticos, o autor contava que não devia ter apoiado a queda de João Goulart.

Hiato


Depois de Pilatos, decidiu não haver mais nada para ser dito em romances e passou 22 anos sem publicar. Em 1995, voltou às livrarias com Quase memória, romance sobre a relação entre um pai e um filho, texto motivado pela morte da cadela Mila, que acompanhou o escritor durante 13 anos. Em entrevistas, ele explicou que voltar a escrever foi uma maneira de lidar com o sofrimento do animal. O romance teve mais de 400 mil exemplares vendidos, foi eleito o livro do ano pela ABL, ganhou o Prêmio Jabuti e virou filme nas mãos de Ruy Guerra, em 2015. Na esteira do retorno, vieram O piano e a orquestra (1996), A casa do poeta trágico (1997) e Romance sem palavras (1999), sendo que os dois últimos ganharam o Jabuti. Cony também fez algumas incursões na dramaturgia com as novelas Comédia carioca (1964 - TV Rio) e Marquesa de Santos, escrita  por Wilson Aguiar Filho e para a qual o escritor colaborou. Os editores sempre pediram que também investisse em uma autobiografia. Tímido, ele recusou, mas nunca negou que Quase memória tivesse algo de sua própria vida.

Em 2010, ele publicou Eu, aos pedaços, com textos autobiográficos que flertam com a ficção. “No fundo, juntando tudo, dá um painel”, confessou, em entrevista ao Correio. “A meu ver, 95% é de realidade e 5% é de ficção.” Na época com 84 anos, Cony revelou sentir muita saudade de quase tudo na vida, “mesmo dos momentos amargos”. “Tenho saudades, não de fatos em si, mas de mim mesmo.”


Pessimismo


Em 2016, em outra entrevista, falou sobre o pessimismo pelo qual era conhecido. “Só pode ser otimista o sujeito mal-informado. Quanto mais informação você tem, mais você tende a ficar pessimista. Não vou dizer que eu não tenha sido feliz. Dentro da condição humana, procurei ser o mais humano possível, mas não cheguei lá.”

Para Cony, escrever era um sintoma de infelicidade e de insatisfação. Um pouco por isso, ele deixou a pena de lado em 1973, após publicar Pilatos. Se sentia feliz, com saúde, situação financeira estável e vida amorosa resolvida. Quase memória foi fruto da inquietação que o acometeu mais de duas décadas depois e que não sossegou mais, até a última sexta-feira. “Sempre fui um bom trabalhador. Não fui preguiçoso. Se eu não tenho uma obra boa, eu tenho uma obra vasta, mas não me sinto realizado.”

Escrevo pouco sobre política e sempre contra o governo. Seja qual for o governo. Não tenho lado. Não me considero de esquerda nem de direita” Carlos Heitor Cony


Sempre admirei sua linguagem cirúrgica, sua fina ironia, sua coragem, até sua descrença”

Lya Luft, escritora


Perdemos o cronista que, de vez em quando, nos últimos anos, parecia caminhar na contramão. Mas contramão do quê?”

Ignácio de Loyola Brandão, contista e romancista


No plano pessoal, o vi como homem afável e que sabia se exprimir com muito humor. Uma figura única, que deixa grande lacuna nas letras brasileiras”

João Almino, escritor e diplomata


Perdemos um intelectual incontornável para entender parte da cultura brasileira dos últimos 60 anos”

Cristovão Tezza, escritor


É com tristeza que recebo a notícia da perda de Carlos Heitor Cony, um dos mais cultos e preparados pensadores nacionais. Meus sentimentos à família e aos amigos”

Michel Temer,presidente da República pelo Twitter


A dor no mundo das letras


» Ricardo Dahen

Destacada como um dos temas de relevância, no Twitter, a morte de Carlos Heitor Cony mobilizou sentimentos fortes e frases de impacto, entre os que o conheceram. O autor de Feliz ano-novo, Marcelo Rubens Paiva, sintetizou: “Você (Cony) é eterno como Pompeia”. A rede social trouxe também muitas imagens de quem conviveu, no dia a dia, com Cony; caso do jornalista Sérgio Augusto. Ele, numa fotografia ao lado de colegas Janio de Freitas e Ruy Castro (que preferiu não se manifestar sobre a morte), relembrou uma costumeira reunião mensal conhecida carinhosamente como jantar dos canalhas. Em texto, Sérgio Augusto reforçou que o amigo foi um dos “maiores escritores brasileiros da segunda metade do século passado”.

