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| Dante Bresolin: acima, no momento em que soube da aprovação no vestibular |
Aos 65 anos, Dante Bresolin virou calouro. Em setembro, se até lá a greve dos funcionários da Universidade de Brasília (UnB) deixar, ele entrará de caderninho novo e se sentará perto do quadro-negro. Ele gosta de prestar atenção às aulas. Ao lado dele, rapazes e moças, uma garotada esperta que acabou de terminar o ensino médio — gente que mora com os pais, usa laptop, internet adoidado, Facebook e todo esse mundo digital. Ele — de cabelos branquinhos (o pouco que restou), caneta e papel e uma vontade quase adolescente de continuar descobrindo — também estará lá. Igualzinho aos moços e às moças supermodernos.
Este homem, aprovado no segundo vestibular da UnB, é um doutor em proporcionalidade facial. O quê? Sim, desses com PHD e tudo. Ele é dentista, com mestrado em ortodontia pela University of Washington, em Seattle, EUA, e doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há 40 anos, dedica-se a estudar e a tratar a função e a estética dentária e facial dos seus pacientes.
Ele é professor titular no mesmo lugar em que irá virar calouro. E está com o coração batendo apressado de felicidade pela conquista. “Este é o terceiro vestibular que tentava. Agora, passei. Quase não acreditei quando vi meu nome na lista”, festeja, como se fosse um menino de 18 anos. No dia do resultado, na quarta-feira à tarde, o calouro de 65 anos levou ovos e farinha na cabeça. Ficou imprestável. Parecia menino que tinha brigado na rua.
Nem a mulher, que o acompanhava no dia do resultado, escapou. “Levei tanta ovada que até doeu, mas não liguei, não. Tava feliz pela vitória dele. Eu sei como ele quis entrar nesse curso”, comemora a dona de casa Rosa Maria Fabrino Bresolin, 61 anos, sua grande e fiel torcedora.
“O engraçado é que os rapazes me perguntavam, educadamente: ‘A gente pode jogar farinha na cabeça do senhor?’. Eu dizia que sim e eles foram jogando. Virei um deles. E chorei muito, junto com minha mulher e minhas filhas”, emociona-se o calouro-doutor — um homem miudinho, de calça de tecido preta, camisa salmão de mangas curtas, andar compassado, fala pequena com sotaque gaúcho e uma simplicidade quase comovente. Muito diferente da arrogância e onipotência de grande parte dessa gente que ostenta PHD. O doutor Dante é, de fato, um doutor. E doutor se reconhece. Nunca se impõe.
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| "O que dá sentido é a realização. Ser produtivo. A gente pensa que sabe, mas nunca sabe tudo. Tá sempre aprendendo" |
É esse homem que fará parte da terceira turma do novíssimo curso de museologia da UnB. Estudar museus e suas histórias, para entender o presente, era sonho que acalentava havia anos. Ele sempre gostou da estética das coisas, das formas. Não foi à toa que escolheu, dentro da odontologia, a especialidade que cuida da estética e da harmonia da face e dos dentes alheios. Faz gente se sentir gente. No seu consultório, no Setor Comercial Sul, muitas vezes a cadeira virou divã. Dante é doutor não somente por ter PHD. É doutor porque gosta de ouvir gente.
E vem de longe a observação do menino que se encantava com o mundo, suas descobertas e suas gentes. Lá na gaúcha Ijuí, entre Cruz Alta e Santo Ângelo, o filho de um jornalista e de uma dona de casa cresceu acreditando que podia mudar o mundo. Em 1962, mudou-se para uma cidade maior, Santa Maria. Terminou o científico. Depois, aos 17 anos, foi servir o Exército, em Porto Alegre. Ficou apenas um ano. Sabia que ali não estava sua vocação.
CinemaVeio o ano do vestibular. O rapaz miudinho fez um teste vocacional para saber qual seria sua real aptidão. O pai jornalista queria que o filho mais velho fizesse direito. “Nem a psicóloga soube interpretar. Aí, eu disse pra ela que seria dentista. Ela tava tão perdida que concordou”, ele ri.
