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SAÚDE

Planos de saúde perdem brasilienses

Em 2009, mais de 12 mil associados romperam contrato com as operadoras, que culpam a crise econômica. Para os clientes, o alto custo e a baixa cobertura desestimulam

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postado em 05/02/2010 08:49

Diego Amorim

As empresas de plano de saúde perderam clientes em 2009. O número de associados no Distrito Federal caiu de 668.446, em dezembro de 2008, para 655.578, no mesmo período do ano passado — uma diferença de 12.868. O recuo de 1,9% é considerado pequeno por representantes do setor, que culpam crise econômica mundial. Os dados fazem parte de um levantamento inédito divulgado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS).

No DF, 88% dos beneficiários têm plano de saúde coletivo, ou seja, vinculado a empresas. Nesses casos, houve menos quebra de contrato se comparado aos que tinham planos individuais. Mais homens do que mulheres decidiram deixar de pagar pelo direito de usar serviços médicos. As cooperativas de planos de saúde, responsáveis por 19% do mercado, foram as mais prejudicadas.

A queda mais acentuada ocorreu entre os que têm até 18 anos. No ano passado, um desentendimento(1) entre pediatras e operadoras de planos de saúde levou esses profissionais a deixarem de atender cerca de 80 convênios. “Não temos elementos para associar uma situação à outra. O problema pode ter feito alguns trocarem de plano, mas não acredito em cancelamentos por esse motivo”, opina José Marco Rezende de Andrade, um dos diretores da Sociedade Brasileira de Pediatria do DF (SBP-DF).

No país, o total de associados aumentou 3,6%. O desempenho no DF, na avaliação do superintendente executivo do IESS, José Cechin, se deve, principalmente, à diminuição no número de contratos referentes a crianças e jovens. “O emprego cresceu, a remuneração também. Então, a hipótese levantada é de que os pais decidiram diminuir despesas com medo da crise e começaram a cortar gastos pelas crianças, talvez por avaliarem que os planos estejam caros”, diz Cechin.

A elevada renda da população e o grande número de servidores públicos atraem as principais operadoras para Brasília. Os dados do IESS não ameaçam o potencial do mercado na cidade, mas podem sinalizar a insatisfação de clientes com os serviços prestados pelas empresas. A editora Elizabeth Lopes, 60 anos, diz que os planos viraram “apenas um quebra-galho”. O marido dela, funcionário de uma empresa de tecnologia, precisou fazer uma cirurgia no apêndice neste início de ano e a família teve que desembolsar cerca de R$ 10 mil com os procedimentos médicos. “É um negócio que não dá para entender: quando se precisa mesmo do plano, ele não ajuda”, reclama.

Rafael Ohana/CB/D.A Press
Autogestão

A modalidade de autogestão responde pela maioria dos contratos de planos de saúde no DF (34,8%). A liderança no mercado é consequência do caráter administrativo da capital. Esses planos costumam não receber tantas críticas. O servidor Evaldo Gomes Carneiro Filho, 58 anos, usa o Sistema Integrado de Saúde do Senado Federal (SIS) há 36 anos e diz não ter do que reclamar. “Nunca tive problema. O plano é aceito em todos os lugares onde preciso”, afirma. Todo os meses, cerca de R$ 500 são descontados do salário de Evaldo, valor que engloba o contrato da esposa e do filho.

O presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo Almeida, acredita que a perda de clientes será compensada este ano no DF e em outros lugares em que o mercado também recuou, como em São Paulo. “Foram quedas leves, reflexo da crise, mas a recuperação da economia vai reverter esse quadro”, prevê. O temor de Almeida é que as operadoras passem a cobrar preços cada vez mais altos e, aí sim, espantem clientes. Atualmente, os planos básicos variam entre R$ 110 e R$ 180. “A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) tem exigido muito das operadoras. E é claro que há um custo para atender a essas exigências”, alerta.

No ano passado, a professora aposentada da Secretaria de Educação do DF Marlene César Damaceno, 67 anos, contratou e descontratou dois planos de saúde. Em um deles, cobraram dela quase R$ 600 por mês pelos serviços oferecidos. A professora tem direito ao benefício pelo governo local, mas queria uma segunda opção. Ao ser informada dos preços, desistiu da ideia. “Essas empresas só têm nome e lábia. A gente paga uma fortuna, enriquece os donos, mas quando precisa do atendimento, chega na porta do hospital e ninguém aceita o plano”, diz.

A queda do total de associados não preocupa o presidente da Associação dos Médicos de Hospitais Privados do DF (AMHP-DF), Joaquim de Oliveira. Ele sustenta que o problema maior está mesmo em saber até quando os planos conseguirão oferecer uma cobertura desejada pelos clientes por valores toleráveis. “Se não houver um controle maior para reduzir custos, a situação vai complicar. A saúde suplementar está cada vez mais cara e é preciso entender que as operadoras são empresas de mercado e precisam ganhar dinheiro como qualquer outra”, comenta.

1 - Boicote
Com o argumento de que manter os serviços ficou insustentável por conta da baixa remuneração repassada pelos planos de saúde, pediatras rescindiram contratos com operadoras. A medida tumultuou emergências e forçou uma série de negociações para pôr fim ao boicote.

Rafael Ohana/CB/D.A Press
Serviço odontológico tem expansão de 47,8%

No caso dos planos odontológicos, o número de beneficiários cresceu 47,8% no DF entre dezembro de 2008 e o mesmo período de 2009. O crescimento nacional foi de 18,2%. Segundo o levantamento do IESS, 425 mil pessoas pagam pelo direito de usar os serviços de saúde bucal na capital do país. Dessas, 91% integram planos coletivos. A maioria dos contratantes — 69% — tem entre 19 e 58 anos.

O presidente da Associação Brasileira de Odontologia do DF (ABO-DF), Marcelo Negreiros, avalia que o contigente de servidores públicos e os preços acessíveis justificam a ampliação do mercado. Ele lembra, porém, que os planos cobrem geralmente apenas procedimentos básicos. “Nem todos os profissionais aceitam os convênios porque reclamam dos valores repassados pelas empresas. Muitos clientes descobrem isso, se decepcionam e acabam cancelando contratos”, comenta.

A mensalidade de um plano odontológico costuma não custar mais que R$ 20. Na opinião do superintendente executivo do IESS, José Cechin, o aumento da concorrência no setor deve aumentar os valores no segundo semestre deste ano em todo o país. “As operadoras estão buscando expandir os planos, o que pode encarecer muito os serviços”, explica.

O número
425 mil
Total de pessoas que pagam plano de saúde bucal no Distrito Federal

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