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MISTÉRIO » Mães de Luziânia unidas na luta e na dor Elas não se conheciam, mas agora passam mais tempo juntas do que em casa, à procura dos filhos desaparecidos desde dezembro

Daniel Brito

Naira Trindade

Publicação: 05/02/2010 08:04 Atualização: 05/02/2010 08:30

 (Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press)
As seis mães de Luziânia que vivem o pesadelo da falta de informações dos filhos desaparecidos não sabem mais o que é dormir bem durante a noite. Desde o sumiço dos jovens, em 30 de dezembro, o apetite delas nunca mais foi o mesmo. Umas relatam ter emagrecido três, quatro quilos. Outras vivem dopadas, à base de medicamento para superar a dor de não saber o estado de saúde e o tratamento dado atualmente aos adolescentes. Cada uma daquelas mães do bairro carente da cidade goiana era, até então, anônima. Viviam na simplicidade, com pouco conforto. Não se conheciam. E nunca imaginariam que o destino seria capaz de entrelaçá-las. Aldenira, Sônia, Mariza, Sirlene, Valdirene e Maria Lúcia hoje são amigas, quase confidentes. Viajam juntas, conversam diariamente e se amparam numa busca incessante por notícias. Dividem o peso de lutar para que o caso não caia no esquecimento.

Para conseguir dar assistência ao restante da família, a dona de casa Maria Lúcia Lopes, 50 anos, toma 12 tipos de comprimidos por dia. Os remédios foram receitados por um médico para controlar a pressão arterial da moradora do Parque Estrela Dalva 4 desde que Márcio Luiz de Souza Lopes, 19, desapareceu no último dia 22. O marido dela, o vigilante José Luiz da Silva Lopes, 54, chora toda vez que visita o barraco do filho — simples conjugado de quarto com cozinha, construído nos fundos da casa da família. A rotina dos familiares mudou totalmente nos últimos 15 dias. Irmã de Márcio, Lúcia Maria Lopes, 23, se mudou de Águas Lindas de Goiás para a casa dos pais. “Tenho que ficar ao lado deles para dar o suporte necessário. Por sorte, meu marido é muito compreensivo e me apoia nisso”, conta.

Via crucis
A poucos metros dali, na casa simples, sem reboco e sem asfalto, Sirlene Gomes de Jesus, 42 anos, deixou as diárias domésticas para ficar em casa à espera de notícias do filho, George Rabelo dos Santos, 17, que desapareceu em 10 de janeiro. “Nem sei mais o que pensar”, diz a mãe. A contadora Valdirene Fernandes da Cunha, 36, teve de mudar os móveis do quarto para conseguir passar a noite um pouco melhor. No lugar de uma cômoda, colocou a cama de Flávio Augusto dos Santos, 14, desaparecido desde o dia 18 último. “Só com o cheiro dele consigo descansar melhor.”

Desde o desaparecimento dos seis jovens, essas mães se uniram em busca da solução da mesma causa. Fizeram manifestações em Luziânia, visitaram o secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller, em Goiânia, e ontem estiveram no centro do poder, em Brasília. “Não ficamos satisfeitas e dentro do ônibus mesmo já começamos a articular nossa próxima visita a Goiânia, contou a funcionária pública Sônia Vieira de Azevedo Lima, 45 anos, mãe de Paulo Victor, 16.

Sofrimento diário

Aldenira Alves de Souza,

51 anos

Sem notícias do filho Diego Rodrigues, de 13 anos, desde 30 de dezembro, Aldenira está com problema de insônia. Só consegue ser vencida pelo sono depois de 4h. Mantém os olhos abertos na expectativa de ver o filho entrar pela porta da frente de casa, não importa a hora. Em uma madrugada, nas primeiras semanas de desaparecimento, caminhou até a sala e abriu a porta. Sonhou que ouviu os passos de Diego no quintal. Ele nunca chegou. Ciente do sofrimento das outras mães, pregou na parede da casa a foto dos outros cinco garotos.

 

 

Sônia Vieira de Azevedo Lima,
45 anos

Funcionária do Hospital Regional de Luziânia, Sônia está afastada do trabalho desde o desaparecimento de Paulo Victor de Azevedo Lima, 16 anos, em 4 de janeiro. Somente com uso de antidepressivos, ela supera a dor de não poder conviver com notícias do filho adotivo. O menino desapareceu após pagar a conta de energia da lanchonete de Sônia, arrendada para o tio do menino. “Eu queria que meu filho tivesse uma responsabilidade e, por isso, ele ajudava o tio”, conta. Líder entre as mães, ela organizou manifestações e reuniu todas as histórias para que a Polícia Civil pudesse ajudá-las nas buscas.