E por que, afinal, Dante teria escolhido ser dentista? De uma forma sensacional, ele responde: “Quando eu era criança, em Ijuí, em frente à minha casa, morava um dentista. O consultório dele era numa salinha dentro de casa. Toda tarde, por volta das seis horas, ele fechava a portinha do consultório, se arrumava, pegava a mulher e saía para o cinema. Eles iam todas as noites. Aí, eu pensei: ‘Deve ser muito bom ser dentista. Ninguém consegue ir ao cinema todos os dias... Só um dentista’. Resolvi ali”.
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| "Preciso me atualizar. Serei o avô da turma. Vou comprar um laptop e um celular, que nunca usei" |
Bons tempos, aqueles em que o dentista podia ir todo dia ao cinema. Hoje, depois de 27 anos como professor da UnB, o doutor em ortodontia ganha menos de R$ 4 mil por mês e tem uma sala acanhadíssima no departamento. Nem computador há. No lugar dele, uma máquina manual. Sobrevive graças ao seu consultório particular. “É por isso que nunca parei de trabalhar. Fui pai aos 40 anos, tenho três filhas que ainda precisam muito de mim”, diz.
Voltemos a Porto Alegte de meados de 1960. O rapaz, então, prestou vestibular para odontologia. Fez as provas na própria capital gaúcha e em Diamantina (MG). Passou em ambas as universidades federais. Preferiu a cidade mineira. “Naquela época, os melhores professores do país estavam lá. Não tive dúvida”, conta.
Aos 24 anos, em 1969, o rapaz miudinho se formou. Em Diamantina, conheceu Rosa Maria, sua mulher. Enquanto não arrumava um emprego em sua área, conseguiu um estágio em antropologia física, no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, ligado à UFRJ. “Ali, decidi fazer minha dissertação de mestrado sobre considerações antropológicas em ortodontia.” Em dezembro de 1972, Dante tornou-se o terceiro mestre em odontologia do país.
Aluno outra vezE chegou a Brasília, para tentar a vida naquilo que havia escolhido. Em 1973, abriu seu consultório no SCS. Até hoje está no mesmo endereço. Em 1978, começou a dar aula de ortodontia numa faculdade em Anápolis(GO). Em Brasília, ainda havia o curso de odontologia. E assim a vida seguiu: consultório e a estrada que liga Brasília a Anápolis.
Veio o segundo mestrado, desta vez nos Estados Unidos. Em 1983, o convite, pela excelência do currículo, para ensinar na UnB. E de lá pra cá, todos os dentistas formados naquela instituição foram alunos dele. Em 1995, o doutorado, no Rio de Janeiro. E o trabalho no consultório, sem faltar uma semana nem desmarcar paciente.
Daqui a cinco anos, aos 70, se não sair antes, ele será convidado a deixar a sala de aula. É a aposentadoria compulsória. “E eu adoro a vida acadêmica, essa agitação, o engajamento”, diz, comovido, quando, nesse momento da entrevista, residentes de medicina invadem a Faculdade de Saúde, com banda de música e apitos, protestando por melhor remuneração e pela reforma do pronto-socorro do Hospital Universitário de Brasília (HUB).
Dante tentará conciliar a vida de professor, de dentista e de aluno-calouro. “Vou me virar. Se não puder mais dar aula daqui a cinco anos, com a compulsória, ser apenas aluno. Tentei o vestibular pra museologia três vezes. Não estudei. As disciplinas da área de humanas sempre gostei. Leio muito, sobre todas as coisas. Acho que fiz uma redação razoável. Mas há mais de 40 anos não via nada de matemática, física e química. Não passei nas outras duas vezes porque ainda não tinha aprendido o macete das provas. Acho que agora aprendi”, diz.
Planos do calouro? “Preciso me atualizar. Serei o avô da turma. Vou comprar um laptop e um celular, que nunca usei. Minha mulher tem; eu, não”, diz. E lembra: “Hoje, nas minhas aulas, mal vejo a cara dos meus alunos. Eles estão sempre com seus laptops ligados”.
