Um inseto aparentemente inofensivo alastra uma grave doença pelo Distrito Federal. Uma simples picada multiplica o número de infectados. Trata-se da dengue, doença que não escolhe raça, cor ou nível social. O aumento no total de casos é alarmante em todo o DF. O número cresceu 607,9%, se relacionado ao ano passado, segundo a Secretaria de Saúde. Desde janeiro último, pelo menos 3.681 pessoas ficaram sob a suspeita de terem contraído dengue, segundo a Gerência de Doenças Crônicas e outros Agravos Transmissíveis da Subsecretaria de Vigilância à Saúde da Secretaria de Saúde do DF. Dessas, 1.541 tiveram a confirmação por meio de exames. Pelo menos dois não sobreviveram aos fortes sintomas.
Cuidados básicos, como manter o quintal de casa limpo, sem entulhos que possam acumular água da chuva, são esquecidos por grande parte da população. A negligência, no entanto, pode levar à morte. O Correio ouviu seis brasilienses que sofreram drasticamente com os males da dengue, desde o começo deste ano. Após cerca de 10 dias lutando contra a doença, todos foram unânimes ao dizer que modificaram completamente a rotina em prol de colaborar para a não proliferação da doença. As diferentes histórias também compartilham o medo de um novo contágio.
A partir de amanhã, 100 militares do Exército, 50 da Aeronáutica e 50 da Marinha começam o treinamento para que possam reforçar o combate à dengue em todo o Distrito Federal. A preparação inclui oito horas de aulas teóricas durante a quarta-feira, além de dois dias — quinta e sexta-feira — de treinamento prático. Nessa segunda etapa, a aprendizagem será em campo, com os agentes da Vigilância Ambiental.
A experiência de cada umDoente na virada do ano» Merian Iwakami de Assis, 22 anos, estudanteA sensação de mal-estar logo após a virada do ano intrigou Merian Iwakami de Assis, 22 anos. No primeiro dia de 2010, uma semana após seu casamento, a estudante começou a sentir náuseas e dores nas costas, e percebeu que manchas vermelhas apareciam espalhadas por todo o corpo. O primeiro pensamento era de que tinha ingerido comida estragada na passagem do ano. Logo procurou o posto de saúde da Vila Planalto, onde recebeu o diagnóstico de que estava com intoxicação alimentar. Os medicamentos foram receitados. Mas, por sorte, ela não chegou a tomá-los. Os sintomas de dengue ficaram mais evidentes e a mãe dela percebeu que se tratava da doença. Meriam voltou ao posto de saúde. Os médicos perceberam que a jovem realmente havia sido contaminada pelo Aedes aegypti. “Eu estava com febre muito alta e tinha medo de ter convulsão”, contou. Recém-curada, os medos de Merian agora são para proteger a filha Sarah, de apenas 2 anos. “Em casa, na hora de dormir, coloco uma tela sobre a cama dela para que os mosquitos não a piquem”. Mas, durante o dia, a estudante precisa driblar a falta de cuidados de vizinhos, que insistem em deixar lixo em lotes abandonados na Vila Planalto.
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Pânico de um novo contágio» Joaquim Henrique Chaves dos Santos, 23 anos, caseiroOs zumbidos no quarto escuro durante a noite logo causam desespero em Joaquim Henrique Chaves dos Santos, 23 anos. A ameaça de poder ser outro mosquito da dengue lhe tira o sono. Era sexta-feira de carnaval, quando o caseiro de uma mansão no Lago Sul começou a sentir os sintomas da doença. Joaquim acredita ter sido contaminado poucos dias depois que o patrão, Adriano Ricci. Ambos tiveram o mesmo diagnóstico. Na rua onde trabalha, a dengue fez vítimas em praticamente todas as casas. Pelo menos uma pessoa de cada endereço teve a suspeita do contágio da doença. Números que mudaram definitivamente a rotina dos moradores. Piscinas ganharam tratamento adequado. Dentro de casa foram instalados aparelhos que, ligados a tomadas, espantam os insistentes mosquitos. Na pele, uso constante de repelentes a fim de evitar que o contágio se repita. “Tenho muito medo de pegar de novo. Dengue mata”, lembrou o mineiro de Arinos. Para conseguir dormir, Joaquim precisa antes baforar veneno para espantar os mosquitos do quarto. “Fiz questão de pegar este aqui para conferir se era o mosquito da dengue”, disse, mostrando o inseto no pequeno pote.
