PATRIMÔNIO

Reforma faz Catedral voltar no tempo

Reforma traz de volta a lembrança da igreja dos primeiros anos, quando ela não tinha vitrais e as colunas não haviam sido pintadas. Mesmo em obra, ela está aberta a visitações

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postado em 01/10/2009 07:03 / atualizado em 01/10/2009 13:42

Conceição Freitas

No projeto original da Catedral de Brasília, não havia vitrais e as 16 colunas eram revestidas de mármore branco. Havia, sim, duas camadas de vidro. Uma externa e outra interna, afastadas entre si por um espaço de mais ou menos 40 centímetros. “Acreditava-se na época que as duas camadas protegeriam a nave da insolação”, lembra-se o arquiteto Carlos Magalhães, responsável técnico pela execução do traço de Oscar Niemeyer. Como o dinheiro acabou antes da obra, durante mais de 10 anos, entre os anos 1960 e 1970, a cidade conviveu com um esqueleto de 16 colunas curvas e delgadas em concreto aparente, dispostas em círculo e unidas no topo por um anel de compressão.

Com a reforma que começou em julho passado, a Catedral está momentaneamente sem parte dos vitrais. Mais da metade da área dos cerca de 4 mil metros quadros de vidros coloridos já foi retirada, movimento que trouxe de volta um pouco das características da Catedral de antes da reforma feita na década de 1980. Nessa época, Oscar Niemeyer decidiu convidar a artista plástica Marianne Peretti para desenhar os vitrais coloridos no lugar da pele de vidro transparente antes planejada.

A artista pernambucana deve vir a Brasília nos próximos dias para acompanhar os testes que vêm sendo feitos para conferir a resistência e a eficácia dos materiais usados nos novos vitrais — novos, porém com os mesmos desenhos e cores. Uma das maiores preocupações da equipe de restauro é combinar a complexa equação que tem de ser feita para respeitar o comportamento dos vidros. “De acordo com a cor, eles se comportam de maneira diferente. O vitral azul não dilata como o verde e os dois não dilatam como o transparente”, explica o superintendente do Instituto Histórico e Artístico Nacional do Distrito Federal, Alfredo Gastal.

Os desenhos coloridos, em tons predominantemente azuis, continuam na obra, mas a reforma atiçou a saudade. O fotógrafo Luis Humberto, autor de imagens expressivas da Catedral quando ela estava sem vitrais e sem tinta, prefere a igreja sem eles. “Ela era muito mais vazada, era solta pela falta de algo entre o olhar da gente e o infinito”, diz um dos fundadores da Universidade de Brasília. O superintendente do Iphan diz que a possibilidade de tirar os vitrais nem chegou a ser discutida. A obra será restaurada com os vitrais e com a pintura, porque as alterações foram feitas pelo próprio Oscar Niemeyer. Gastal acredita que o arquiteto já pensava em vitrais quando projetou a obra, mas Carlos Magalhães, executor do projeto desde 1959, reafirma que o desenho original tinha duas camadas de vidro. Não havia a especificação de vitrais.

O professor de arquitetura da UnB Frederico Holanda faz uma avaliação acadêmica: “Os vitrais filtram a luz e matizam o espaço interno, mas seu desenho não deveria macular a ordem espacial”. Holanda considera que “as ondas sinuosas interferem nas linhas ascendentes da estrutura ao ultrapassarem os vãos”. Ou seja, não são os vitrais em si que interferem negativamente na obra. São os desenhos que não combinam com as linhas das colunas. O professor também prefere a Catedral em concreto aparente. “Elas fazem um interessante contraste com o branco do mármore do piso e o da calota do topo.”

Cristo embalado em plástico: até o fim da reforma, ícone fica protegido
Os vidros sem cor, os tapumes, o Cristo crucificado envolto em plástico, os anjos deitados no chão, tudo isso provocou em Cláudio Marcos uma sensação “de vazio e abandono”. Mineiro de Belo Horizonte e integrante da equipe que coordenou a manifestação antimanicomial ocorrida ontem na Esplanada dos Ministérios, Marcos visitou a Catedral acompanhado por uma colega, Tatiana Santana. Marcos defende que a Catedral volte a ter as características originais e Tatiana que os vitrais fiquem: “Eles já passaram para a história, têm de ficar”.

“Panteão invertido”
Com ou sem vitrais, pintada de branco ou em concreto aparente, a Catedral é uma das mais impressionantes e importantes igrejas da arquitetura moderna. “Ela é um panteão romano invertido. As 16 pétalas estruturais de concreto, de extrema delicadeza, e os vitrais deixam perplexos quem a visita”, diz Frederico Holanda.

A construção da Catedral é, em si mesma, um atrevimento da arquitetura, da engenharia e do cálculo estrutural. O arquiteto Carlos Magalhães conta que a coluna delgada foi desenhada, em tamanho natural, no chão do enorme galpão construído no canteiro de obra, e a correção da curvatura foi feita a carvão, numa época muito distante dos cálculos computadorizados. Boa parte do tempo, Magalhães ficou indo e vindo do Rio de Janeiro para acertar com o engenheiro Joaquim Cardozo os cálculos estruturais da obra. A primeira etapa da reforma ficará pronta em 21 de abril de 2010, quando Brasília completa 50 anos de fundada.