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Correio Braziliense

Música À Tentativa mexia com o público brasiliense na décade de 1980

Os "atentados" do grupo brincavam com os sons para explodir com a mesmice que reinava nos tempos de ditadura

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postado em 21/04/2013 07:00 / atualizado em 19/04/2013 18:15

Wilson Pedrosa/CB/D.A Press - 25/5/82

Psiu! / Psiu! Psiu! /
Ninguém é besta não! /
Tem pão? / Que tem, tem /
Onde é que tem é que tá.


Era com versos de ritmos desconcertantes como esse que o Música-À-Tentativa mexia com os brasilienses na década de 1980. Os “atentados” do grupo brincavam com os sons para explodir com a mesmice que reinava nos tempos de ditadura. As palavras criavam novos ritmos. Como eram muitas vezes faladas, o estilo lembra um pouco o rap. “Procurávamos sons em várias tentativas”, afirma Márcio Vieira, fundador da banda. Cada música deixava as pessoas desnorteadas, era uma provocação que tirava o público da rotina. “É impressionante a força, a violência a inquietação e o desequilíbrio que causávamos’, destaca João Rochael, que juntou-se à Vieira nos seus planos de aterrorizar as artes.

Rochael, que tinha 20 anos quando fundou o grupo, em 1982, enfatiza as dificuldades. “A nossa geração foi muito massacrada, éramos vistos como meninos rebeldes”. A falta de recursos para ter instrumentos virou mote para a tentativa de criar música a partir do nada. “Não é por não termos guitarras que não podíamos criar”, diz. Márcio Vieira, criador dos loucos instrumentos conjunto. Misturados aos sons convencionais, como violões, flautas, essas ferramentas feitas de canos de PVC, de metais velhos, latas, enfim, de sucata, davam o tom da experimentação musical.

O grupo teve vida curta, com cinco shows. A primeira apresentação, chamada Algures, Alguém, aconteceu em maio de 1982 no Sesc Garagem. Após o Música-À-Tentativa, Nonato Veras codificou as músicas para o mundo da guitarra, do baixo e bateria e criou com Rochael a Inominável anônimo. Por fim, o grupo João Ninguém, que lançou em CD em 2006.

Liga Tripa

A primeira formação do Música-À-Tentativa contou com Marcelo Vieira, João Rochael, Nonato Veras, Izabela Brochado, José Miguel e Aluísio Batata. Eles também transitavam entre outros dois grupos. Ao mesmo tempo em que criavam uma musicalidade única com o à-tentativa, faziam parte da trupe de trovadores mais conhecida da cidade, o Liga Tripa. Fundado por Ita Catta Preta, Aldo Justo e Lu Blues, a Lucinha Liga Tripa, em 1979, a banda decidiu ensaiar e tocar nas ruas. Muita gente acabou vindo às janelas para ver e ouvir. Chegaram ao Beirute (109 Sul) e, com violões pendurados e a Lu com favos de flamboyant fazendo a percussão, estabeleceram uma nova forma de música na cidade.

O grupo continua na ativa. De longe, ouve-se o grave contrabaixo, marcando o passo dos integrantes que invadem espaços com sua música e deixam a impressão de que Brasília voltou a ser aquela pequena cidade dos anos 1980. “Brasília é um grande jardim, foi pensada exatamente para que a população usufruísse dos espaços amplos, a cidade convida, está no espírito do projeto, e contribuiu, sim, para o surgimento do Liga”, diz Sérgio Duboc, cantor e violinista da formação atual da banda.

O sucessor dos dois grupos foi a trupe de teatro circense Udigrudi. Os fundadores Marcelo Berá e Luciano Porto participaram da terceira apresentação do Música-À-Tentativa. Em 1982, se juntaram a Márcio Vieira, que trouxe os instrumentos para brincar com os malabares dos outros artistas. Em 2000, ganharam o Herald Angel, no Festival de Fringe de Edimburgo, na Escócia, o mais importante evento de teatro do mundo. O Udigrudi decolou uma carreira internacional, apresentando-se em 15 países. Com O cano, O ovo e Devolução industrial, fechou uma trilogia de teatro experimental.
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