Cidades

Desigualdade pela cor persiste no DF

Pesquisa do Dieese mostra que os negros ganham menos que os brancos, são minoria em cargos de chefia e representam quase dois terços dos desempregados no Distrito Federal

postado em 19/11/2009 07:15


Carlos Alexandre, vendedor de picolé: Quatro anos se passaram e o abismo entre negros e não negros no mercado de trabalho do Distrito Federal ainda persiste. Os avanços entre 2004 e 2008 foram tímidos, segundo levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com base em dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Os números divulgados ontem mostram que os negros continuam a ganhar menos, ainda que o grau de escolaridade seja o mesmo. Além disso, permanecem sendo minoria nos cargos de gerência e planejamento. E a cada 10 desempregados no DF, quase dois terços ; 65,1% ; são negros. Em 2004, esse percentual era de 73,2% (veja quadro).

O Dieese cruzou os dados com a esperança de constatar que o acelerado crescimento econômico dos últimos anos pudesse ter amenizado a diferença entre negros e brancos. O resultado, porém, causou espanto. ;Observamos uma estabilidade incômoda. A discrepância se perpetuou. Os passos que estão sendo dados no DF são tímidos;, avaliou o economista do Dieese Tiago Oliveira. Amanhã, comemora-se em todo o país o Dia da Consciência Negra. (1);Pelos números, podemos deduzir que o debate não tem ajudado a mudar muito o cenário do mercado de trabalho no DF;, completou.

Pesquisa do Dieese mostra que os negros ganham menos que os brancos, são minoria em cargos de chefia e representam quase dois terços dos desempregados no Distrito FederalA população economicamente ativa negra diminuiu no período pesquisado, de 68,1% para 60,6%. Na avaliação do Dieese, isso quer dizer que os negros têm encontrado mais dificuldade para achar emprego e passam mais tempo à procura de trabalho. A diferença apontada pela pesquisa em comparação com os não negros é de quatro semanas. Não bastasse, os negros trabalham uma hora por semana a mais. E o abismo do rendimento entre os dois grupos aumentou: os negros passaram a ganhar, em 2008, 63,6% do que ganham os brancos. Em 2004, esse percentual era de 66,3%. Na maioria dos setores analisados, o não-negro passou a ganhar mais que o negro.

Rendimento
Para o economista Tiago Oliveira, tudo leva a crer que o mercado do DF discrimina o negro. ;A diferença de rendimento é a mais preocupante. O crescimento econômico e a melhoria dos indicadores do mercado de trabalho não fizeram diferença;, comentou, ao defender políticas públicas mais eficazes para qualificar o negro. O levantamento de 13 páginas do Dieese termina indicando que ;há um longo caminho a ser percorrido para superação das condições desfavoráveis dos negros;.

A baiana de Feira de Santana Dinair de Jesus, 44 anos, é negra. Assim se autodefine e não gosta de eufemismos. A mulher mora em Ceilândia e vive da venda de acarajé. Certa vez, contou ela, ao concorrer a uma vaga de emprego com uma pessoa branca, sentiu-se discriminada. ;Ela foi escolhida para trabalhar na secretaria da presidência e eu fui para a cantina servir cafezinho;, lembrou. A filha de 27 anos passa pela mesma dificuldade, segundo Dinair. ;Ela se formou, é técnica em radiologia, mas não consegue nada. Acho que vai acabar virando camelô;, ressalta.

;O povo tem dificuldade em valorizar o negro, mas todo mundo é igual. Não sei para que esse preconceito;, disse o vendedor de picolé Carlos Alexandre Lopes da Silva, 20 anos, morador de Planaltina de Goiás. Ele concluiu apenas o ensino fundamental.

Na avaliação de João Bilola, coordenador para Assuntos da Igualdade Racial da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, essa disparidade é resultado de uma ;cultura do enbranquecimento;. A partir do ano que vem, segundo ele, serão intensificados projetos para capacitar o negro. ;Quanto mais instruído ele for, mais chance terá de conquistar o mercado de trabalho e mudar esse quadro;, defendeu.

Bilola destacou ainda que a maioria dos negros empregados no DF trabalha em serviços gerais e domésticos. A pesquisa do Dieese também comprova essa tese apresentada pelo coordenador.

Reflexão
A data é celebrada desde a década de 1960, mas só foi criada por lei em 2003. Foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, o ícone da resistência negra à escravidão. Diversos eventos são realizados para provocar uma reflexão sobre a questão racial no Brasil.

Dinair de Jesus, vendedora de acarajé, diz que já se sentiu discriminada durante entrevista de trabalho



Dinair de Jesus, vendedora de acarajé, diz que já se sentiu discriminada durante entrevista de trabalho



Palavra de especialista

Luta que é constante
[FOTO4];Esses dados reforçam a tese de que políticas de ações afirmativas são necessárias. Sem elas, não teríamos qualquer melhora. Só com elas podemos vencer esses limites. No ritmo que estamos, segundo pesquisas, a população negra poderá levar 30 anos para se equiparar à não negra. Estou falando de cotas, incentivos, bolsas de estudo, qualificação; Qualificar o trabalhador negro é dar a ele a oportunidade de mudar esse cenário. O racismo faz parte da nossa cultura e, como ainda não amadurecemos o debate, o comodismo perdura. É muito cômodo para um empregador, por exemplo, continuar não contratando negro porque ele não é pressionado para isso. Se empresas recebessem incentivo para ter negros em seu quadro de pessoal, a situação poderia ser diferente. Quando se mexe no bolso das pessoas, as coisas podem mudar. Por enquanto, persiste o estereótipo de que os negros não são qualificados. Mesmos no serviço público: a pessoa passou no concurso, mas não ocupa cargos de gerência porque a tal aparência não condiz com o perfil desejado. Além das ações afirmativas, o movimento negro não pode parar. Há muito o que fazer.;
Nelson Inocêncio é professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB),coordenador do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros (Neab) da universidade e autor do livro Consciência negra em cartaz

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