Na década de 1980, bandas punks contestavam ditadura militar na capital

Foi graças às viagens internacionais de alguns garotos da Colina, setor habitacional pertencente à Universidade de Brasília (UnB), que o punk rock pôde se irradiar na nova capital

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 16:55

Acervo pessoal Luiz Acioli/Editora Agir

A Londres do fim da década de 1970 fervilhava. Chocada, a sociedade via jovens sem conhecimento musical formarem bandas. Com penteados pontiagudos e roupas rasgadas, eles eram agressivos e criticavam o sistema político, considerado por eles caduco, com palavras e performances de espírito anárquico, Tal descrição, contudo, poderia servir também para a Brasília mergulhada na ditadura militar na transição entre os anos 1970 e 1980, quando grupos como Aborto Elétrico, Plebe Rude e Detrito Federal mostraram que ser punk não era exclusividade dos ingleses.

Foi graças às viagens internacionais de alguns garotos da Colina, setor habitacional pertencente à Universidade de Brasília (UnB), que o punk rock pôde se irradiar na nova capital. Os irmãos Fê e Flávio Lemos, futuros membros do Aborto Elétrico e do Capital Inicial, foram viver com a família durante um ano em Leicester, na Inglaterra. André Mueller, que se tornaria André X, baixista da Plebe Rude, também passou um tempo na Grã-Bretanha. Era o fim dos anos 1970 e bandas como Sex Pistols, The Clash e Buzzcocks explodiam nas páginas de jornais e revistas, além de tocarem na rádio com enorme sucesso na terra da rainha Elizabeth.

Não demorou para o novo rock britânico conquistar esses jovens brasileiros. “A sonoridade era diferente, as letras eram boas e a atitude chamava muito a atenção”, lembra Flávio. O irmão maior, Fê, então com 15 anos, gostou tanto do punk que passou a se vestir a caráter para ir à escola. Em pouco tempo, o futuro baterista também começou a ir a shows de bandas como The Clash e Buzzcocks.

De volta a Brasília em 1978, os irmãos Lemos perceberam que o punk rock era praticamente desconhecido entre a turma da Colina. “Tivemos a impressão de que nossos amigos tinham ficado parados no tempo”, conta Fê. Mas não demorou para ele um dia conhecer o jovem Renato Russo em uma festa. “Finalmente, eu havia encontrado alguém que também tinha discos de punk como eu”, relembra Fê. Nos meses seguintes, os dois formaram o Aborto Elétrico, juntamente com André Pretorius, filho do então embaixador da África do Sul no Brasil.

Com os primeiros alvoroços do punk rock por aqui, o estilo começou a se propagar entre a turma, o que não teria ocorrido com muita facilidade se não fosse pelo fato de Brasília abrigar as embaixadas. “Os diplomatas eram a nossa internet”, brinca Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude. “Com eles, a gente tinha acesso ao mundo inteiro, conseguíamos os discos quase imediatamente. Saía um álbum lá fora e quatro dias depois a gente já tinha em mãos”, relata.

Pelo fim da repressão
A presença de muitos diplomatas não era a única característica de Brasília que a tornou um local propício para a popularização do punk. Jovens na faixa etária de 15 anos moravam em uma cidade com pouco mais de 20 anos de existência e eles, frequentemente, viam-se sem muito o que fazer em um lugar tão novo. “A gente estava em uma capital sem identidade, em meio a um marasmo cultural”, afirma Philippe Seabra. Para muitos jovens, Brasília era parada, um deserto sem programas interessantes. “Se a gente não tinha festa para ir, parávamos um carro em uma quebrada, colocávamos música para tocar no som e abríamos o vinho”, relata Philippe.

Segundo o músico, a pacata Brasília obrigava a turma a aderir à cultura do faça você mesmo, lema do punk rock. “Não havia lojas para comprar camisetas ou bottons de grupos estrangeiros, então nós mesmos produzíamos esse tipo de coisa sozinhos. Eventualmente, a brincadeira evoluiu e formamos nossas próprias bandas também”, conta Philippe.

Mas havia um elemento em especial que servia de faísca para que o punk se consolidasse de vez em Brasília: a repressão do governo militar gerava indignação entre a turma. O ex-vocalista do Detrito Federal Paulo Cesar Cascão relembra como se sentia na época. “A gente tinha um grande objetivo: a redemocratização do país. O punk tinha um discurso muito interessante contra a ditadura e chamava a atenção de quem queria chutar a bunda de um general”.

Os jovens moravam em uma cidade sem nada para fazer e que era o berço da ditadura. “Sendo um adolescente com as emoções à flor da pele e vivendo em uma capital reprimida, com censura, só podia dar no que deu”, comenta Philippe. “O punk rock desafiava os jovens a fazer alguma coisa e não ficarem de braços cruzados.”

Com a revolta contra a repressão militar, as bandas perceberam que poderiam servir como porta-vozes dos inconformados, em um esforço de mudança real. Para Fê Lemos, o punk representou o despertar do senso crítico. “Você percebia a sociedade de uma forma diferente, conseguia enxergar os podres. Então, você passava a se ver como algo além de uma peça a ser manipulada”, diz Fê.

