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A comunidade Café sem troco hoje tem 12 mil habitantes O nome foi emprestado de um modesto bar de madeirite aberto nos anos 1970

Naira Trindade

Publicação: 10/01/2010 08:28 Atualização: 10/01/2010 08:37

Em longas horas de viagem, nas extensas distâncias percorridas pelas estradas deste país, caminhoneiros sempre encontram pelo caminho um lugar aconchegante para tomar aquele café quentinho coado na hora. Em 1975, a opção para quem passava pelo trecho ainda de terra da BR-251, na altura do entroncamento com a DF-130, região de São Sebastião, era um modesto bar de madeirite construído à beira da pista chamado, à época, Panela Velha. Lá, o saboroso café ajudava a manter o motorista acordado ou aquecido, durante o período mais frio do ano, e o caldo de cana moída num engenho antigo os refrescava em momentos de forte calor da capital federal.

João Carlos Paludo faz questão de tranquilizar os clientes, que chegam desconfiados ao estabelecimento: agora, o bar Café 100 troco tem, sim, moedinhas  (Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press)
João Carlos Paludo faz questão de tranquilizar os clientes, que chegam desconfiados ao estabelecimento: agora, o bar Café 100 troco tem, sim, moedinhas
O preço barato dos produtos também agradava aos fregueses. O problema só aparecia se o valor da cédula fosse maior que a quantia consumida. Nesse caso, o motorista podia esquecer a diferença no preço. Naquele ponto, o café era sem troco. E não pense que o então proprietário do barraco, Alarico Joaquim Pires, era desonesto. Pelo contrário: na falta de dinheiro miúdo para devolver o troco, Alarico deixava condutores lancharem de graça no modesto quiosque. “Aqui não tinha nada e era distante de tudo. Quando via uma nota graúda, sabia que não teria como devolver o restante do dinheiro”, recorda um morador de Cariru, região vizinha ao bar, o fazendeiro Joaquim José da Silva, 68 anos.

Para não se apossar do suado salário do caminhoneiro, Alarico propunha um acordo. O homem lanchava e deixava, por exemplo, uma nota de R$ 10 — na época, seria uma cédula de cruzeiro. Seguia viagem até o ponto onde descarregaria o material transportado. E, depois, quando voltasse a cortar a rodovia já com o serviço realizado, tinha crédito no boteco ou poderia retirar as moedas já trocadas para continuar a viagem. Como pessoas de todo o país passavam e ainda passam pelo ponto, a fama da falta de moedas no boteco cresceu rápido.

Apelido
De uma hora para outra, o Panela Velha ganhara o apelido de Café 100 troco, que mais tarde viraria nome de batismo de toda a região que atualmente abriga 12 mil habitantes. Um dos mais antigos fazendeiros do lugar, o mineiro Domingos Fernandes da Silva, 85 anos, ajudou, ao lado da esposa Conceição Araújo Fernandes, 66, a intitular o local. “Eles moram aqui desde o início do bar e faziam brincadeira com a ausência de moedas”, entrega Joaquim José, triste com a notícia de que o amigo de anos Domingos Fernandes está com problemas de saúde e não pôde dar entrevista.

O barraco de madeirite sobreviveu no ponto irregular por pelo menos 20 anos. Depois de removido pelo governo, em meados da década de 1990, o servidor público Wilson Florentino Borges, 72 anos, comprou o lote próximo ao famoso quiosque e resolveu construir um restaurante mais estruturado e espaçoso. O nome do famoso bar foi comprado após a morte do dono. Wilson, então, assumiu a responsabilidade de levar adiante o comércio que dera nome à região (chamada de Café sem troco). Trabalhou duro nele, mesmo após aposentado.


Mas, cansado da rotina de comerciante, arrendou, há quatro anos, a lanchonete a João Carlos Paludo, 48 anos, que faz questão de tranquilizar os motoristas. Diferentemente do passado, hoje o proprietário consegue devolver o troco aos clientes. “As pessoas acham graça no nome. Uns chegam a ficar parados com a nota de R$ 20 na mão imaginando se pagam ou se deixam de comprar, com medo de não terem o dinheiro de volta”, conta.

Aconchego a 56km da capital
Piadista, Joaquim José aponta para a charrete e brinca: 'É o meu escritório' (Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press)
Piadista, Joaquim José aponta para a charrete e brinca: "É o meu escritório"

O cheiro de poeira, o ar de interior e as prosas pausadas dos fazendeiros caracterizam o lugar. A 56km de distância do centro do poder do país, Café sem troco abriga diversas famílias em aconchegantes casas de alvenaria. Além de restaurantes e postos para atender aos motoristas, mercados, lojas de materiais de construção e salões de beleza já mostram a evolução da economia local. O fazendeiro Joaquim José da Silva criou três filhos na região. “Eles estudaram na escola até a 4ª série e depois foram para o PADF (Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal), onde puderam continuar os estudos”, lembra a mulher, Leonilda Gomes da Silva, 55 anos.

O divertido baiano que alegra a todos que passam com piadas contadas pausadamente atualmente só produz o necessário para a sobrevivência. “Já plantei, já toquei gado e cavalo. Mas hoje eu vivo tranquilo e não tenho necessidade de fazer mais isso. Ainda tenho do arroz que plantei em 2008 e só devo plantar outro quando o meu acabar”, conta. “Tá vendo aquilo ali? É meu escritório”, brinca o fazendeiro, já aposentado, apontando para a charrete e o cavalo.

O carreteiro Nilson Bertuol, 60 anos, não hesitou ao encontrar uma sombra no terreno da comunidade Café sem troco. Morador de Medianeira, no Paraná, o motorista contava com a ajuda da mulher, a professora Marineuza Menegol, 53 anos, para preparar o almoço na própria carreta. No cardápio, arroz, frango e salada, com ingredientes frescos comprados no vilarejo. Eles estão fora de casa há 20 dias. Passaram Natal e réveillon nas estradas da Bahia e agora levam fibras de algodão para Uberlândia(MG). “Paramos aqui por causa da sombra, mas já estamos gostando do clima agradável da região”, conta.

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Autor: Bruno Dourado
só tomem cuidado com os assaltos, frequentes nessa região!!!! | Denuncie |

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