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Menino pobre vira muralista premiado no Brasil e no exterior Consagrado por sua arte, Luiz Costa enfrentou muitas dificuldades na vida. Ao chegar a Brasília, no fim dos anos 60, morou em um armário de central elétrica e lavou carros, mas aos poucos mostrou a que veio. A pintura sempre foi a sua meta

Ariadne Sakkis

Publicação: 30/08/2010 08:18 Atualização: 30/08/2010 19:58

Nascido na mineira Serra dos Aimorés, Luiz acumula dezenas de prêmios e expôs no país e no exterior: 'Aprendi, lá na roça, quem era Pablo Picasso'
Nascido na mineira Serra dos Aimorés, Luiz acumula dezenas de prêmios e expôs no país e no exterior: "Aprendi, lá na roça, quem era Pablo Picasso"
Quando Luiz Costa recapitula as memórias da vida que levou até hoje, o que ele faz, na verdade, é tecer uma colcha de retalhos que conta como ele, um dos 16 filhos de seu Altino e dona Zelita Leão, deixou de ser um menino pobre, “largado do talo”, de Serra dos Aimorés (MG), para se tornar um pintor e muralista premiado no Brasil e no exterior. Conviveu com Alfredo Volpi, Di Cavalcanti, Carlos Bracher. Considerando que a “arte é uma predestinação”, como ele sustenta, o ônibus que o tirou do interior mineiro aos 13 anos — a primeira vez em que ele calçou sapatos — só poderia ter um destino: Brasília.

Costa saltou do ônibus nas terras da nova capital brasileira em 11 de fevereiro de 1969, uma terça-feira de carnaval. Teve que fazer da rua uma casa. “Fui morar em um PC de luz (armários que protegem centrais elétricas) na 208 Sul, no Bloco I. Ia dormir às 19h e acordava à 1h para lavar uns 30 automóveis antes de o pessoal sair para trabalhar, às 8h”, lembra. Brasília não deu a chance de Costa continuar os estudos —chegou até a 4ª série quando ainda morava em Minas. Fez muitos bicos para ganhar dinheiro. Vendeu chocolate, trabalhou em banca de jornal e vendeu nas ruas exemplares do Correio Braziliense. “No fim de semana, eu saía pelas quadras olhando para os apartamentos e anunciando o jornal: CorreeeeeeeeeeeeeeioBrazilieeeeeeeeeeeense!”, diverte-se. O dinheiro que ganhava ajudava nas despesas da família.

Desde cedo ele já ensaiava suas pinceladas, mas só nas horas vagas. “Eu revirava essa cidade para sobreviver. Pintava de manhã, vendia à tarde e comia à noite”, diz. A relação de Costa com a arte começou cedo. Ainda menino, com 7 anos, preferia ver a ler revistas em quadrinhos. “Depois disso, vi, acho que na revista Cruzeiro, duas freiras, só delineadas. Alguém leu pra mim e estava escrito: ‘Picasso para criança colorir’. Aprendi, lá na roça, quem era Pablo Picasso. Pintei com restos de giz dos meus irmãos mais velhos.”

A primeira porta
A batuta do destino colocou Costa para lavar carros, aos 15 anos, em frente à galeria de arte Oscar Seraphico. Um dia, ouviu alguém chamar seu nome. Era o próprio Oscar. “O menino que fazia a limpeza havia faltado e tinha um coquetel no dia, aí ele perguntou se eu poderia fazer o serviço. Eu não rejeitava trabalho. Aceitei. Entrei lá e não saí mais.” Nos cinco anos que trabalhou na galeria, ele pôde ver obras revolucionárias e conhecer os autores. “Logo havia uma exposição coletiva com (Carlos) Scliar, (Aldorigo) Marchetti, Volpi. Convivi com eles todos. Ninguém é gerado pelo vento. O homem é produto do meio, das informações que estão ao seu alcance. Eu não podia fazer outra coisa que não arte”, avalia.

Ele chegou a passar em um concurso para a Câmara Federal, mas, convicto de que queria viver da arte, desistiu (Breno Fortes/CB/D.A Press
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Ele chegou a passar em um concurso para a Câmara Federal, mas, convicto de que queria viver da arte, desistiu
Orbitar em estrelas tem vantagens e desvantagens. Enquanto recebeu conselhos dos mestres (“Comece do início. Olhe o objeto que quer pintar ao vivo e só pare de ter modelos quando você tiver o desenho da anatomia das coisas do mundo de cor”, foi um dos ensinamentos que recebeu de Alfredo Volpi), olhava com uma “autocrítica destruidora” para a sua produção. “Eu escondia os meus quadros. Olhava as obras dos mestres e achava os meus quadros feios.” Mas Costa era determinado e escutou. Praticou, rasurou, repensou, concebeu. “Resolvi que iria viver da minha arte e mais nada.”

Aos 22 anos, colocou as telas debaixo do braço e foi atrás da vitória. “Não podia fazer como muita gente fez. Não queria ser um artista pela metade. Não aceito esse negócio de ser funcionário público para ganhar dinheiro, pintar como hobby e me intitular artista. Eu sempre quis viver da minha obra”, garante. A convicção era tão forte que ele chegou a passar em um concurso para a Câmara Federal, mas desistiu.

