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| Novamente em ação: o palco é o lugar onde ela mais gosta de estar |
Na certidão, recém-tirada, está escrito: data de nascimento — 9 de novembro de 1935. Ela corrige: “Não, meu pai só me registrou dois anos depois que tinha nascido. Nasci em 9 de novembro de 1933. Vou fazer 77 anos e não 75”. Raro, raríssimo, uma mulher querer aumentar a idade, sobretudo depois que passa dos 40. Elas fazem tudo para, inclusive, nem tocar no assunto. É tabu. Mas ela quer. Enche a boca, orgulhosa, das mais de sete décadas que viveu.
Rilda Techmeier, filha de índia e português, é assim. Diz o que pensa e o que quer. Viúva de um alemão refugiado, a pernambucana Rilda escreveu sua história como se fosse uma peça de teatro. Na verdade, a vida dela sempre foi uma peça de teatro. Pelo menos assim ela a concebeu. Muitos anos depois da viuvez, Rilda se reencontrou com sua arte. Hoje, às 20h, no Cine Brasília, na 106/7 Sul, ela estará em cartaz na pré-estreia do filme Além dos olhos, do diretor brasiliense Peterson Paim, de 32 anos.
Rilda faz uma participação na trama que aborda a história de um homem que teve os pais assassinados na infância e, de repente, passa a ver que as pessoas da cidade desaparecem misteriosamente. Começam os conflitos religiosos naquele lugar. E a dúvida de uma população entre manter a própria crença ou mudar de religião para salvar a vida.
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| Momento atual, no jardim de casa, no Guará I: alegria de viver, sempre |
O longa, uma produção independente com 20 atores, teve cenas rodadas em Brasília, Pirenópolis, Goiás Velho e Goianésia. Foi feito entre 2003 e 2004, editado em 2007, sonorizado em 2008 e só agora chegará às telas, depois de sete anos de luta e entraves. “Estou esperando a resposta das distribuidoras para que ele entre em circuito”, diz o diretor.
A mulher de 77 anos é uma das personagens que se revoltam com a seita que chega à cidade e faz justiça com as próprias mãos. Rilda, ao contrário da personagem, não se revoltou com seita nenhuma. Mas, numa revolução bem interna, mudou a vida para continuar viva. “Hoje, seu eu sou feliz é porque eu gosto muito de mim”, ela diz.
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| Com o grupo Viver a Vida, do qual faz parte há 10 anos: teatro sem idade |
Segunda, 10h30, QI 18 do Guará I. Numa casa em reforma, uma mulher com uma flor de lótus (representação da elevação e expansão espiritual budista) tatuada no peito esquerdo, conta as horas para ver o primeiro filme na telona. A casa, com poeira em todos os cantos, não a incomoda tanto. “É ruim, mas já tá acabando”. E mostra a suíte, com banheira de hidromassagem, presente dos filhos. “Adoro ficar relaxada”, diz.
A vida de Rilda nem sempre foi assim, de banhos de espumas e sais. Pelo contrário. A mãe morreu quando ela ainda era criança. O pai se casou com outra mulher. Ela conta que, pelo desentendimento com a madrasta, saiu do Recife ainda menina. Foi morar no Rio de Janeiro, na casa de parentes, em Higienópolis, subúrbio de classe média baixa da Zona Norte carioca. “Eu era muito bonitinha, tinha pernas grossas, cintura fina. Uma vizinha disse pra eu entrar num curso de modelo. Fui. Queria ser manequim.”
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| Momento modelo: pose para um estúdio da cidade |
Do curso de modelo, Rilda se encantou pelo teatro e pela dança. “Eu não era boa bisca, meu filho. Sempre fui e vou continuar rebelde”, diz, às gargalhadas. E, ainda segundo as memórias da atriz, veio a paixão pelo teatro. “Fui vedete, não era do time principal, era ponta, mas dançava. Conheci a Virgínia Lane nos mesmos espetáculos.” Começavam os anos 1950. Ainda no Rio de Janeiro, ela chegou ao Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno. “Nessa época, eu morava em Santa Teresa, num quartinho alugado.” Rilda sempre esteve à frente do seu tempo.
Casamento Na época do teatro, do charme dos bondinhos de Santa Teresa e de um Rio de Janeiro que não mais existe, ela conheceu um rapaz de olhos azuis e cabelos da cor de sol. Era Donar Techmeier, filho de alemães, oficial da Marinha Mercante do Brasil. “Ele gostou de mim, mas eu era noiva de outro rapaz”, diz.
Donar foi mais esperto. Rilda terminou o noivado. E começou o namoro com o rapaz de olhos azuis e pele rosada. “A mãe dele não me aceitou porque ela dizia que eu era negra e jamais se casaria com o único filho dela”, conta. A paixão venceu até o preconceito. “Ele tiveram que me engolir. Um dia, ele, que já tinha feito um curso de arquitetura, me perguntou se eu tinha coragem de fugir com ele para Brasília. Eu vim...”
