Uma data para romper o silêncio e a inércia diante da violência sexual contra crianças e adolescentes. Entidades governamentais e representantes da sociedade civil se unem hoje — 18 de maio — para discutir e alertar sobre esse crime hediondo que só em 2009 resultou em 425 denúncias na Polícia Civil do Distrito Federal. A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) faz hoje o relançamento do Plano Distrital de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, elaborado em 2005, mas que, até então, só existiu no papel.
A proposta não contempla orçamento, fundamental para o desenvolvimento dos projetos existentes. O plano será um instrumento de mobilização da sociedade civil, Justiça, Ministério Público e outros órgãos governamentais. “O grande avanço está na criação de um fluxo de atendimento que começa com a denúncia feita por qualquer pessoa da comunidade em que a vítima mora até a responsabilização do agressor”, resume Valéria de Sousa Lima, gerente de Proteção Especial de Média Complexidade da Sedest.
PrêmioPara premiar iniciativas de sucesso no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República lança hoje, no Salão Negro do Ministério da Justiça, o Prêmio Neide Castanha, considerada um dos ícones da luta nesta área. Alunos da Universidade Católica de Taguatinga e o Sindicato do Comércio Atacadista do Distrito Federal (Sindiatacadista) também se mobilizaram.
Na Universidade Católica haverá apresentação do grupo de percussão do Projeto Giração — composto por meninos e meninas de rua do DF — e distribuição de panfletos. A intenção é alertar os estudantes sobre o problema e incentivar as denúncias. Os funcionários da Comercial Alvorada, um dos maiores atacadistas do DF, vão entregar panfletos informativos para os clientes. O Sindiatacadista faz parte do projeto Na Mão Certa, da Childhood Brasil (Instituto WCF) e incentiva ações de conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual de meninos e meninas.
Reportagem publicada pelo Correio no último domingo revela que 60% das denúncias de exploração nem sequer viram processos criminais. O Estado também falha porque não investe nas estruturas de prevenção e apoio às famílias. Um dos exemplos do descaso está nos conselhos tutelares. A criação do protocolo de atendimento da Sedest deverá unificar as ações dos poucos projetos existentes na capital. “Se tivemos todos os atores públicos e a sociedade civil envolvidos evitaremos a revitimização”. Quantos aos recursos para ampliar e melhorar o atendimento às vítimas, caberá a cada secretaria se programar para ter o orçamento disponível para garantir os direitos constitucionais das crianças e dos adolescentes.
DIA DE COMBATE» O Dia Nacional de Luta Contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes — 18 de maio, foi criado pela Lei Federal n° 9.970/00. A escolha da data se deu devido à morte da menina Araceli Sanches, 8 anos, raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada por jovens de classe média alta de Vitória, no Espírito Santo, nesse dia em 1973. O crime, apesar de sua natureza hedionda prescreveu impune.
ArtigoDesafio civilizatórioA violência sexual contra crianças e adolescentes é uma violação de direitos, uma transgressão, uma relação de poder perversa e desestruturante da vida da vítima e que acontece numa relação de poder do mais forte, com o objetivo de satisfazer o desejo sexual deste último. A criança é (ab)usada para satisfação de alguém que a domine, envolvendo ameaças e sedução para que seja mantido o segredo da violação.
O abuso acontece nas situações de maior proximidade, pois o agressor se utiliza de uma relação de confiança e proteção que mantém com uma enteada, uma filha, um filho, uma irmã, um irmão, onde criança lhe é mais acessível. A criança vitimizada manifesta comportamentos sexuais inadequados à sua idade, ou mesmo expressa verbalmente esse fato, mas o medo da revelação da presença de um abusador próximo ou da perda de um provedor pela possível prisão, paralisa a denúncia e ainda torna a criança mentirosa.
O abusador, muitas vezes foi vítima de violência física, autoritarismo, humilhação e teve seu narcisismo ferido ou não teve apoio e proteção de parte da família ou das políticas públicas, como a escolarização adequada. O abuso provoca sofrimento, traumas, perturbações na sexualidade das vítimas e em sua saúde mental ou lesões de gravidade variada.
O enfrentamento da questão passa pela denúncia e pela revelação do abuso, seja para colegas, familiares, professores, devendo-se acionar os órgãos de atendimento à vítima e responsabilização do agressor, como os serviços de saúde, o Ligue 100 (que recebe denúncias nacionalmente), o Conselho Tutelar, o Ministério Público ou a Delegacia de Polícia, pois trata-se de um crime. A prevenção desse tipo de violência implica o diálogo aberto com criança, incentivando-a a falar sobre qualquer molestamento que venha a sofrer, estabelecendo-se regras de respeito e dignidade em todas as relações familiares e sociais como um processo civilizatório de aderência e respeito aos direitos humanos e às leis de defesa desses direitos.
» Vicente de Paula Faleiros, coordenador do Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes e professor
Esta matéria tem: (1) comentários
Autor: Hildo Evaristo
Criança - filhos - a essência da razão do amor. Até CASCAVEL protege os seus filhotes... quando tratado de ser humano que os abandona, não pode ser chamado de gente, mas de verme. Desculpe os vermes pela comparação. | Denuncie |