VINICULTURA

Coronel reformado importa mudas de vinhedos da França e deve apresentar primeiras garrafas em 2011

Mais cinco mil mudas vieram da França e começaram a ser plantadas na última quinta-feira (3/12)

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 06/12/2009 08:05 / atualizado em 06/12/2009 08:10

Diego Amorim

O primeiro vinho do Centro-Oeste (1) está sendo produzido a 70km do centro de Brasília, em Planaltina de Goiás. A plantação do vinhedo começou em 2008, depois de um ano de testes com nove variedades de uva. José Antônio Pires Gonçalves, 78 anos, um coronel reformado do Exército Brasileiro, constatou as boas condições para o cultivo das vinhas na fazenda que comprou em 1984 e começou o trabalho com a ajuda de nove funcionários. Ainda sem nome definido, o produto deve chegar ao mercado em novembro de 2011. Cerca de 100l já estão em fase de fermentação. As mudas viajaram da França para Caldas, em Minas Gerais, e, de lá, seguiram para a fazenda de José Antônio, na área rural do município goiano. Depois de observar a maturação dos cachos em um local apelidado de laboratório, o coronel escolheu três variedades para vinho tinto (Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Syrah) e uma para vinho branco (Sauvignon Blanc). "Todas apresentaram bom resultado, mas essas se destacaram e darão vinho fino", comenta o gaúcho de Porto Alegre que chegou a Brasília em 1969. Os testes resultaram na colheita de cerca de 150 kg de uvas.
Fotos: Rafael Ohana/CB/D.A Press
O vinhedo goiano começou a nascer quando José Antônio passou de carro por uma fazenda vizinha à dele e avistou duas parreiras com dezenas de cachos vistosos. Curioso, parou para conversar com o produtor e ouviu dele: "Aqui dá uva duas vezes por ano". Ele resolveu testar o poder da safra e confirmou a afirmação. "É impressionante, as condições são excelentes. Se soubesse antes, teria começado a plantar vinhas há muito tempo", diz o coronel, já reconhecido com quatro prêmios internacionais pela produção de cachaça e rum (2). Foram 20 anos de altos e baixos com a plantação de soja, antes de vislumbrar alambiques e, mais recentemente, vinhedos. Autodidata, José Antônio estudou sobre vinhos, visitou regiões da Europa e decidiu apostar no novo ramo. Para auxiliá-lo, contratou o enólogo Marcos Vian, considerado um dos melhores do país. Residente em Bento Gonçalves (RS), o especialista ainda não visitou a fazenda do coronel, mas tem acompanhado o trabalho desenvolvido por ele. "Ainda não é preciso que ele venha", afirma o produtor, que registra o nascimento do vinhedo com fotos e anotações diárias. Cinco mil parreiras estão plantadas desde novembro do ano passado. Na última quinta-feira, quando o Correio visitou a fazenda, começou a plantação de mais cinco mil pés. O vinhedo, a 1.115m do nível do mar, ocupará uma área de 4,7 hectares, o equivalente a quase cinco campos de futebol. Na região da Galícia, na Espanha, o tamanho médio dos vinhedos é de 1,5 hectare. Em Borgonha, na França, 3,4 hectares. A inclinação do solo na fazenda de Pires Gonçalves é de três graus, um terreno quase plano. Nas plantações às margens do Rio Douro, em Portugal, a inclinação chega a 27 graus. Os ingredientes do solo se refletem na qualidade do vinho. Para fazer o primeiro do Centro-Oeste, o produtor gaúcho buscou inspiração na França, onde morou por dois anos. "Fiz uma imitação do solo de Borgonha, com brita, bagaço de cana, esterco de gado, entulho. Da terra para baixo, é a minha mão. Da terra para cima, é a de Deus. E, modéstia à parte, essa combinação tem dado certo", comenta o coronel. Para preparar a terra são cerca de quatro meses de trabalho. José Antônio mora em Brasília, mas pelo menos três vezes por semana vai à fazenda para, inclusive, ajudar na poda das raízes. Ótimas condições Segundo o produtor, o terroir (3) na fazenda é excelente. "Chove bem, a composição do solo é boa, a drenagem é ideal", enumera. Por que, então, ninguém havia pensado em fazer vinho por ali antes? "Não sei, mas se eu tivesse começado com isso aqui 20 anos atrás%u2026", diz ele, que terá 80 anos quando o vinho chegar ao mercado. "Vou deixar o trabalho para o marido de alguma neta, mas ainda não o conheço", brinca o coronel, pai de dois filhos e avô cinco vezes. A neta mais velha tem 16 anos. Ele, que se diz homem do campo, diverte-se ao falar da fazenda e do vinhedo. José Antônio pensou em tudo antes de optar pela produção de vinho. "Isso aqui não é para amador, não. Plantar uva é uma coisa, fazer vinho é outra", compara. Onze roseiras fazem companhia às vinhas no parreiral. "Servem de controle biológico. As pragas as atacam em vez de atacarem os cachos", explica o produtor, que não usa defensivos agrícolas. "Eles agridem o solo, as raízes e isso acaba influenciando na qualidade do vinho. Meu vinho será ecológico", completa ele, que diz degustar a bebida quase que diariamente desde os 20 anos. O método de plantação do futuro vinho goiano é conhecido como Guyot, no qual os cachos são distribuídos em uma vara, o que ajuda a uniformizar a maturação das uvas. Sessenta barris, com capacidade para 200l cada, esperam a bebida. Uma máquina que tritura os cachos e faz vinho em menos de quatro horas está instalada perto do pavilhão de envelhecimento. O equipamento saiu de Garibaldi (RS), possui tecnologia italiana e custou R$ 27 mil. O investimento do primeiro vinhedo do Centro-Oeste ultrapassa os R$ 120 mil, incluindo despesas com o trabalho da terra, compra de material e mão de obra. Em maio do ano que vem, será possível encher as taças da primeira safra do vinho goiano. O carpinteiro Osvaldino Rodrigues da Costa, 43 anos, nascido em Formosa (GO) e promovido a vinhateiro na última semana, adianta-se: "Vinho bom vai ser o do interior de Goiás, tenho certeza disso". Alguns nomes despontam na lista dos vários que surgiram desde que nasceu a ideia do vinhedo na fazenda de José Antônio. Entre eles, Marquês do planalto e Primeiro amor. "Primeiro amor não é inesquecível? O vinho também vai ser", diz o coronel, sem querer assumir preferência. 1 - Polos No Brasil, há três polos de vinhedos: no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Vale do São Francisco. No Centro-Oeste, não há registro. Em regiões como a de Vicente Pires, há plantação de uvas de mesa, mas não uvas chamadas de viníferas, que resultam em vinhos. 2 - Premiado O rum Barão do Cerrado e a cachaça Alma Gêmea são produzidos desde 2003. Já ocupam prateleiras de lojas especializadas e supermercados de Brasília e do Rio de Janeiro. Entre os prêmios conquistados pela cachaça, por exemplo, está o 6º Concurso Mundial de Bruxelas, em setembro último. No caso do rum, ele é o único produtor brasileiro. 3 - Conjunto de fatores O conceito de terroir abrange os aspectos do solo onde uma vinha é plantada. É o conjunto de fatores que favorecem ou não a obtenção de uvas de qualidade, como inclinação do terreno, vento e período de chuvas. Confira videorreportagem sobre produção vinícola no Distrito Federal