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Publicação: 02/09/2010 08:27 Atualização: 02/09/2010 14:32
Em meio ao clima árido que castiga Brasília, alguns pontos da cidade parecem cobertos de neve. O tom branco destaca-se entre o marrom (da poeira) e o cinza (das queimadas), que se sobressaem no cenário do Planalto Central nesta época do ano. O contraste é possível graças à paineira — ou barriguda, cujo nome científico é Chorisia speciosa. Entre agosto e setembro, as árvores dessa espécie começam a dar frutos e dispersam suas sementes envoltas em paina (1). Antes colorida, repleta de flores rosas, a planta agora está com os galhos secos e cercada por uma penugem branca em sua base. O fenômeno atrai olhares e instiga a mente daqueles que não conhecem esse processo e tentam decifrá-lo.
Em Brasília há cerca de 60 mil paineiras — a maioria plantada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Um grupo delas, em especial, chamou a atenção da advogada Hanna Ferreira, 25 anos, que passava de carro em frente à 306 Norte. “É muito lindo. Esse tapete branco muda o visual da capital. Até parei para tirar foto para levar para minha mãe”, disse a jovem, encantada com as bolas de paina que lembram algodão.
Uma galeria de barrigudas também impressiona quem circula pelo Setor Policial Sul. “Será que esse algodão vem de onde? Cai da árvore ou é trazido pelo vento?”, indagou a auxiliar de limpeza Marlene de Sousa, 46 anos, que transitava pelo corredor de paineiras. “Se juntasse tudo daria um travesseiro bem gostoso. Parece que está nevando em Brasília em plena seca”, emendou. Sem querer, ela decifrou o fenômeno que encanta moradores e embeleza a cidade.
Dispersão
Ao amadurecer, o fruto estoura naturalmente e libera as sementes que estavam presas dentro dele. “É como se ele fosse uma cápsula que guarda as sementinhas. Esse algodão (paina) serve para dispersá-las. Quando o vento passa, leva o algodão, que carrega a semente para longe”, explicou a bióloga Andresa Soares Rodrigues Oliveira, do Jardim Botânico de Brasília. Depois de cumprir seu papel, os frutos quebrados e vazios também caem no chão, deixando os galhos solitários. Maritacas
Alto, as flores brancas da paineira cobrindo uma área de circulação na 306 Norte. Acima, maritacas se deliciam com os frutos e as sementes da planta: enlevo para as humanos, iguaria para as aves
fazem a festa e ajudam a acelerar o procedimento natural de abertura dos frutos. As aves são atraídas pelas sementes, que se parecem com caroços de feijão. Já o fruto lembra o cacau.
Neve candanga: depois da floração, paineiras pintam de branco o solo da cidade
A silhueta avantajada da árvore — daí o nome barriguda — também é explicada. “Ela acumula água no tronco. É como se fosse uma reserva. Por isso fica barriguda”, disse a especialista. Essa garantia de reserva de recursos é necessária, uma vez que a espécie tem raízes rasas. A parte mais larga do tronco tem de 80cm a 120cm de diâmetro.
As flores de paina que caem no canteiro central atravessam as pistas, entram nos carros e chegam até o outro lado da rua. O que não incomoda o desenhista Assis Cavalcante, 53 anos, que passa de carro pelo Setor Policial todos os dias. “É fantástico. Eu fico doido para parar e registar a cena. Dá uma vontade de deitar em cima desse chão branco”, afirmou o morador da Octogonal.
Além da 306 Norte e do Setor Policial Sul, é possível apreciar o espetáculo das paineiras em frente à Torre de TV, ao longo do Eixo Rodoviário (Norte e Sul), próximo à entrada do cemitério Campo da Esperança e em diversos outros pontos da cidade.
Incômodo
A ação natural de maturação dos frutos da paineira, que embeleza e encanta a cidade, também traz desconforto. Aurelina de Castro Miranda, 65 anos, sofre de rinite alérgica e sente a doença agravar-se por conta da paina que cai das barrigudas. Ela tem uma banca de jornal na 306 Norte, bem atrás de um grupo dessas árvores. “Que é bonito, é. Não há como negar. Mas quando venta, o vento traz junto esse monte de pluma. Sinto o olho coçar e tenho coriza. À noite, quando chego em casa, melhora”, relatou.
Coceira nos olhos, espirro e coriza podem indicar alergia ao algodão da paineira. Quem apresentar esses sintomas após entrar em contato com a paina deve procurar um alergista. “Se a pessoa tiver rinite e asma, pode ter o quadro agravado, caso seja sensível à paina”, afirmou o médico Alexandre Ayres, do Hospital Universitário de Brasília (HUB). “Antigamente, antes do advento da espuma, o enchimento de travesseiros, colchões, sofás e estofados era de paina. Mas observou-se que ela provocava muita alergia e foi substituída. Hoje, o contato é muito eventual”, informou o alergista.
“Por causa da paina e das raízes rasas que podem causar estragos em calçadas, recebemos muitos pedidos de retiradas de paineiras”, relatou Rômulo Ervilha, chefe do Departamento de Parques e Jardins da Novacap. A companhia é responsável pela dispersão das paineiras que embelezam a cidade de forma singular, seja na fase de floração ou na de maturação dos frutos. “Na época da construção de Brasília, foram plantadas mudas para recuperar áreas degradadas. A paineira se desenvolve bem e rápido. Como o viveiro da Novacap ainda não produzia espécies nativas, foi preciso procurar exemplares em outras regiões”, disse Rômulo.
1 - Maciez e fragilidade
A paina é uma fibra fina e sedosa, mas pouco resistente, não sendo atualmente muito aproveitada na confecção de tecidos, mas como preenchimento de travesseiros e brinquedos de pelúcia.
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Esta matéria tem: (5) comentários
Autor: dyone nascimento
paineiras, ypes , a como eu gosto do cerrado no periodo mais impetuoso e quando elas mostram sua beleza, por isso não saiu de BSB | Denuncie |
Autor: Elizeu Faria
A paina ou pluma da barriguda não é a flor, basta olhar dentro das mechas e vc perceberá a presença de uma semente que nas primeiras chuvas nasce e projeta outra árvore. Quando criança e ainda existia cerrado, nós comiamos as sementes in-natura ou torradas. | Denuncie |
Autor: Elizeu Faria
Bela reportagem! Mas as paineiras (barrigudas) quando floram as flores são muito mais bonitas, nos tons brancos e roxos (lilás) de onde saem o fruto que madurece entre agosto e setembro e ao abrir libera uma paina parecida com algodão, antes, muito usada para preencher travesseiros. | Denuncie |
Autor: Elizabeth Carvalho
Sou moradora em São Paulo, mas costumo ler as manchetes e alguns artigos do Correio Braziliense. Quero expressar a alegria que senti com a leitura deste texto sobre as paineiras de Brasília.Uma linguagem límpida e poética que fez com que eu vislumbrasse o cenário, mesmo à distância. Obrigada! | Denuncie |
Autor: Lenyza Lucas
É lindo realmente! Nunca tinha visto. Brasília tem essa peculiaridade, mesmo no tempo seco. | Denuncie |