Jornal Correio Braziliense

Belém do Pará: uma viagem para quem tem fé

Saiba tudo sobre o Círio de Nazaré, o maior evento religioso do país

Correio Braziliense

O Brasil é conhecido pelo clima tropical, pelo carnaval que dura o ano inteiro, pelas festas, pelas paisagens incríveis e pelas pessoas bonitas, simpáticas e animadas. Mas ninguém espera que um dos maiores eventos religiosos do mundo inteiro aconteça nessas terras. No início de outubro, Belém do Pará atrai mais de duas milhões de pessoas para o Círio de Nazaré, que já está em sua 225ª edição. O evento consiste em quinze dias de festa, com uma programação cheia de missas e adorações por toda a cidade, sendo seu ápice, no segundo domingo do mês, a caminhada com uma estátua da Virgem Maria, saindo da Catedral Metropolitana até a Basílica de Nazaré, passando pelas principais ruas da cidade. 

 

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A comunidade católica tem o costume de fazer caminhadas públicas com a imagem de santos, chamadas procissões, como uma forma de levar a benção deles até as pessoas: uma espécie de aproximação para fortalecer a fé da população. Muitas pessoas acreditam que encostar na figura sagrada ou estar perto dela fazendo o percurso é uma forma de prestar respeito e mostrar devoção, tornando-as merecedoras de fazer pedidos e receber milagres em suas vidas. Os desejos são os mais variados: curar doenças, conseguir um emprego melhor, resolver problemas de família e até mesmo passar no vestibular. Outros apenas desejam sentir a presença religiosa em suas vidas, como uma espécie de guia.  

 

História

 

Segundo os contos populares, por volta de 1700 um caboclo chamado Plácido José de Souza encontrou uma imagem da Senhora de Nazaré, mãe de Jesus, com cerca de 30cm, às margens do rio Igarapé Murutucú. Ele levou a peça para casa, mas, no dia seguinte, ela havia desaparecido. A estátua estava no mesmo lugar em que havia sido encontrada no dia anterior. Plácido novamente a levou para casa e o ocorrido se repetiu por vários dias, até que ele decidiu que iria construir uma ermida no local. Os anos passaram, as pessoas que visitavam a capela recebiam milagres em suas vidas e o ponto acabou ficando famoso. 

 

Em 1773, o bispo do Pará, D. João Evangelista, colocou a cidade de Belém sob a Proteção da Virgem e a imagem foi levada a Portugal (local onde hoje se encontra a primeira estátua de todas, esculpida na Galileia) para ser restaurada. No entanto, foi solicitado também que os rostos, tanto de Maria quanto da criança, fossem modificados para terem feições brasileiras, mais especificamente indígenas. O retorno da imagem até a basílica foi acompanhado por vários fiéis e considerado a primeira romaria, chamada de Círio por ser realizada a partir do entardecer, com o uso de velas (a palavra tem sua origem no termo “cereus”, que significa vela grande). O ato passou a se repetir todos os anos e, em 2004, foi considerado Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 

 

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Programação

 

A comemoração começa, na realidade, no dia 31 de maio, com a Festa da Coroação de Nossa Senhora, em que é apresentado o cartaz e dado início à preparação mais efetiva. A partir daí a imagem peregrina instituições de todos os segmentos, como escolas, presídios, empresas e prédios da organização pública de Belém, demais municípios do Pará e até outros estados, como o Rio de Janeiro. Em seguida, ocorre a Missa do Mantado, em que os membros da comunidade católica da Basílica são separados em grupos com cópias da estatueta e panfletos dos eventos, para passarem de casa em casa oferecendo momentos de oração, reflexão e partilha da palavra bíblica. Há também a missa dos comunicadores, para abençoar a todos os profissionais que irão cobrir o evento.  

 

Dias antes, ocorre a missa de abertura, com uma maratona de eventos religiosos que inauguram a iluminação externa do tempo, o arraial e a feira de produtos, assim como a arrecadação de alimentos para a campanha “Belém, a casa do Pão”, realizada pela Paróquia de Nazaré. Depois, ocorre a vigília de adoração, que consiste em 48h de adoração ao Santíssimo Sacramento, e o acompanhamento dos carros de anjos e promessas até os galpões da Companhia Docas do Pará, de onde só saem na hora do Círio. Em seguida, a apresentação do manto de peregrinação, que a imagem irá vestir durante as doze romarias oficiais. A partir daí começam as caminhadas oficiais.

 

Tudo começa com o Traslado para Ananindeua, região Metropolitana de Belém, e depois a Romaria Rodoviária, até a orla de Icoaraci. A Romaria Fluvial (uma das mais bonitas), ocorre pela Baía de Guajará, em que a estátua segue até a Praça Pedro Teixeira em uma embarcação da Marinha, acompanhada por várias embarcações dos mais variados tipos; em seguida, é entregue para o Exército, que na companhia da Federação Paranaense de Motociclismo leva a imagem até o Colégio Gentil Bittencourt na Moto Romaria. Lá ocorre a cerimônia de Descida da imagem original para um nicho comemorativo, e então é realizado o Antecírio na véspera noturna do evento, quando as pessoas fazem o mesmo trajeto da procissão principal, porém em sentido contrário.