Já na função de baterista do Aborto Elétrico na época, o músico via o grupo como uma arma poderosa para questionar o sistema. “A gente tinha algo que a maioria dos outros jovens não tinha. Conseguíamos causar ruído, chamar a atenção e, principalmente, irritar, criar polêmica. Ter uma banda era uma ferramenta maravilhosa.”

A contestação serviu de estopim para episódios memoráveis para os jovens. Cascão lembra quando, em 1983, apresentava-se com a banda Ratos do Cerrado. “Era a época do movimento Diretas Já e, no meio de uma canção, comecei a gritar junto com o público o slogan da campanha. Aí alguém de trás do palco começou a puxar meu microfone pelo cabo, até ele sair da minha mão e ser arrastado para longe”.

O ex-vocalista afirma que não conseguia ver quem fez aquilo, mas tem uma ideia bem clara do que pode ter acontecido. “Era a polícia política, com certeza deveria ser algum informante. A gente estava em um show com vários jovens contestando a ditadura. Mas, mesmo sem microfone, segui cantando com a galera por eleições diretas.”

Badernas
Como não poderia deixar de ser, os jovens fãs do punk em Brasília às vezes arranjavam encrenca e causavam problemas. Fê Lemos e os amigos gostavam de entrar de penetras em festas e trocar a música que estivesse tocando por fitas de punk rock. Mas, por mais que a intenção fosse chocar, algumas vezes as pessoas gostavam das canções rápidas.

Fê relembra outro episódio, desta vez na companhia de Renato Russo. “A gente teve a ideia de assustar os guardinhas que ficavam vigiando as entradas do Minhocão [apelido do principal prédio do campus Darcy Ribeiro da UnB] à noite. Então eu e Renato decidimos pegar várias lâmpadas fosforescentes e nos aproximarmos escondidos deles. Começamos a jogá-las no chão e cada estouro fazia muito barulho, parecia que alguém estava dando tiros”, relata o músico.

Os dois fugiram aos risos, mas, após certo tempo, ouviram o sinal do carro dos guardas se aproximar. “Nesse momento, a gente ficou desesperado. O Renato disse que seríamos pegos e saiu correndo como nunca, criou asas nas pernas”, lembra Fê. A dupla conseguiu se afastar e saiu impune.

Também é famosa a rixa existente entre os punks e os playboys naquela época. “Eles ficavam meio irritados porque as meninas bonitas andavam com a gente, apesar de termos calhambeques caindo aos pedaços e eles terem carrões”, lembra Philippe Seabra. Para Cascão, as eventuais brigas entre tribos ocorriam por um motivo claro. “Eles se incomodavam porque a gente era muito diferente, nós incomodávamos mesmo. E aí rolava porrada de vez em quando”, explica. Ao analisar em retrospectiva, Philippe brinca com a situação. “A nossa vingança foi que eles passaram a comprar os nossos discos depois.”

Onde estão os rebeldes?

Plebe Rude

A banda ainda existe, mas não com a formação original, da qual restaram Philippe Seabra (guitarra e vocal) e André Mueller (baixo). Completam o grupo hoje Clemente Nascimento (guitarra e segunda voz) e Marcelo Capucci (bateria). Segundo Philippe, a Plebe vai lançar um disco novo ainda este ano, no final de maio. Além disso, o músico compôs a trilha sonora de Faroeste Caboclo, novo filme de René Sampaio baseado na canção escrita por Renato Russo.


Irmãos Fê e Flávio Lemos

Após o fim do Aborto Elétrico em 1982, os dois formaram a banda da qual são integrantes até hoje, o Capital Inicial, cuja formação atual conta ainda com Dinho Ouro Preto (vocal) e Yves Passarel. O grupo lançou, em novembro do ano passado, um disco de estúdio, chamado Saturno.


Cascão

O ex-membro do Detrito Federal chegou a trabalhar na Warner Music, foi gerente de loja de discos e DJ durante os anos 1990. No fim dessa década, ele começou a exercer a profissão de advogado e hoje trabalha em firma própriano Lago Sul.

Poesia punk

Veraneio Vascaína
(Aborto Elétrico)

“Se eles vêm com fogo em cima, é melhor sair da frente
Tanto faz, ninguém se importa se você é inocente
Com uma arma na mão eu boto fogo no país
E não vai ter problema eu sei estou do lado da lei

Cuidado, pessoal, lá vem vindo a veraneio
Toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho
Com números do lado, dentro dois ou três tarados
Assassinos armados, uniformizados”

Geração Coca-Cola (Aborto Elétrico)

Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Censura (Plebe Rude)

“Contra a nossa arte está a censura
abaixo a postura, viva a ditadura
Jardel com travesti, censor com bisturi
corta toda música que você não vao ouvir”

Brasil (Detrito Federal)

“Se elege o presidente militar parlamentar
Na realidade tudo é desculpa
Para um idiota que não sabe governar
Do Oiapoque ao Chui o Brasil foi colonizado
Pelo BID, e o FMI, pelo BID e o FMI”
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