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| Desde que chegou, Dona Florinda se dedica ao melhoramento do solo e ao cultivo de flores: marca registrada dos japoneses, o bom trato dá frutos |
Dona Florinda é um pouco maior que uma roseira, porém mais forte que uma vitória-régia. Na certidão de nascimento, ela se chama Take Yabushita Ofugi, e Take quer dizer bambu. O nome em português nasceu de seu envolvimento com as flores. Dona Florinda é viúva do primeiro japonês a vir domar a acidez da terra a convite de Juscelino Kubitschek. O marido veio primeiro que ela, em 1956. Ichizo Kazumi Ofugi, que os brasileiros chamavam de João, trouxe a família dois anos depois. Desde então, os Ofugi moram na mesma chácara, no Núcleo Bandeirante.
Quem chega à casa de dona Florinda pode não vê-la. É bastante provável que ela esteja misturada às centenas de mudas de flores e ervas medicinais que continua cultivando, aos 92 anos, dez depois de ter deixado a banca na Feira Permanente do Núcleo Bandeirante, a feirinha do coração da cidade. A casa de madeira ainda está lá, guardada como lembrança, mas dona Florinda não deixa que ela seja fotografada. “Está feia”, ela diz, em seu português que se parece com o de uma criança aprendendo a falar.
É ela quem faz a própria comida, cuida da casa e das plantas. Quando algum filho sugere que contrate uma ajudante, ela diz que não quer ficar vigiando ninguém. “Não gosto mandar empregada, empregada fica mole.” Quando não se encontra com as plantas ou cuidando da casa, dona Florinda está diante da televisão, assistindo ao canal japonês da tevê por assinatura. Desde que veio para o Brasil, aos nove anos, nunca mais voltou ao Japão, nem pensa em voltar. “Vai lá, lembra tanta coisa, fica triste. Ir [ao] Japão é buscar tristeza”.
Começou assim a história da vinda da família Ofugi para Brasília: seu João morava em Goiânia com a família. Trabalhava no comércio de gado e de verdura e, jogador de turfe, frequentava o Jóquei Clube da cidade. Foi assim que conheceu os políticos importantes do estado na década de 50. E passou a se interessar pelo projeto mudancista. Conta o filho, Kazuo, que o pai esteve na região quando o marechal José Pessoa estudava a demarcação dos limites do Distrito Federal.
Primeiros contatos
O gosto pelo turfe levou seu João ao contato com o governador Juca Ludovico e daí ao encontro com o presidente da Novacap, Israel Pinheiro, que foi a Goiânia convidar a colônia japonesa lá instalada para vir aplacar a aridez da terra vermelha. Vem daí a lenda segundo a qual alguém teria reclamado da esterilidade do solo de Brasília, ao que Israel reagiu: “Foi pra isso que trouxemos os japoneses”.
Dona Florinda enfrentou a má-vontade da terra do cerrado com a seguinte fórmula: plantou mamona (de fácil desenvolvimento nesta região) e esperou que as folhas caíssem para que, apodrecidas, adubassem o solo. Também misturava à terra cinzas de madeira, de gravetos e de folhas secas. “Nunca comprei adubo”, conta a japonesa de nome que no latim significa florescente. Até hoje, ela vende ervas medicinais para quem bate no seu portão. Mas já não precisa mais trabalhar na feira. “Meu filho traz meu dinheirinho mensal”, diz dona Florinda (ela adora um diminutivo), referindo-se à aposentadoria.
“Felicidade não precisa muito dinheiro”, diz a dona das flores. Mas é necessário algum para dar conta das necessidades básicas. “Não gasto à toa. Tenho reserva no banco para caso filho precisar. Se adoece, pode gastar [o] da mamãe”. Dona Florinda pensa o tempo inteiro na família, nos filhos e netos, mesmo que eles estejam bem encaminhados. Dois deles moram na chácara, em casas próximas à da mãe. Dona Florinda diz que não tem medo da morte, mas que quer viver pelo menos mais dez anos para cuidar do neto que mora com ela.
Contando com o fato de que ela trabalha até hoje, lá se vão mais de 80 anos de atividade pesada. Desde menina, Take trabalhava na lavoura, ajudando a mãe, uma japonesa que se casou quatro vezes. O primeiro casamento não deu certo e os outros três maridos morreram. Depois de tanto desgosto, a mãe de Florinda decidiu vir para o Brasil, na década de 1930. Aqui, no interior de São Paulo, ela escolheu o marido da filha caçula. “Vi marido uma vez só e casei”. Todos os cinco filhos já haviam nascido quando João Ofugi veio fundar a Cooperativa Mista Agrícola de Brasília, com outras 16 famílias nipônicas.
Lembranças
Do tempo da construção, dona Florinda tem uma memória auditiva: “Era noite e dia fazendo pan-pan-pan [faz o gesto de martelo batendo na parede], fazendo casinha. Uma noite faz casinha, noutro dia tem vizinho”, diz ela, reproduzindo o ritmo frenético das obras da nova capital. Enquanto o marido cuidava da cooperativa, ela construía cômodos de madeira ao lado da casa para “dar pensão”. Alugava os quartos e servia almoço e jantar para os candangos. Depois, começou a plantar angélicas e lírios e montou a primeira floricultura de Brasília, na Cidade Livre.
A utopia, porém, cobrou caro da família de João Ofugi. A cooperativa rendeu mais trabalho (de desbravação e de preparo da terra) do que lucro. João cuidava da colônia nipônica e Florinda, dos filhos e de uma renda extra para ajudar no orçamento doméstico. Até que uma tragédia deixou os Ofugi atordoados: quando seguia para Jataí (Goiás), com o objetivo de comprar madeira para construir o templo budista da 115/116 Sul, João sofreu um acidente de carro e morreu. Dona Florinda teve de assumir a responsabilidade pela família. E utilizou, para isso, a chácara do Bandeirante e a banca na feira, na qual vendeu hortaliças até dez anos atrás.
A balança de metal e a bandeja estão na varanda de dona Florinda. Ao lado, as ferramentas. Adiante, as embalagens de leite e suco que ela lava, corta uma das extremidades e transforma em vasos para mudas. E dentro de uma caixa de papelão, o chapéu e o lenço de estopa, que ela usa para enfrentar os mosquitos e se envolver com as flores.
Acompanhe a série de reportagens 50 bravos candangos no site do Correio
Esta matéria tem: (4) comentários
Autor: Alessandro De Castro
Coloco-me a disposição para aprender a cultura japonesa, qual família japonesa vai colocar-se a disposição... | Denuncie |
Autor: Alessandro De Castro
Parabéns a toda Colônia Japonesa, o Brasil está de braços abertos para vocês, que venha milhares de japoneses para a nossa Pátria. Vocês são exemplo de superação, luta, garra, persitência, dedicação, admiro muito a cultura de vocês, coloco-me a dsiposição para aprendê-la, qual família japaonsesa quer | Denuncie |
Autor: Francisco silva
Eita japoneza da peste nun bom centido | Denuncie |
Autor: CLÃUDIO SILVA
Que senhora gerreira, desde criança que vejo ela no NB, sempre sorrindo, admiro a cultura japoneza, exemplo de vida para nós, PARABENS DONA FLORINDA QUE DEUS A MANTENHA COM MUITA SAÚDE. CLÁUDIO | Denuncie |