Produção de bebidas é alternativa de coronel reformado para manter-se na ativa

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postado em 08/01/2010 08:40 / atualizado em 08/01/2010 08:47

Leilane Menezes

Aos 78 anos, o coronel reformado do Exército José Antonio Pires Gonçalves, morador da Asa Sul, está mais ativo do que nunca. Ele mantém uma fazenda em Planaltina de Goiás, na Quadra 19 de Brasilinha, onde as atividades vão muito além do comum. Ali, funciona uma destilaria semiartesanal na qual é produzida uma das melhores cachaças, a Alma Gêmea, e o segundo melhor rum do mundo, o Barão do Cerrado. As bebidas do coronel ganharam quatro medalhas em um importante concurso internacional em 2009. Mesmo com a realização pessoal alcançada, o senhor de cabelos brancos não para. Ele quer ser o produtor do melhor vinho do Centro-Oeste. Mandou trazer mudas de uvas da França e pretende começar a engarrafar o produto, no máximo, até o próximo ano.

O dono se envolve em todos os processos da produção. Passa grande parte do dia em meio às plantações e ajuda os peões. Acompanha de perto o plantio das videiras, o cultivo da cana, a compra de máquinas e o cuidado com a terra. “Estou me cercando da mais alta tecnologia para fazer o melhor”, diz. Com quase oito décadas de vida, a personalidade extrovertida do fazendeiro José Antonio lembra pouco o comportamento rígido de militar. O idoso usa quase sempre bermuda, camiseta e boné com estampa camuflada. Uma bengala ajuda na locomoção.

Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Nascido em Porto Alegre, o coronel serviu durante 30 anos o Exército e viveu no Rio de Janeiro. Chegou ao DF há quatro décadas, quando a Aeronáutica transferiu para a nova capital vários homens do Estado Maior das Forças Armadas. Naquela época, José Antonio era major. Aposentou-se nos anos de 1990. Depois de tantas mudanças, o sotaque ficou misturado: o jeito de falar ora lembra o povo carioca, ora parece gaúcho e por fim lembra os brasilienses. Mas foi longe da terra natal, em um solo até então considerado difícil para produzir, em meio ao vazio do cerrado de Goiás, que o coronel encontrou prazer além das viagens ao exterior, sua principal diversão.

No início, era apenas uma criação de gado nelore e soja. Mas em 2003 um amigo ofereceu de presente um alambique já um pouco ultrapassado e José Antonio, estimulado pelo desafio, decidiu produzir cachaça. Ele reconhece que os primeiros litros ficaram ruins. Então, viajou a Minas Gerais e comprou aparelhos modernos. O coronel se debruçou sobre revistas e livros e aprendeu sozinho a técnica de produzir a bebida.

Personalidade

Foi para agradar e impressionar a mulher, Consuelo, com quem é casado há 47 anos, que José Antonio começou a produzir rum. “Eu já fazia cachaça. Aí, a Consuelo, que gosta de beber, me desafiou a fazer o rum. Gasta mais tempo e dá um trabalhão. Antes de mim, ninguém produzia rum no Brasil porque as pessoas não têm paciência. Mas ela não é minha cara-metade, é minha cara-inteira. Eu fiz por ela”, relatou.

Passaram-se seis meses de pesquisa até encontrar a receita ideal da bebida. “Um dia, meu filho, que mora na Europa, encontrou os escritos de um farmacêutico francês que esteve no Caribe em 1890 com todas as medidas do melhor rum. Ele mandou para mim e comecei a produzir.” Todo o material usado na bebida é colhido na fazenda. A cana-de-açúcar passa pela moenda. Em seguida, o líquido é coado e vai para o decantador. Depois, o rum segue para a dorna (tonel de aço inox) de fermentação. Lá, ele fica por 72 horas. No fim, é adicionado o melaço. “É o último item que diferencia o rum da cachaça. A quantidade é o segredo da empresa”, explica o coronel. Três filtros garantem a pureza da bebida.

O toque final é o armazenamento do rum em barris de carvalhos durante três anos. Só depois o líquido é engarrafado e enviado para 11 pontos de venda no DF, 10 no Rio de Janeiro e uma remessa para a França, de onde segue para outros países. A fazenda produz 7 mil litros de rum por ano. “Não faço mais que isso porque perderia a qualidade. O importante não é ganhar dinheiro, mas atingir um ponto de excelência. Isso é que traz o reconhecimento”, garantiu. A garrafa com 750ml de rum e 42% de volume de álcool sai a R$ 38, se comprada direto na fábrica.

Em março de 2009, confiante da qualidade do produto, o coronel José Antonio inscreveu o rum e a cachaça no concurso mundial de produtores de destilados, o San Francisco World Spirits Competition, na Califórnia, Estados Unidos. O rum de Planaltina concorreu com outros de 21 países e 450 expositores, inclusive do Caribe, local famoso pela qualidade. Levou medalha de prata. Os 17 jurados, entre eles jornalistas e mestres em degustação de bebidas de vários países, adoraram o destilado produzido em Goiás. A cachaça também voltou com honrarias para o Brasil: a versão branca levou medalha de prata e a curtida em carvalho medalha de bronze.

Patrão
O coronel adota uma postura paternal como chefe. Somente no momento de delegar tarefas ele muda o tom de voz. Apenas sete funcionários de confiança ajudam na manutenção de toda a propriedade. Quando completam 10 anos de serviço, ganham uma casa. Mesmo tendo empregados de longa data, o aposentado não descansa. O coração não tem reagido bem a tantas atividades. Este mês uma obstrução coronária fez o homem sentir como se o peito estivesse sendo esmagado por uma tonelada. José Antonio teve de ficar quatro dias longe do vinho. Mas já voltou a degustar uma taça todos os dias.

Recentemente, o fazendeiro se desfez da maior parte do terreno, 800 hectares, e ficou apenas com 125 hectares. Cada empregado ganhou R$ 5 mil. Os dois filhos e os netos ficaram com o restante. “Estou com oitentite. Sabe quando os 80 vão chegando? Pois é. Nessa hora, a gente começa a distribuir as coisas”, brinca. O coronel torce para que a próxima geração cuide dos negócios e aproveite a vida com o mesmo apreço que ele. “É preciso muito amor para fazer tudo bem-feito e chegar mais longe”, concluiu.

“É preciso muito amor para fazer tudo bem-feito e chegar mais longe”
coronel José Antonio Pires Gonçalves

Curiosidade
A origem do rum

Quando se fala na famosa bebida originária do Caribe, logo vem à mente a lembrança dos piratas. A matéria-prima do rum, a cana-de-açúcar, chegou à região por meio do navegador europeu Cristovão Colombo, em meados do século 15. Pouco depois veio a primeira destilação. À época, esse líquido era muito consumido por marinheiros ingleses e piratas. Uma das supostas origens do nome seria o termo latino saccharum, que significa açúcar. Outra possibilidade seria a sua ligação com saqueadores de navios. A palavra inglesa rumbullion, que quer dizer tumulto, teria sido usada para lembrar as festas dos ladrões do mar depois dos roubos.