 

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O grande dia inicia com uma missa e depois o percurso de 3,6 km, saindo da Catedral, na Cidade Velha até a Praça Santuário de Nazaré. Gente do mundo inteiro acompanha a imagem da Virgem e não são apenas católicos, pois a Santa de Nazaré é considerada uma figura muito importante e especial, representante da maternidade protetora, em várias religiões, como o espiritismo, a umbanda, o protestantismo, o judaísmo e até mesmo o islamismo. Uma semana depois, ocorre o Ciclo Romaria, uma procissão de bicicleta em que as três melhor enfeitadas recebem premiações e, na sequência, a Romaria da Juventude, uma das mais animadas, com trio elétrico e tudo mais. No dia seguinte, tem a Romaria das Crianças, um percurso bem menor e ao som de um coral acompanhado de bandas musicais do município.  

 

Em 2014, surgiu mais uma romaria oficial, a dos Corredores: um trajeto de 8 km com início e retorno na Praça do Santuário, realizado em forma de trote, mas sem caráter competitivo e nem premiações. Sete dias após, é realizada a Procissão da Festa, cujo percurso muda todos os anos para que possa acolher todas as comunidades que integram a paróquia. No quarto domingo de outubro, ocorre a Missa de Encerramento da Festa, com entrega de diplomas e medalhas para os organizadores e finalização com direito a fogos de artifício. Depois de 15 dias perto da comunidade, a imagem original retorna ao nicho, no Glória, e começa a cerimônia de Recírio, para levar de volta a estátua ao posto original, o altar da Basílica de Nazaré. 

 

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OBS: Muitas pessoas acham que romaria e procissão são a mesma coisa, mas na verdade as duas palavras apenas possuem significados muito parecidos. Enquanto procissão é o caminho que se faz com a imagem santa para a aproximação com a comunidade, romaria é uma peregrinação a um destino santo, sem necessariamente a presença de imagens. Como nessa matéria todos os percursos eram romarias e procissões ao mesmo tempo, os termos foram utilizados como sinônimos.  

 

Culinária

 

Os paraenses consideram o Círio de Nazaré tão importante quanto outras celebrações internacionais, como Natal e Ano Novo. Logo, todos os dias de comemoração são acompanhados de um banquete farto de pratos típicos. Tem maniçoba, a feijoada paraense à base de folhas de mandioca, que são fervidas durante sete dias para poderem ser consumidas sem risco de envenenamento (para quem não sabe, essa planta possui um veneno letal), e depois acrescidas de linguiça, paio, carne de porco e um caldo temperado escuro e grosso que lembra muito uma feijoada; tem pato no tucupi, cozinhado com soro da mandioca brava e erva de jambu, que deixa a língua dormente; tem tacacá, um caldo de tucupi com camarão, jambu e goma de mandioca; e unha, uma coxinha com recheio de caranguejo que fica ótima acompanhada de suco de bacuri.  

 

Essa comida toda é servida no Arraial da Praça Santuário, junto com barraquinhas de bebidas, jogos e bazares, um espaço que lembra muito as famosas festas juninas. Há também um parque de diversões funcionando durante os dias de evento. É um lugar ótimo para comprar souvenires e lembrancinhas da viagem. Se quer uma dica, fique atento à venda de brinquedos feitos com caule de palmeira de miriti: miniaturas artesanais de bichos, barcos e espécies da flora amazônica. São todos muito fofos!  

 

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Outros Pontos Turísticos da Cidade

 

Já que vai passar duas semanas em Belém, por que não conhecer as outras partes da capital do Pará? Não deixe de visitar a maior feira livre da América Latina, a Ver-o-Peso, com milhares de produtos típicos, ervas medicinais, peixes e frutas exóticos e o verdadeiro açaí com farinha de tapioca; a Estação das Docas, um complexo turístico na beira da Baía do Guajará, com várias opções de lazer, lojas e restaurantes; o parque ecológico Mangal das Garças e o Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, ambos com espécies raras da Amazônia; o polo cultural Joalheiro, que engloba a Casa do Artesão, o Museu das Gemas do Estado e uma venda de joias e artesanatos; o Theatro da Paz, com estátuas de bronze francesas, piso de pedras portuguesas e escadas em mármore italiano; o Forte do Presépio, levantado para conter ataques indígenas e que hoje exibe a história da colonização da Amazônia; e o Museu de Arte Sacra, com capelas em estilo barroco, imagens de santos e quadros com motivos religiosos. 

 

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Se você leu até aqui, o evento despertou seu interesse de alguma forma, seja pela sua fé, seja pela curiosidade em descobrir coisas novas. Então não perca a oportunidade de participar e de ir ao Pará durante o mês de festividades. Ligue para o seu clube de turismo e agende uma viagem para o próximo ano, eles organizam tudo para que você tenha uma viagem confortável e com o melhor custo benefício. Aproveite também para saber mais dicas de lugares incríveis que valem a pena ser visitados, basta acessar aqui e descobrir qual é a opção que mais combina com você.