Especialistas analisam exclusão de marchinhas politicamente incorretas de repertório do carnaval

As canções O teu cabelo não nega , Índio quer apito? , Maria Sapatão e Cabeleria do Zezé foram consideradas preconceituosas

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postado em 11/02/2017 09:00 / atualizado em 11/02/2017 00:07

Fernando Maia/Riotur
 
Recentemente, blocos de carnaval do Rio de Janeiro anunciaram que não tocariam mais determinadas marchinhas antigas durante os dias de folia. A decisão dividiu opiniões. O Teu cabelo não nega, Índio quer apito?, Maria Sapatão e Cabeleria do Zezé foram consideradas músicas de cunho racista, homofóbico e machista. Contudo, algumas pessoas acusaram os foliões de estarem cometendo "censura" e que as canções faziam parte da cultura do país. O Correio ouviu especialistas, que explanaram sobre os conceitos por trás dessas atitudes.
 
 
A mestre socióloga e mestre da Universidade de Brasília (UnB) Bruna Pereira argumenta que a mudança no comportamento dos foliões se deu porque as minorias –homossexuais, transsexuais, negros, mulheres e indígenas – têm ganhado mais espaço na sociedade. Antigamente, segundo a especialista, a militância até reagia, mas não era ouvida. E apenas essas pessoas podem dizer se são canções que as ofendem ou não. “Eu, como mulher negra, sempre me senti desconfortável [com essas marchinhas], porque desde criança sou equiparada à mulata. O termo deixa a sua subjetividade resumida a isso”, explica.  

Questionada se isso seria o fim da cultura carnavalesca e das marchinhas de tradição, a socióloga comenta que esses conceitos não são fixos: "A tradição e a cultura são construções coletivas, que são feitas e refeitas através de ações e interações. Elas são mutáveis e reinventadas – para melhor ou para pior –, de acordo com a demanda da sociedade”. Bruna lembra, ainda, que, se os próprios movimentos abriram espaço para a mudança e para que mais pessoas se sintam bem, porque não aproveitá-lo?

Ressignificação

O cabelo duro da mulata, o apito do índio, a sexualidade da Maria ou a cabeleira do Zezé foram pensados em outro contexto social e histórico, ainda no século passado. A professora de história da Universidade de Brasília (UnB) Eloísa Barroso ressalta que retirá-las do repertório de uma das festas mais tradicionais do país é um processo de ressignificação do carnaval. “Não é perda de cultura, são processos que ganharam novos significados. Se a festa de hoje não é a mesma que a do ano passado, não entendo o porquê de manter o mesmo comportamento e as mesmas músicas”, justifica. 

Já para o professor e pesquisador Luiz Carlos Yasbeck, a decisão de retirada é “equivocada”, pois desconsidera a competência da sociedade de distinguir entre ritual, caráter fático e expressão literal. O especialista observa, ainda, que as marchinhas tratam de questões pejorativas, mas, atualmente, são apenas reminiscências de uma época cujo preconceito era conceito e não algo ofensivo: “A época trazia uma sinceridade ingênua, que não dava espaços para a interpretação de mal-humorados. O brasileiro é essencialmente mestiço, híbrido e isso nunca foi problema. Não é abolindo a expressão que mudaremos as crenças, as convicções e o imaginário de um povo". 
 
 
 
 
 

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