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Gosto de sangue na boca» Aldenira Ferreira de Sousa, 31 anos, empregada domésticaEla sofre toda vez que precisa percorrer algum trajeto de ônibus. As náuseas e vertigens — antes nunca sentidas — são resquícios deixados pela dengue. Desde que contraiu a doença, a saúde de Aldenira Ferreira de Sousa, 31 anos, está debilitada. As manchas continuam a marcar sua perna e os enjoos aparecem sempre que ela utiliza o sistema de transporte público. No início deste ano, os patrões de Aldenira viajaram de férias por 20 dias e ela ficou sozinha no Lago Sul. Em uma das noites, a doméstica percebeu que o corpo ardia de febre. “A febre não baixava, era mais de 40ºC”, contou. Preocupada e sem os patrões médicos em casa, Aldenina correu para o Hospital Regional do Paranoá. Devido às semelhanças nos sintomas, os médicos receitaram remédios para gripe. “Eu tomei quatro e comecei a sentir um estranho gosto de sangue na boca. Retornei ao pronto-socorro e disseram que se tivesse continuado com as dosagens dos medicamentos poderia ter morrido.” Além de estar com dengue, os remédios receitados para gripe eram contraindicados para pessoas que sofrem de úlcera, caso de Aldenira. Curada, após 12 dias de repouso, a doméstica redobrou os cuidados com a casa. “Se todo mundo fizesse a sua parte, acabaríamos com a dengue.”
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Repelente sempre à mão» Ana Maria Miyamoto, 42 anos, servidora públicaApós uma semana sem conseguir se levantar da cama, a servidora pública Ana Maria Miyamoto, 42 anos, mudou sua rotina. Moradora do Lago Sul, ela adotou o uso diário de repelentes de pele, de tomada e dos inseticidas em spray, aplicados em todos os cômodos da casa. “Repelente virou algo diário, como tomar banho”, explica. A servidora não foi a única a ser vítima da dengue em sua casa. O filho dela, 7, e a secretária da residência também contraíram a doença. A grande preocupação da família, agora, é com a filha mais nova de Ana, que tem apenas um ano e meio. “Ela só usa calça comprida quando está em casa, mesmo nos dias mais quentes”, afirma. O marido de Ana, o também servidor público André de Oliveira Costa, 42, comprou um estoque de repelentes e a família redobrou os cuidados com as plantas e outros recipientes. Segundo Ana Maria, o sintoma da doença que mais incomoda é a prostração. A servidora relata que ia ao banheiro por obrigação e não saía do quarto sequer para comer. No período em que ficou com dengue, o marido teve que deixar de trabalhar para manter a casa em funcionamento e levar as crianças à escola.
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Parte das férias de cama» Andreia Dias, 19 anos, universitáriaAndreia Dias já havia ouvido a irmã Camila, 22 anos, reclamar de uma gripe mal curada — como diagnosticou o médico — quando ela mesma e sua mãe Sueli Aparecida, 40, também começaram a apresentar os mesmos sintomas. “Senti muita dor no corpo, mal-estar e dor nos olhos. Também sentia um grande cansaço, não tinha vontade fazer nada”, lembra a universitária. A família tinha passado as férias na Bahia e considerou que poderia ter pegado a doença na região. A perspectiva, no entanto, mudou quando o trio descobriu que várias pessoas em sua rua, no Lago Sul, também estavam com dengue. “Como parece que tem um foco aqui perto, agora temos quase certeza que pegamos por aqui mesmo”, avalia a jovem. A procuradora-federal, mãe das jovens, foi a que mais sofreu com a virose. “Ela ficou de cama umas duas semanas”, conta Andreia. As duas irmãs universitárias aproveitaram o resto do período de férias para se recuperar da enfermidade. A fim de evitar uma segunda infecção pelo vírus, elas agora recorrem ao repelente. “Também estamos mais atentos à água parada em casa”, revela Andreia Dias.
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Indisposição e falta de apetite» Adriano Ricci, executivo, 43 anosEle não acreditava que a dengue chegaria a sua casa no Lago Sul, mas foi surpreendido, em pleno domingo, pelos sintomas da doença. “Eu tive uma febre muito alta, dores na cabeça e no corpo. Na segunda-feira, a minha mulher me lembrou que poderia ser dengue”, conta o executivo Adriano Ricci. Apenas no sexto dia de manifestação dos sintomas, ele teve certeza de que estava com a doença. “O que mais me incomodou foi que você fica quase que incapacitado. É uma dor generalizada, nas juntas e na cabeça, principalmente, e um apetite reduzido”, disse. A virose trouxe mudanças para o dia a dia da família. Hoje não são só os três filhos de Ricci — de 9, 16 e 17 anos — que usam, diariamente, repelentes. “Nós também oferecemos para as visitas”, revela. Além disso, toda a casa passou por um tratamento com veneno, bem como o terreno abandonado que fica ao lado da residência. As bromélias do jardim, por sua vez, foram avaliadas por agentes ambientais e todos os cômodos da casa ganharam aparelhos de repelente que ficam ligados 24 horas à tomada. “Cuidados redobrados, até porque não queremos uma reincidência ainda mais perigosa”, ressalta Ricci.
Esta matéria tem: (1) comentários
Autor: Carioca dc
Esses médicos que trabalham em hospitais públicos, não são bem preparados. Não tratam bem a quem os procuram, não sabem distinguir uma gripe de uma dengue, etc.Todos sabem, que pacientes com dengue, não podem receber algúns tipos de remédios. Coitado de quem precisa usar esses hospitais do governo. | Denuncie |