A devoção ao ofício teve um preço. Foram alguns anos de instabilidade financeira e incertezas. “Eu aproveitava tudo e não inventava moda. Nunca comprei nada fiado”, explica. Mas quem impediu que as vicissitudes do cotidiano atrapalhassem o artista de imergir no “universo arisco da criação” foi Conceição, a Ceiça, mulher de Costa e mãe de seus dois filhos, Marina e Luiz. “Nunca soube se a conta de luz estava atrasada ou se os meninos tinham tirado notas baixas na escola. Essas coisas não chegavam a mim. A Ceiça cuidou de tudo, aguentou tudo, nunca reclamou. Não fosse ela, eu não teria me tornado o pintor que sou”, reconhece. “A coisa mais bonita do mundo é o amor”, dita, romântico.

Premiação
O primeiro reconhecimento do trabalho foi a conquista do Prêmio BRB de Pintura, no IV Salão de Artes Plásticas das Cidades Satélites/Fundação Cultural, em 1981, com um retrato da Igreja São Sebastião, no Gama. Ele tinha 26 anos. “Eu gostava de circular pelos arredores de Brasília para pintar. Fiz muitas coisas em Planaltina e em Luziânia, onde cheguei a morar.”

De lá para cá, Costa acumulou dezenas de prêmios e expôs em todo o Brasil e no exterior. A identidade de suas peças, que hoje o tornaram inconfundível, veio da influência do construtivismo e de alguns dos expoentes que lhe são muito queridos. “Fui muito influenciado por muralistas mexicanos, pelo pintor uruguaio Joaquín Torres García, um dos mais importantes construtivistas. Chego a Brasília e vivo, corpo a corpo, com a obra de Niemeyer, com os murais de Athos Bulcão. E os mestres que tive o privilégio de conhecer pessoalmente”, lembra.

Apesar de conhecer muitos consumidores de arte por causa da galeria de Oscar, Costa nunca ofereceu seu trabalho a eles. “Eu tinha receio de que eles me mandassem catar coquinho. Como iam comprar uma obra minha? Os caras compravam Volpi!”, lembra. Ele, então, “catequizou” os seus colecionadores. Foi mostrando a produção para amigos, amigos de amigos e assim por diante. Um deles foi o advogado Getúlio de Barros Barreto, que sempre deu uma força para Costa. “Eu chegava ao escritório dele com uns quadrinhos ensebados debaixo do braço, numa sexta-feira, sem ter vendido nada. E o Getulião sacava e já perguntava: ‘O que é que há, excelência?’. Era uma amizade muito linda.” Depois da morte do amigo, os laços com a família permaneceram. “Hoje, sou amigo da família dele. A casa dele tem vários painéis meus.”

Hoje, o nome e a obra de Luiz Costa são consagrados e reconhecidos. Sua marca registrada, a figura de um boneco que ficou apelidado de Candango, é um trabalho de aperfeiçoamento que já dura 20 anos. Tanto esforço realizou o sonho do menino de Serra do Aimorés. Não só Luiz Costa vive da obra, como vive muito bem. O retorno que dá a Brasília — “que me deu régua e compasso”, atenta — é uma biblioteca com 3 mil exemplares de livros de artes aberta ao público e um instituto de educação artística e ambiental, que atua com crianças de escolas públicas e particulares. Contanto que deixem o homem pintar, para ele não tem tempo ruim. “Mas se eu não pinto, sinto que o dia não passou. Aí, vem o mau humor”, confessa.

Os planos para o futuro incluem a fundação de uma escola de arte. “A pintura é muito cruel. É uma das poucas para as quais o tempo conta a favor. Depois de 50 anos é que ela começa a dar resultado, formar uma marca. Muitos grandes pintores morrem antes de ser reconhecidos.” Com Luiz, a arte deu o braço a torcer.

Esta matéria tem: (3) comentários

Autor: luiz costa
Olá Lins e Ana, não entendi a relação dos comentários com a matéria. | Denuncie |

Autor: Ana Paula Martins
Concordo plenamente com o Lins, não sou concursada ainda, mas sei bem o que é gastar todo o salário e noites numa faculdade. Aí chega qualquer um com uma penca de filhos...p reclamar que o mundo é injusto. Cada um colhe o que planta. Cada um com seus problemas.... | Denuncie |

Autor: Lins Neto
TENHO FALADO ISTO TODOS OS DIAS AQUI NO CB. METEM O PAU NOS GRANDES SALÁRIOS DO PODERES PÚBLICOS. MAS ESQUECEM QUE ESTUDAMOS, COMO EU, EM ESCOLAS PÚBLICAS, FIZ CONCURSO E FAÇO PARTE DE QUEM GANHA SALÁRIOS ALTOS, MAS VIM DE UMA FAMÍLIA QUE FALTAVA COMIDA DIARIAMENTE. FUI EM SEGRENTE E VENCI... | Denuncie |

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