E depois de formado em museologia, aos 70 anos? “Se tiver uma chance, vou exercer a profissão. Existem museus particulares, instituições. Alguma coisa vou saber fazer. Só não posso mais prestar concurso público pra nada, né?”
Em setembro, o doutor Dante, o calouro mais idoso deste vestibular, entrará numa sala de aula do curso de museologia. Prestará atenção às aulas, como se fosse o primeiro dia. Talvez o sentido de vida seja sempre esse mesmo: recomeçar, sempre. E ele sabe disso: “O que dá sentido é a realização. Ser produtivo. A gente pensa que sabe, mas nunca sabe tudo. Tá sempre aprendendo. Acho que ainda não cumpri o que desejo. Quero ter um endereço de trabalho enquanto força tiver...”.
O doutor (desses que têm PHD, não ostentam nem fazem disso o cartão de visita — uma raridade) virou calouro. E só pensa em comprar o primeiro caderno para escrever a primeira aula. Humildade é para poucos.
Esta matéria tem: (30) comentários
Autor: Rogério
Parabéns ao prof. Dante e não-parabéns à UnB. É certo socialmente uma universidade pública (sustentada pelos impostos de todos) financiar a 2ª graduação de um homem bem sucedido enquanto há muitos jovens que não têm a 1ª graduação? Prof. o sr. é exemplo de vida, mas a UnB precisa ser repensada! | Denuncie |
Autor: Maria de Fátima Bresolin
Oi, Dantão! Parabens!!! Mais uma vez voce provou que com força de vontade e determinação conseguimos mudar nossas vidas e o mundo. Estamos orgulhosos! Beijos | Denuncie |
Autor: Tatiana Brig
Tio, parabens! Estamos muito felizes e super orgulhosos aqui do outro lado do mundo! Vou imprimir esta materia pra mostrar pro Jake quando ele estiver na idade de entender. Tenho certeza de que nao so sera uma inspiracao mas o fara pensar bastante antes de reclamar que esta cansado de estudar!:-) | Denuncie |
Autor: evaldo moura
mais uma excelente materia do marcelo abreu . | Denuncie |
Autor: marina grande
Querido Dr. Dante - adorei essa notícia! Lembro com carinho de toda a sua atenção comigo quando coloquei aparelho. Desejo muito sucesso no seu curso. Moro em SP com marido e 2 filhas. A mais velha (6 anos) já está com aparelho removível noturno. Abs, Marina Netto Grande | Denuncie |
Autor: marta souza
Um doutor desse, cheio de experiência profissional e de vida... Parabéns. Estudou e estuda a vida toda para ganhar menos de 4 mil reais. Isso é um absurdo. Parabéns mestre, continue assim, pois és um exelente exemplo para os jovens. | Denuncie |
Autor: Bela Silva
Nossa! Emoção é pouco para dizer o que o DR.Dante está passando.Meus PARABÉNS e muito boa sorte. | Denuncie |
Autor: luiz ricardo
E tem gente que passa em concursos de quinta categoria e pensam que sao os donos da verdade. %u201CO que dá sentido é a realização. Ser produtivo. A gente pensa que sabe, mas nunca sabe tudo" isso é o mais bonito disso tudo. Parabens velhinho. | Denuncie |
Autor: Maria Gabriela Morais
Parabéns professor Dante! Uma grande inspiração! Felicidades no seu novo curso e obrigada! | Denuncie |
Autor: Joyce Gurgel
Emocionante! Lição de vida e exemplo a ser seguidos por nós, jovens. Academica de Turismo - FACITEC | Denuncie |
Autor: ROGERIO CRUZ
Parabéns sr. Dante! mostra pra essa juventude como é que se faz.Arrocha! | Denuncie |
Autor: Gustavo Oliveira
Doutor se reconhece. Nunca se impõe,juntamente com sua humildade e vontade que te fez chegar longe.Sorte e ,pricipalmente,felicidades nessa sua nova etapa! | Denuncie |
