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Correio Braziliense

Movéis Coloniais de Acaju é a banda brasiliense com maior destaque no país

A partir de 1998, quase nenhum artista de música jovem da cidade alcançou sucesso graças à aposta feita por uma das grandes gravadoras, as chamadas majors

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postado em 21/04/2013 07:00

Humberto Rezende

Luana Amorim/Divulgação

As escadas que levam ao subsolo do bloco A da comercial da 114 Norte dão acesso ao que parece ser uma agência de publicidade tocada por um povo tão agitado quanto criativo. Ali são elaborados panfletos, cartazes, estampas de camisetas, design de sites e estratégias de marketing pela internet. Um olhar mais atento, contudo, revela em algum canto, encostados na parede, os instrumentos musicais dos donos do empreendimento. Aquele espaço é mais que uma agência. É o escritório do Móveis Coloniais de Acaju, a mais bem-sucedida banda brasiliense deste começo de século.

O espaço e tudo que é realizado nele são a representação perfeita do que é preciso para manter uma banda de rock relevante hoje. Compor, ensaiar, dar shows e gravar discos é apenas uma pequena parte do trabalho. É necessário fazer mais para se destacar. Inclusive cuidar da divulgação, agendar e produzir os próprios shows, escrever projetos para o financiamento de discos e clipes, manter canais de comunicação direta com o público — via internet, claro. Não à toa, o mais conhecido grupo candango dos anos 2000 é, literalmente, uma empresa e considera o produtor Fabrício Ofuji, que não toca nenhum instrumento ("mas toca a banda"), um de seus 10 integrantes oficiais.

“Trabalhar dessa forma não foi bem uma decisão. As coisas aconteceram desse jeito. Não levamos uma bandeira do independente, não há uma ideologia nisso. Queríamos fazer as coisas e vimos que não podíamos depender de ninguém”, diz o tecladista do Móveis, Eduardo Borém, que completa o raciocínio com uma frase de Guimarães Rosa: “O sapo não pula por boniteza, pula por precisão”. A coragem da trupe tem sido recompensada. Mesmo sem a exposição midiática que, em outros tempos, esteve do lado de Legião Urbana e Raimundos, o Móveis formou um público que se espalha pelo país.

1998

Embora seja a principal banda brasiliense dos anos 2000, o Móveis surgiu em 1998, uma data simbólica para o rock produzido na capital. A partir daquele ano, quase nenhum artista de música jovem da cidade alcançou sucesso graças à aposta feita por uma das grandes gravadoras, as chamadas majors. Em 1997, o Natiruts, quando ainda se chamava Nativus, lançou pela EMI seu disco de estreia, que vendeu centenas de milhares de cópias impulsionado pelo sucesso Presente de um beija-flor. Depois disso, Brasília, acompanhando uma tendência mundial, entrou na era da independência, uma época de persistência, busca por novos caminhos em meio a uma profunda transformação do mercado musical e, o mais importante, novas e belas canções.

“Brasília não deixou de produzir grandes bandas depois dos anos 1990. Pelo contrário, algumas das melhores músicas surgidas no Brasil neste século foram compostas na cidade”, garante o jornalista Fernando Rosa, criador do site especializado em música Senhor F. Ele conta que, ao elaborar agora uma lista dos 155 discos mais importantes lançados no país nos últimos 15 anos, incluiu diversas obras de bandas da capital, como Prot(o), Suíte Super Luxo, Watson, Bois de Gerião, Vernon Walters, Sapatos Bicolores, Gramofocas e Phonopop.

Bandas se formam a cada minuto. Grupos mais recentes, como Darshan, Cassino Supernova, Da Silva e Tiro Williams, mostram que a vocação elétrica da capital ainda vai longe. São inúmeros os grupos, e dos mais variados estilos, como Galinha Preta, Lucy and the Popsonics e The Neves. “Sinto muito orgulho de fazer parte de uma geração de bandas tão boas”, afirma André Noblat, vocalista do Trampa. Para ele, é preciso fazer com que o público volte a descobrir a música produzida aqui, principal objetivo do movimento Brasília, Capital do Rock, idealizado por ele.

Enquanto isso não acontece, as novas pérolas roqueiras da cidade são lançadas para poucos, ou em outros cantos. Foi o que ocorreu com o disco de estreia do Sexy-Fi, Nunca te vi de boa, alvo de elogios de sites internacionais, mesmo com a vocalista Camila Zamith entoando letras em português. Os sons brasilienses continuam surpreendendo.
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