Vinte e três telas com toque dourado e cheias de significado enfeitaram as paredes do Mosteiro de São Bento nesse fim de semana, numa exposição em homenagem ao dia da exaltação à Santa Cruz, celebrado hoje pelos cristãos. Conhecidas como ícones bizantinos, as obras foram criadas pelos iconógrafos Walter Welington, 34 anos, e Tânia Hutchison, 60.
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| São Jorge lutando contra o dragão, de Tânia Hutchison |
O nome bizantino vem de Bizâncio, antiga capital do império romano, localizada na Grécia e depois renomeada como Constantinopla. O estilo artístico foi criado no início do cristianismo e muito utilizado pelos gregos e russos para contar passagens bíblicas por meio de imagens.
Na mostra, as telas foram dispostas em uma sequência para mostrar a história da luz divina. A primeira imagem, Transfiguração, simboliza a luz que parte de Cristo para os apóstolos. Em seguida, várias desenhos mostram cenas de Jesus. A sequência continua com o encontro de Cristo e Nossa Senhora. Depois, imagens apenas de Maria, seguidas dos arcanjos.
Cenas bíblicas retratam a fuga de São Pedro e a fuga para o Egito, além das figuras de São Jorge, Santo Onofre e São João. A parte final é um quadro de Jesus Cristo, preso à parede, sobre uma mesa com a Bíblia, vela e flores.
Segundo Walter, há regras para se escrever um ícone e cada símbolo tem um significado. O olho grande, diz o iconógrafo, sugere mais contemplação do que fala. Já a boca pequena representa o silêncio. As estrelas são a virgindade.
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| Técnica de pintura utiliza gema de ovo e pigmentos feitos com terra colorida |
As cores também não são escolhidas em aleatoriamente, destaca. O dourado se remete à eternidade. “Como não dá para pintar algo eterno, utilizamos a profundidade proporcionada pelo ouro”, explica. O vermelho púrpura signifca divindade e o azul, humanidade. “Se as vestes de Maria são azuis, cobertas de vermelho, quer dizer que ela é humana revestida de divindade”, observa. “No Cristo, é o contrário. Ele veste o púrpura e é revestido de azul.”
As explicações fizeram parte de várias conferências sobre a simbologia dos ícones, ministradas por um padre, um monge, um jornalista e um iconógrafo, durante a mostra. No entanto, apenas cerca de 40 pessoas prestigiaram as explanações.
Raridade em BrasíliaConhecida como têmpera, a tradicional técnica de pintura para ícones bizantinos utiliza gema de ovo e pigmentos feitos com terra colorida. A arte é praticamente monástica e depende da formação religiosa.
Walter Wellington e Tânia Hutchison são alguns dos raros casos de iconógrafos em Brasília. Estima-se que a cidade conte com cerca de 10 artistas que dominam a prática. Tânia afirma que seu interesse surgiu há três décadas, mas ela só teve acesso ao aprendizado quando uma amiga voltou de um curso na Argentina. O trabalho foi aprofundado mais tarde, com um monge em Mogi das Cruzes (SP).
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| Assembleia dos Arcanjos, da artista Tânia Hutchison |
Seis anos da vida de Walter foram dedicadas ao monastério. Aos 19 anos, ele ingressou no Mosteiro de São Bento em Brasília, depois foi para Olinda (PE) e São Luís (MA), onde aprendeu a técnica. O aperfeiçoamento veio em um curso com outro monge camaldulense, de São Paulo.
Tãnia pinta para igreja ortodoxa grega, em Brasília, e tem obras na Itália. Está em fase de finalização para enviar novas telas para a Grécia. As obras de Walter são encontradas em várias igrejas do DF. São elas: Paróquia N. Sra do Monte Calvário (Samambaia), Igreja N. Sra de Fátima (Samambaia Norte), Igreja N.Sra das Graças (expansão de Samambaia), Paróquia Sagrado Coração de Jesus e São José (Ceilândia Norte) e Capela no Centro Educacional Católica de Brasília (Taguatinga).
Não percaVocê pode conferir uma mostra com 10 ícones bizantinos de Walter Wellington durante o evento de música católica Hallel Brasília. Em 19 de setembro, no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade. As obras ficarão expostas no estande do Congresso Eucarístico.
Dedicação a CristoConstruído em 1987, o Mosteiro de São Bento em Brasília fica na
QI 29 do Lago Sul, ao lado da Ermida Dom Bosco. Lá vivem 14 pessoas, entre monges, noviços e candidatos, que optaram por renunciar aos bens materiais mundanos para se dedicar a Cristo. O chefe da comunidade é chamado de prior. Quem ocupa o cargo é dom André Rocha Neves. De segunda a sexta, o mosteiro celebra uma missa às 6h15. Aos sábados, às 7h15, e, aos domingos, às 10h. Informações: 3367-2949 ou 3367-7370.
Exaltação à Santa CruzOs cristãos têm a cruz como um símbolo máximo de força, pois foi onde Cristo morreu e ressuscitou. A festa da exaltação à Santa Cruz foi celebrada pela primeira vez no ano 335. O dia 14 de setembro foi escolhido em 628, por ter sido a data em que o imperador de Constantinopla, Heráclito, recuperou a cruz roubada pelos persas 13 anos antes. A relíquia foi reconduzida a Jerusalém.
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