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DOCUMENTOS

Tirar a carteira de identificação no DF requer paciência

Nesta época do ano, dobra a demanda nos postos, enquanto o número de funcionários diminui. As filas começam às 6h; o atendimento em 14 das 18 unidades, só às 12h

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postado em 07/01/2010 08:00 / atualizado em 07/01/2010 09:25

Luísa Medeiros

Kléber Lima/CB/D.A Press
O dia começa cedo para quem precisa tirar a Carteira de Identidade no Distrito Federal. Para conseguir um bom lugar na fila dos locais autorizados a emitir o documento, o cidadão tem que acordar de madrugada disposto a enfrentar longas horas de espera. Entre dezembro e meados de fevereiro, a demanda pelo serviço dobra na capital. Nesse período, em média, 200 pessoas procuram diariamente um dos 18 postos. São vários os motivos: viagem, tempo livre e até vontade de ter uma identificação do DF. O aumento no movimento sobrecarrega o atendimento, que, nesta época, é mais precário do que em outros meses. Parte dos funcionários do Instituto de Identificação (II) da Policia Civil sai de férias e não há contratações. Para atrapalhar mais a vida do cidadão, o sistema de identificação digital ainda está em fase de adaptação. Após ser chamada, a pessoa fica cerca de 40 minutos no box de atendimento. No antigo sistema manual, não chegava a 10 minutos.

Muitos dos sem-carteira são pessoas que moram em outros estados, mas fazem questão de ter a identidade do DF. Aqui, o documento é expedido em 10 dias. Em outros estados, o prazo é de até um mês. A aposentada Maria da Graça Matta, 71 anos, mora em Curitiba (PR) e veio a Brasília para o casamento do filho. Ela aproveitou para trocar a carteira tirada há 42 anos na capital. "Quero manter o número para não ter que mexer na minha documentação", justificou. O desejo teve seu preço. Maria da Graça passou das 6h15 da última terça-feira até as 10h para ser atendida no Na Hora da Rodoviária do Plano Piloto.

Tanta procura não poderia ter outro resultado: tirar a Carteira de Identidade tornou-se uma via-crucis para o cidadão. Moradora da Cidade Ocidental (GO), a desempregada Lidiane Nascimento, 26 anos, levantou às 6h na última terça-feira com o objetivo de ser a primeira da fila do posto de identificação que fica na 33ª Delegacia de Polícia (Santa Maria). Depois de ir três vezes ao local e não conseguir pegar a senha de atendimento, ela estava determinada a encarar o desafio. Fora o Na Hora, os postos de identificação do DF abrem às 12h. São distribuídas de 20 a 40 senhas por dia. "Na primeira vez, cheguei às 10h e já tinha uma fila gigantesca. Fiz isso duas vezes até tomar coragem de madrugar na frente do posto", disse Lidiane, que, na última terça, chegou às 7h.

Durante a manhã, a desempregada perdeu a conta de quanta gente desistiu de encarar a fila. "Tenho tempo livre e posso ficar aqui. Não tiro a carteira na minha cidade porque lá é tudo demorado e difícil", disse. Para organizar a multidão, foram improvisadas senhas extraoficiais. Quando a porta do posto abriu, não houve tanta confusão, mas Severino Ferreira, 19, saiu prejudicado. Aguardando desde às 8h no local, ele não sabia que deveria apresentar a Certidão de Nascimento original. "Não há nenhum cartaz informando o que precisamos trazer. Perdi a manhã e terei que perder outra para tirar a carteira."

Internet

A alta temporada não é novidade para o Instituto de Identificação, responsável pela emissão das Carteiras de Identidade. O período entre dezembro e fevereiro sempre se torna mais crítico pelo grande movimento, mas nem por isso há previsão de contratar mais peritos. Parte dos profissionais está de férias - cerca de 20% dos 157 papiloscopistas. Antigamente, não havia reposições, mas, desta vez, servidores foram cedidos por órgãos do GDF. Isso porque o novo sistema (1) de identificação permite a outros funcionários colherem as informações desde que sejam capacitados.

O treinamento, porém, ainda está acontecendo em alguns postos. Nessa fase de adaptação, o tempo de atendimento triplicou. Antes, uma pessoa gastava de cinco a 10 minutos para informar seus dados, apresentar fotos 3x4 e sujar os dedos de tinta preta. Agora, fica de 30 a 40 minutos, porque o trabalho está concentrado em um atendente, que tira a foto, colhe as impressões digitais e coleta as informações.

Segundo o diretor adjunto do II, Claudionor Batista dos Santos, a partir de março, o sistema estará em funcionamento ideal.

A ideia é que, a partir de julho, o cidadão preencha na internet um formulário com as informações pessoais. "Isso vai agilizar em 80% o atendimento e poderemos entregar no mesmo dia o documento", garantiu Santos.

Apesar da alta procura, de acordo com o gerente do Na Hora da Rodoviária do Plano Piloto, Renato Rinaldi, os números de atendimento despencaram no mês passado. A média mensal de 2 mil carteiras emitidas caiu para 260, devido a dois fatores, segundo ele: a greve dos policiais civis e o treinamento dos funcionários no sistema digital. "Pelo menos, o novo modelo permite que outras pessoas que não sejam peritos coletem as imagens e as informações."


1 - Segurança digital
A Carteira de Identidade digitalizada foi lançada no DF em 4 de agosto passado, mas o modelo ainda está em fase de adaptação. Itens de segurança, como o código de barras no verso, foram adicionados ao layout do novo documento para dificultar a ação de fraudadores. As fotos 3x4 e os dedos sujos de tinta preta perderam lugar para a captura eletrônica da fotografia, da assinatura e das impressões digitais. Quando o sistema estiver a todo vapor, a promessa é emitir a segunda via da identidade em até 24 horas. Caso seja a primeira vez que o documento é emitido, o prazo é de até 72 horas.

 

Planejar para não perder a viagem

Quem vai viajar também corre para tirar a Carteira de Identidade e não ter problemas na hora do embarque. A doméstica Conceição de Maria Amorim, 40, levou o filho José Erick, 16, para tirar a primeira via da identificação no Na Hora da Rodoviária do Plano Piloto. Eles saíram de São Sebastião às 6h da última terça-feira e tiveram a sorte de pegar a penúltima senha distribuída naquela manhã. Os portões do posto abrem às 7h30, mas a fila de cerca de 100 pessoas se formou bem antes disso. Com viagem marcada para o Maranhão para o fim do mês, os dois não poderiam deixar para outro dia. "Sabia que iria demorar; por isso, vim bem cedo e, mesmo assim, quase perdi a senha", contou a mãe, que só foi atendida às 9h.

A oficial de Justiça Sandra Benita, 40 anos, pensou que pudesse viajar para os países do Mercosul apresentando a carteira funcional. Quando descobriu que exige-se a Carteira de Identidade ou o passaporte, ela correu contra o tempo, mas se deparou com um serviço lento. No início da semana, fez tentativas nos postos de identificação do Cruzeiro e da Asa Sul e no Na Hora da Rodoviária, mas não teve sucesso. Sandra só terminou sua via-crucis no posto do Núcleo Bandeirante, na última terça-feira, porque chegou às 10h30. Por sorte, havia apenas cinco pessoas na sua frente. "Viajo no dia 20 para Buenos Aires (Argentina) e esta é a minha última chance de conseguir a carteira. Depois de peregrinar tanto, tenho fé de que vou conseguir", afirmou Sandra, com a senha na mão.

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