Com palavras de peso, o poeta Fabrício Carpinejar também manifestou carinho. “Você fez grandes coisas, escritor Cony, maravilhosos romances, crônicas límpidas, assim você se despede da gente, com a esperança bem vivida”. A lufada de ânimo pelo combate nunca restrito às palavras alimentou colegas de ofício, como Ignácio de Loyola Brandão, que rememorou, para o Correio, o contato com o texto de Cony. “Naquele turbilhão de 1964 — lembro que eu trabalhava no jornal Última Hora — de repente, o livro de Cony, O Ato e o Fato. Foi um sopro sobre nossas cabeças. Havia alguém que dissera coisas que deveriam ser ditas. Aquilo nos deu um alento, era preciso apenas a coragem”, ressaltou.


Resistência


Associado à vanguarda, o autor Chico Alvim, poeta e diplomata, enfatizou a enorme expressão política de Cony. “O que admiro bastante é o papel dele na resistência, na época da ditadura. Em tempos muito difíceis, Cony se mostrou notável. Lembro-me da prisão do Cony, por causa do repúdio ao sistema, depois da posse do Castelo Branco”, comentou. Num ato público, de resistência intelectual, Cony, no episódio relatado por Alvim, fez uma manifestação durante reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), em meados dos anos 1960.

Autor de O filho eterno, entre outros sucessos, Cristovão Tezza localizou a expressão de Cony para a geração dele. “Com O ventre, em um livro essencialmente pessimista, ele produziu a passagem marcante na representação de um Brasil rural para o país urbano. Ele teve impacto na resistência intelectual ao golpe de 1964, com crônicas ferinas contra os generais. Foram uma referência para os jovens leitores, como eu. Em tudo que ele escrevia, havia sempre uma certa sombra cética”, comentou.

Trajetória de sucesso

Com 91 anos de vida e quase 70 de carreira, Cony fez história por onde passou. Confira as principais conquistas profissionais do jornalista, tradutor, diretor e escritor:

Carreira

» Funcionário público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro
» Rádio Jornal do Brasil
» Jornal do Brasil
» Correio da Manhã
» Grupo Manchete por quase 30 anos
» Folha de S.Paulo - ainda era colunista
» Rádio CBN - ainda era comentarista

Prêmios
1957 - Prêmio Manuel Antônio de Almeida - A Verdade de Cada Dia
1958 - Prêmio Manuel Antônio de Almeida - Tijolo de Segurança
1996 - Prêmio Machado de Assis - Conjunto da Obra
1996 - Prêmio Jabuti - Quase Memória
1996 - Prêmio Livro do Ano - Quase Memória
1997 - Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira - O Piano e a Orquestra
1997 - Prêmio Jabuti - A Casa do Poeta Trágico
1997 - Prêmio Livro do Ano - A Casa do Poeta Trágico
1998 - Ordre des Arts et des Lettres
2000 - Prêmio Jabuti - Romance sem Palavras

Livros
1958 - O Ventre
1959 - A Verdade de Cada Dia
1960 - Tijolo de Segurança
1961 - Informação ao Crucificado
1962 - Matéria de Memória
1964 - Antes, o Verão
1965 - Balé Branco
1967 - Pessach: A Travessia
1973 - Pilatos
1995 - Quase Memória
1996 - O Piano e a Orquestra
1997 - A casa do Poeta Trágico
1999 - Romance sem Palavras
2001 - O Indigitado
2003 - A Tarde da sua Ausência
2006 - O Adiantado da Hora
2007 - A Morte e a Vida

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