Em 1957, a capital era apenas uma miragem. E lá vieram Rilda e Donar, num caminhão que levou 16 dias para chegar à terra de JK. O desembarque foi na Cidade Livre. Hospedaram-se no Hotel Rio de Janeiro. “As lágrimas molharam todo o meu rosto. Eu disse: ‘Meu Jesus, o que vim fazer aqui?’ Só tinha mato e barro e tristeza. Como se deixa o Rio de Janeiro pra viver assim?’ ” Casaram-se no cartório de Luziânia. Mudaram-se, tempos depois, para a Vila Planalto. Era o começo da identidade candanga.
Brasília é inaugurada. “Ele trabalhava com projetos de arquitetura”, ela lembra. Nasceram os quatro filhos, dois meninos, duas meninas — hoje com 50, 48, 46 e 42 anos. “E criei mais dois afilhados, a Fátima e o Washington”, ela diz. O tempo passou. Os anos insistiram em correr. Os filhos cresceram. Da Vila Planalto, Rilda e Donar foram para Taguatinga, depois para uma casa na 713 Sul. Rilda se esqueceu do teatro. Virou mãe e dona de casa.
Reviravolta
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| Estreando a banheira, presente dos filhos: Rilda se cuida bem |
Rilda conta que o marido arrumou amantes. “Foram várias. E bebia muito. Morreu novo, há mais de 20 anos, em consequência de complicações no fígado”, diz. “Nessa época, os dois sogros, que nunca me aceitaram, vieram morar aqui e morreram nos meus braços. Ele numa semana; ela, oito dias depois.”
Viúva, com os filhos criados e encaminhados, ela decidiu que voltaria ao teatro. Há 10 anos, parou no grupo Viva a Vida, do diretor Tulio Guimarães, no Teatro Dulcina. Participou de nove peças. “O teatro me salvou, me revigorou, me deu coragem para continuar em frente. Me trouxe a alegria de viver de volta.” E continua, emocionada: “Faço teatro e cinema para esquecer da vida”.
Rilda atuou também em peças dos diretores Plínio Mósca (Édipo Rei ) e Hugo Rodas (Cora Coralina). Além do teatro, voltou às aulas de canto. Participou de três corais — UnB, do Guará e da Rainha da Paz. Fez fotos em estúdios, como modelo. Desfilou em concursos de beleza da terceira idade. Ganhou três vezes o título máximo.
Parou aí? Jamais. Rilda é incansável. Retomou seus trabalhos em pintura e cerâmica — faz peças muito especiais. E voltou a namorar. “De vez em quando aparece alguém interessante. Sim, claro, ainda não tô morta nem fria”, brinca.
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| No palco, durante encenação do clássico Édipo-Rei, de Sófocles |
A atriz assume a vaidade. “Gosto de estar bem. Faço musculação, natação. pilates e dança de salão. E gosto também de me embelezar. Só nunca fiz plástica. Você tem que envelhecer com dignidade.” Às gargalhadas, revela: “Meu filhos dizem que sou exibida”. E reflete: “É que gosto mesmo de me sentir viva. Eu me gosto, me amo. Não me embelezo para os outros, mas para mim mesma”.
A bibliotecária Marusca Techmeier, 49 anos, uma das filhas de Rilda, elogia a mãe: “Com essa idade, ela ainda tem tanto gás! Amanhã (hoje) estarei lá, prestigiando o trabalho dela”. A outra filha, Maya Techmeier, militar de 42 anos, analisa: “Essa é a forma de ela se manter sempre ativa: esquecer as tristezas”.
Rilda conta os minutos para chegar hoje à noite. Como o livro que está escrevendo sobre sua trajetória, “que vai misturar realidade e ficção”, a atriz fez da sua vida seu próprio filme. Talvez o melhor — triste, alegre, bom, ruim, ora conto de fadas, ora pesadelo, ora Brasília, ora Rio de Janeiro, ora Recife... Este é o seu filme. E nele ela é sempre a atriz principal.
Às vésperas de completar 77 anos, Rilda faz planos. “Quero achar ainda muita graça na vida. E atuar em muitas peças. Ser convidada para outros filmes. Quero viver, viver muito...”
CONFIRA Além dos olhos –
Pré-estreia hoje, às 20h, no Cine Brasília (106/7 Sul). Entrada franca. Sessão única. Veja trailer do filme no site
www.paimfilmes.com
Esta matéria tem: (1) comentários
Autor: Valéria Barcellos
Estou muito feliz e orgulhosa da senhora D. Rilda. Meus parabéns, a senhora merece todas as honras e aplausos afinal, fui testemunha por um curto período da saga de sua vida com o Sr. Donar. Um grande abraço. | Denuncie |