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Documentário lírico de Evaldo Mocarzel sobre o trabalho das quebradeiras de coco divide público

Publicação: 22/11/2009 08:27 Atualização: 22/11/2009 08:49

Lúcio Flávio
Tiago Faria
Yale Gontijo


 (Casa Azul Produções/Divulgação)
Nas três vezes em que competiu no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o carioca Evaldo Mocarzel ganhou dois prêmios do júri popular. O discurso social dos documentários À margem do concreto (2005) e À margem do lixo (2008), dedicado à luta de minorias, cobrava reações intensas da plateia. Daí a sensação de estranhamento provocada pelo novo trabalho do diretor, exibido sexta-feira (20/11) na mostra competitiva em 35mm. Antes da exibição de Quebradeiras, Mocarzel anunciou que o projeto representaria uma “ruptura brutal” numa carreira que chega ao 10º longa-metragem. Pediu silêncio e concentração. A aposta num tom lírico dividiu os espectadores, que responderam com aplausos nada inflamados.

“Este não é um filme explosivo. É uma experiência sensorial e poética, que trata da dilatação do tempo. Um documentário etnográfico por excelência”, explicou Mocarzel, ao fim da projeção. No filme, o cineasta se obrigou a cumprir dois dogmas: além de ter limado diálogos e entrevistas, ressaltou a palavra cantada. A câmera, rigorosamente estática, embrenha-se num ambiente de natureza quase sufocante, onde trabalham as quebradeiras de coco de babaçu. A região do Bico do Papagaio (onde se encontram os estados Maranhão, Tocantins e Pará) é explorada com longos planos e fotografia em digital. “Antes, eu trabalhava com a imponderabilidade do real. Agora, encenei tudo para o quadro”, resumiu o diretor.

A opção estética, no entanto, não representou a abandono de causas sociais. Para a sessão, Mocarzel convidou duas quebradeiras de coco, que cobraram mais atenção para um ofício que sustenta cerca de 400 mil mulheres. “Temos ansiedade de que o povo reconheça nossa tradição. É uma honra estar no cinema”, disse Maria Querubina da Silva. Ela ainda cobrou a aprovação de um projeto que tramita no Congresso Nacional e pode tornar as áreas de coco de babaçu espaços de livre-circulação para extrativistas.

No debate no Hotel Nacional, a ausência de depoimentos no filme foi o assunto mais discutido. “Já estou um pouco de bode com essa coisa da palavra. No início do processo, cheguei a gravar uma entrevista induzida com as quebradeiras. Essa cena abriria o filme. Mas acabei desistindo disso”, afirmou. Para a equipe, a fórmula do “cinema-conversa” teria se esgotado. Apesar da mudança, o diretor — acostumado a desenvolver vários projetos ao mesmo tempo — não afirmou que deseja abandonar a palavra nos próximos trabalhos e disse que pretende enveredar pela ficção. “Sou um documentarista por acidente. Talvez eu deva ir para a ficção mesmo.” O longa é dedicado ao crítico Jean-Claude Bernardet, que inspirou Mocarzel na renovação estética.

Minimalista
Fortemente influenciado pela trabalho do diretor Joel Pizzini (de 500 almas), por cineastas mineiros como Marília Rocha (que apresenta segunda-feira o longa A falta que me faz) e pelo mestre norte-americano Robert Flaherty (1884-1951), a produção paulistana de 70 minutos de duração tem narrativa minimalista e circular. “Não é parecido com nada do que fiz antes”, sintetizou. O estilo contemplativo também marcou o curta pernambucano Ave Maria ou mãe dos sertanejos, muito aplaudido. A semelhança com o longa de Mocarzel foi justificada pelo diretor Camilo Cavalcante como uma vertente em voga no cinema brasileiro.

Se Mocarzel evitou a agitação social, o curta brasiliense Dias de greve, de Adirley Queirós (vencedor do Candango de melhor curta por Rap, o canto da Ceilândia em 2005), assumiu a missão de retratar, em formato ficcional, as angústias de um grupo de trabalhadores de Ceilândia. “Achei muito legal de fazer. Eu não tinha experiência com esse gênero. Mas acredito que tenha funcionado. A proposta é de uma ficção com representação mais naturalista”, explicou o cineasta, que prepara um documentário em longa sobre a vida em Ceilândia. No debate, firmou posição política. “Temos que ser bairristas mesmo. Quem se arrebentou no processo histórico fomos nós. Somos uma geração de certa forma desencantada. Queremos propor um novo olhar para a cidade”, provocou.

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