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Estado de Minas

Blocos de rua lutam contra assédio a mulheres no carnaval

Com milhões de foliões nas ruas do país, antes mesmo do início oficial da festa, crescem os relatos de assédio sexual contra mulheres


postado em 06/02/2018 06:00 / atualizado em 09/02/2018 19:49

Muitos blocos apostam na conscientização, principalmente, dos homens, para que todos possam se divertir de maneira segura (foto: Eduardo Ogata/Secom)
Muitos blocos apostam na conscientização, principalmente, dos homens, para que todos possam se divertir de maneira segura (foto: Eduardo Ogata/Secom)


O pré-carnaval chegou e, com ele, os casos de assédio, que se repetem a cada ano. Em 2018, a expectativa é de um movimento maior nas ruas. Somente em São Paulo, cerca de 4 milhões de foliões participaram das festividades durante o último fim de semana, um recorde. Com um público maior do que o esperado, a preocupação é garantir a segurança de todos, principalmente das principais vítimas: as mulheres. De campanhas governamentais a iniciativas populares, os blocos têm apostado na conscientização para um carnaval seguro e acessível, mas os relatos de assédio deram as caras antes do início oficial da festa.

“Qualquer tipo de aproximação tem caráter de assédio se não respeita o espaço do outro. É uma coerção, uma atitude desrespeitosa de leitura daquela moça, de apropriação do seu corpo, pelo simples fato de ela estar ali”, afirma Tânia Mara Campos de Almeida, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Uma das iniciativas populares para enfrentar o problema é a campanha “Aconteceu no Carnaval”, criada em 2017 pela rede Mete a Colher. A rede criou um canal para que as mulheres, usando o site ou redes sociais, denunciem situações de assédio no carnaval. Além disso, uma campanha que começou no Rio de Janeiro e tem se espalhado por todo o Brasil distribui tatuagens temporárias com a frase: “Não é não!”.

“A importância do projeto é coletar os relatos das mulheres para que possamos exigir políticas públicas voltadas a combater a violência contra a mulher”, afirma Renata Albertim, da rede Mete a Colher. Ela reforça, no entanto, a importância de fazer denúncia à polícia. “Ao relatar o assédio no nosso site ou no whatsapp, a mulher não estará fazendo uma denúncia formal. É necessário entrar em contato com o telefone 180, Central de Atendimento à Mulher, e registrar a ocorrência”.
“É importante conscientizar não só as vítimas, mas também os homens que têm atitudes desse tipo como se fosse algo natural. A campanha mostra que o assédio é um fato social grave, um crime, e não se pode ficar omisso. Todas as testemunhas estão convocadas a intervir”, avalia Tânia.

Com o tema “Carnaval é curtição, respeite o meu não”, o governo do Rio de Janeiro anunciou uma campanha envolvendo várias secretarias. “A luta contra o assédio é de toda a sociedade. É fundamental que as pessoas denunciem caso presenciem qualquer tipo de assédio. Sempre devemos acionar a polícia e nos colocarmos ao lado da vítima. Isso é fundamental não apenas para dar suporte naquele momento, mas também para inibir o abusador. A vítima nunca deve ser responsabilizada pelo abuso”, diz o secretário de Direitos Humanos, Átila Alexandre Nunes.

Casos aumentam

 
No ano passado, durante os quatro dias de carnaval, as denúncias de assédio sexual subiram 90% em todo o Brasil, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres. Só no Distrito Federal foram registradas mais de 2 mil ocorrências, número similar ao do Rio de Janeiro, um dos maiores carnavais do país. Este ano, um coletivo de artistas e produtores envolvidos com os blocos de rua criou a campanha #FoliaComRespeito.

Apesar da mobilização, os primeiros casos já começaram. A estudante Ana Beatriz Figueiredo de Almeida, de 20 anos, moradora do Núcleo Bandeirante, relata o que viu no fim de semana no Setor Comercial Sul. “Chovia muito e a estrutura era ruim, não tinha abrigo. Todo mundo ficou espremido embaixo dos blocos e tinha um cara apertando minha bunda. Fizeram isso com várias meninas, fingindo que não eram eles. Também presenciei várias tentativas de beijar à força”, conta.

Segundo Ana Beatriz, havia poucos agentes da PM fazendo o policiamento, nenhum do sexo feminino. “Havia homens violentos, que empurravam e agrediam meninas. Ouvi vários comentários sexuais, até relacionados a estupro. Você está ali para se divertir e não merece ouvir esse tipo de coisa. O pior é que a gente não tem a quem recorrer na hora”, reclama. Para Tânia, da UnB, falta capacitação de agentes do Estado para compreender o fenômeno e encaminhar denúncias. “É preciso fazer patrulhamento ostensivo, entender que não é um conflito entre duas pessoas. Trata-se de desigualdade e opressão. O poder público tem que interferir para garantir o acesso livre das mulheres à diversão do carnaval”, afirma.

* Estagiária sob supervisão de Odail Figueiredo.

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