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Correio Braziliense

Cássia Eller e Zélia Duncan podiam ser encontradas nas noites brasilienses

No início da carreira, as cantoras tocavam nos bares da cidade

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postado em 21/04/2013 07:00

Guilherme Tavares/Divulgação


O voo de Rosa Passos rumo à cena internacional partiu diretamente de Brasília, sem escalas ou conexões por outras capitais. Foi depois de se destacar nos Estados Unidos e na Europa que o nome da baiana passou a reverberar com força no Brasil. “Eu aconteci de fora para dentro”, comenta ela, moradora da cidade desde 1974. Cássia Eller chegou à nova capital no fim da adolescência; Zélia Duncan, ainda criança. Expostas à “promiscuidade” musical que assolava o Planalto Central (o termo, usado no “melhor sentido possível”, é de Zélia), as duas se alicerçaram para conquistar outras paisagens. “Eu certamente seria outro tipo de artista se não tivesse vivido em Brasília”, avalia Duncan. Outro detalhe, talvez menos sabido, também salta aos ouvidos: em início de carreira, elas podiam ser facilmente encontradas nos bares brasilienses.

“Fazer a noite foi uma coisa maravilhosa. Descobri meu lado intérprete e a liberdade para escolher o repertório”, conta Rosa, hoje com 61 anos. A baiana de Salvador chegou a Brasília com pouco mais de 20 anos e recém-casada. Não saiu mais. Após um disco autoral lançado em 1980, deu vazão à porção cantora na primeira metade daquela década, a princípio no bar Amigos, na 105 Norte; e, depois, no Degraus, na comercial da 302 da mesma Asa. “Eu fazia meu trabalho e voltava para casa, cantava na noite por opção. Aprendi a ver o que as pessoas gostavam de ouvir.”


Sandro Alves/Divulgação


No primeiro endereço, Rosa dividia a atenção do público com o guitarrista Lula Galvão. A intensa relação sonora iniciada lá pavimentou uma sólida amizade, que os persegue a vida inteira. Ainda hoje, Galvão grava e se apresenta ao lado dela. “Somos casados musicalmente”, sintetiza Rosa. “Naquela época, havia uma efervescência de música de boa qualidade, então o público era bastante curioso”, recorda-se o guitarrista.

Do Amigos, a dupla foi para o Degraus. Como o local pedia um som mais dançante, uma trupe de instrumentistas foi arregimentada para a empreitada: Jorge Helder, Alfredo Paixão e Herivelto Silva. “Fazíamos um repertório mais adequado para esse tipo de lugar, mas sem deixar cair o nível”, detalha Galvão. Os “meninos”, como Rosa se refere aos músicos, também mantiveram suas carreiras atreladas à dela ao longo dos anos. “Quando comecei a deslanchar profissionalmente, eles seguiram comigo. Nossa relação é muito forte”, enfatiza.


Arquivo CB/CB/D.A Press


Rosa parou de trabalhar na noite por volta de 1986 e, pouco depois, foi convidada a fazer um show no Japão. Na volta, gravou no Rio de Janeiro o segundo disco, Curare — que saiu em 1991 e é tido como o primeiro CD de um artista brasileiro. “Me profissionalizei no exterior. O currículo vistoso inclui apresentação no Carnegie Hall, em Nova York; parcerias com Yo-Yo Ma e Ron Carter; título de doutora honoris causa pela Universidade de Berkeley, na Califórnia; e citações como referência para Diana Krall, Melody Gardot, Gretchen Parlato e Karen Elson.

Casa de todos

O bar Bom Demais existiu entre os anos de 1984 e 1990, na 706 Norte. É quase impossível citá-lo sem se lembrar de Cássia Eller. A carioca, que passou por várias cidades até mudar-se para Brasília, aos 18 anos, tornou-se a rainha do lugar a partir de 1986, quando pisou lá pela primeira vez. Saiu para o reconhecimento nacional. “Ela chegou com uma banda que não era muito boa e eu pedi que mudasse”, lembra a dona do bar, Cristina Roberto. Assim, Eller passou a tocar com a Banda dos Bons, um trio jazzístico formado por Zequinha Galvão, Nelson Faria e Toni Botelho. “Cássia tinha um timbre especial e era carismática”, observa Cristina.

Cássia tocava às quintas e chegava a reunir 500 pessoas nos arredores do bar. “Lembro-me de policiais chegarem lá para fechar o bar, por causa de reclamações, e acabarem ficando para vê-la”, relembra Cristina.

Rosa Passos também fez algumas temporadas no Bom Demais, onde, segundo Cristina, reunia uma plateia “mais comportada”. No local, Rosa pôde ver Cássia — morta aos 39 anos, em 2001 — algumas vezes. “Ela era minha fã, e eu dela. Não vai acontecer mais ninguém como Cássia, singular e visceral no que fazia”, sentencia.

Acompanhada da mãe


“A Rosinha (Passos) era nosso ídolo, a gente ia sempre vê-la cantar”, conta a niteroiense Zélia Cristina, depois Duncan, que aterrissou na cidade-avião em 1971. Amiga de Cássia, também andou pelo Bom Demais e por diversos outros botecos, restaurantes e até pizzarias. Aos 16 anos, já estava metida com a boemia da cidade, no início da década de 1980. Enquanto Brasília entrava em ebulição ao som do rock e do punk, Zélia mergulhava na dita música popular brasileira, ao lado de nomes essenciais da cena local, como Paulo André Tavares, Renato Vasconcellos, Toni Botelho e Nelson Faria.

“Foi uma época fundamental, de começar a trabalhar e sentir-se profissional”, relembra a quase cinquentona artista. Duncan passou um ano no Rio (depois mudou-se definitivamente para lá, em 1987), e sentia-se mais preparada que as colegas de ofício para encarar a noite. “Cantei em lugares nobres de Brasília, com músicos que eram ‘os caras’, coisa que eu teria demorado muito a fazer no Rio”, avalia. Assim como Rosa, Zelia fez história no Amigos, um local, diz ela, para “gente que gostava de música”.

O guitarrista Nelson Faria era amigo de Zelia do Colégio Marista, onde passavam os recreios de violão embaixo do braço. Os dois começaram a se apresentar juntos no Barzinho, no Lago Sul. “Na primeira noite, ficamos até o amanhecer, esperando que a última mesa pagasse a conta para que o dono pudesse contabilizar os couverts e pagar nosso cachê”, lembra Nelson. Zélia, então menor de idade, tinha, por vezes, a companhia da mãe. “Enquanto tivesse público, a gente tocava”, diz ela.

Baiana-brasiliense

Hoje, Brasília é o ponto de descanso de Rosa Passos. Fora dos palcos, em sua casa no Setor de Mansões Dom Bosco, a dona de casa Rosa cuida com alegria de seus gatos e cachorros (são nove “bichinhos”, como ela os chama, no total) e exibe orgulhosa, nas redes socais, fotos de netos, amigos e pratos tipicamente baianos preparados por ela. Rosa é mãe de três filhos e é casada com o economista Paulo Sérgio Passos. “Eu gosto muito daqui, me tornei uma baiana-brasiliense. Foi a ponte para minha carreira internacional e só me deu prazer. Criei meus filhos com tranquilidade em Brasília”, resume.

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