 

Mariza Pinto Lopes,
42 anos

Diarista dedicada às três residências que arruma no Plano Piloto e no Gama, Mariza mal consegue trabalhar após o desaparecimento de Divino Luiz Lopes da Silva, 16 anos, em 10 de janeiro. O silêncio do apartamento durante a faxina a incomoda. A falta de alguém por perto para distraí-la a faz lembrar o tamanho do problema. Guerreira, ela persiste no trabalho para conseguir alimentar sozinha os dois filhos biológicos e outros dois de criação. “Não como e nem durmo direito. Emagreci quatro quilos”, calcula.

 

 

Sirlene Gomes de Jesus,
42 anos

A casa da mãe de George Rabelo, de 17 anos, virou ponto de referência no Parque Estrela Dalva 8. Construído em um terreno coberto pelo mato, o imóvel de tijolos aparentes e janelas quebradas é o último do bairro e fica próximo a uma plantação de soja. Basta perguntar nas proximidades por ela que a pergunta é automática: “A mãe do menino desaparecido?”. Na semana passada, angustiada pela falta de resposta da polícia, cavou buracos em terrenos baldios vizinhos acreditando que George pudesse ter sido assassinado e enterrado nas proximidades de sua própria casa.

 

 

Valdirene Fernandes da Cunha,
36 anos

Para conseguir dormir após o desaparecimento do filho, Flávio Augusto Fernandes dos Santos, 14 anos, Valdirene teve que modificar toda a estrutura da casa. O quarto do menino está fechado, pois ela não suportava entrar e sentir a falta do filho. No quarto dela, onde havia uma cômoda, está a cama dele. É nela, que de madrugada, ela consegue pegar no sono. “Fico pensando no que pode ter acontecido”, conta. Quando coloca a cabeça no travesseiro, várias hipóteses vêm a mente. Muitas delas trazem lágrimas incontroláveis. Contadora, Valdirene está afastada do trabalho.



Maria Lúcia Lopes,
50 anos

Cansada de esperar pelo resultado da investigação da polícia goiana, a mãe de Márcio Lopes, de 19 anos, foi sozinha em busca do filho em plena madrugada. Caminhou pelas ruas em volta de casa. Não pôde ir muito longe. A dona de casa tem problemas cardíacos e pressão alta. Uma irmã de Márcio levou a mãe de volta para casa. Para não sofrer com a dor do desaparecimento, diz passar os dias sob efeito de calmantes. Após investigação da polícia que revirou o quarto do jovem, ela arrumou a cama, a prateleira de tênis e de roupas. Para Márcio voltar a levar sua vida normalmente.

Esta matéria tem: (8) comentários

Autor: adão ribeiro
A Policia certamente está fazendo o possível, as investigações seguem, mas não é como pensam algumas pessoas, começar uma investigação sem pistas concretas não é fácil, ninguém sabe nada, a mobilização está forte, vai surgir alguma pista, pessoas não desaparecem assim do nada. | Denuncie |

Autor: Elisandra Silva
Se fosse filho de algum político, empresário ou qq outro que tivesse altos reais, certamente a atenção ao caso seria diferente, é revoltande não vê reação das autoridades. | Denuncie |

Autor: Elisandra Silva
é um descaso da polícia local, o que estão fazendo com essas famílias, querem esperar mais qto tempo para agir de fato, qto mais tempo passar mais difícil ficará. Que Deus abençoe cada uma dessas famílias e que tudo termine bem, conforme sua vontade. | Denuncie |

Autor: Isabel Guedes
O Ministério Público tem que fazer algo para ajudar essas famílias. Não consigo nem imaginar o que é a dor de não saber o que aconteceu com o filho! Vamos nos unir para pressionar a polícia! | Denuncie |

Autor: Genilson Maia
A PCGO tem um efetivo reduzidissimo, segundo o sidicato da categoria só para agentes são 1.600 vagas. O pior é que no ultimo concurso eles abriram 300 vagas, tem 600 excedentes que passaram em todas as provas e brigam na justiça para ser chamados. | Denuncie |

Autor: rosa besoain
Isto só acontece porque são pessoas pobres. Eu duvido se fosse ricas ou parentes de políticos, se isto aconteceria. O governo federal tem que dar um prazo para esta polícia resolver . Onde está o Ministério Público de Goiás? E o Judiciário? | Denuncie |

Autor: moacir da conceição
a depender do executivo local luziania nunca melhorará. é preciso intervenção do judiciário para acabar com aquela baderna do ginásio de esportes nos finais de semana | Denuncie |

Autor: moacir da conceição
Luziania era muito tranquila, mas por omissão das autoridades é hoje um dos lugares mais perigosos. passem nos finais de semana na área do ginásio de esportes e confiram. é carro com som na maior altura; é a juventude consumindo álcool e outras coisas; e as câmaras de segurança ? servem pra que? | Denuncie |

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