Autor: Celia Figueiredo
Tem muita gente que não sabe realmente o que diz,o Curso é concorrido,existe vários jovens fazendo cursinho e que não conseguiram passar para o Curso. Pobre de espírito e de conhecimento essa criatura,concordo que é inveja. | Denuncie |
Autor: leandro ferreira
Que bela notícia! Com toda certeza um exemplo de disposição, a materialização daquele velho - e sábio - ditado "nunca é tarde para sonhar". Parabéns Calouro-Doutor-Professor Dante. | Denuncie |
Autor: Sebastiao Rocha
O Iluminado. Esta nova turma, já começa em vantagem, caso siga a experiência deste jovem aluno. | Denuncie |
Autor: Carlos Guimarães
Parabéns Professor Dante por mais esta conquista! O Professor tem que ser exemplo e agora o senhor mostrou que é um guerreiro! Seu Ex-aluno e agora também Professor Carlos Henrique | Denuncie |
Autor: Najla Melo
Dr. Dante, parabéns! Colega de universidade e da Faculdade de Ciência da Informação, bem-vindo! Sou bibliotecária, estou concluindo o curso de letras e também sonho em cursar museologia. Pode me aguardar, esse curso é lindo! | Denuncie |
Autor: jose barros
Pra um curso desses até meu avô passaria. concorrencia deve ser de 0,5 por vaga. | Denuncie |
Autor: Paulo Vantis Vantis
Parabéns!!! \o/ | Denuncie |
Autor: Gustavo Macedo
Parabéns ao Dr. Dante, um exemplo em meio a tantos professores-doutores arrogantes. Rosa, um abração! Saudades do tempo de Coro Masculino e Coro Feminino... | Denuncie |
Autor: Miguel Almeida
Isso é um exemplo para aqueles que pensam que a terceira idade foi feita somente para descansar. Com certeza esse Senhor deve esta com a energia de um menino em busca de seu sonho. Parabéns, que Deus te abençoe nessa longa jornada. Vida Longa o Senhor Dante. | Denuncie |
Autor: Lyvio Oliveira
Parabéns Dante!! Realizar sonhos é muito importante!! Fico feliz por sua vitória. Ta aí um exemplo espetacular de vida. | Denuncie |
Autor: Argemiro Costa
Parabens, professor, pelo exemplo de vida. Tenho 56, duas graduações Tecnologia da informação e direiro), aposento ano que vem e vou fazer vestibular para história na UnB. Vai dar tempo e tomada que nos encontremos por lá. | Denuncie |
Autor: Severino Silva
Que bela lição de vida. Normalmente, o que se vê são uns doutorizinhos se achando. Parabéns pra o professor e doutor. | Denuncie |
Autor: José Corrêa
Parabens professor Dante, só os humildes estão sempre em evolução, pois os arrogantes acham que já sabem tudo. Também tenho 65 anos e quero continuar aprendendo. Dudu | Denuncie |
Autor: Mario Silva
É. Não sei como algumas pessoas criticam o estilo desse nobre jornalista Marcelo Abreu. Deve ser inveja mesmo. Professor, continue com essa verve romântica e esse estilo inconfundível. Parabéns, mais uma vez, pela excelente matéria. | Denuncie |
Autor: marcos paiva
Esse é um exmplo a ser seguido por todos, agora imagine o Homem é DOUTOR COM PHD, ganha menos de 4.000,00 por mês para da aula numa mais conceituada universidade do BRASIL é mole. " A vida como ela É" | Denuncie |
Autor: Wallison Magalhães
Parabéns! Que essa sua atitude sirva de exemplo para tantas outras pessoas que desanimam de lutar por seus sonhos. | Denuncie |
Autor: Rainer Leite
Muito bom, vc realmente monstrou que é capaz e isso deve servir de exemplo para aqueles que acham que não podem mais. Parabéns | Denuncie |
Autor: Ney Dourado
Meus PARABÉNS!!! isso que eh disposição! que Deus o abençoe.... | Denuncie |