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Correio Braziliense

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Bravos Candangos: arquiteto trabalhou na construção da cidade desde 1957

Glauco Campello colaborou com a nova capital antes mesmo da escolha do projeto do Plano Piloto. Ele lembra-se de ter ajudado as filhas de Lucio Costa a desembrulhar as pranchas que continham os riscos e os textos da nova capital

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postado em 02/10/2010 08:19

Conceição Freitas

Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press - 19/5/10
No início da noite de 11 de março de 1957, duas garotas agitadas entraram correndo no saguão do Palácio Gustavo Capanema. Carregavam pequenos pacotes. Um jovem estudante de arquitetura reconheceu uma delas, sua colega de faculdade. Correu para ajudá-la a desembrulhar os volumes para libertar uma cidade feita de asas. As moças eram as filhas do arquiteto Lucio Costa, Helena e Maria Elisa Costa. O rapaz que as ajudou era Glauco Campello, que àquela altura já havia contribuído no detalhamento dos projetos do Palácio da Alvorada e do Brasília Palace Hotel.

O bravo candango de 76 anos participou da construção da cidade desde antes do concurso do Plano Piloto. Esteve colado com Oscar Niemeyer, seu mestre; foi amigo de Samuel Rawet, engenheiro-calculista de algumas das mais importantes obras da cidade; e conviveu com outro engenheiro que calculou as estruturas dos palácios de Niemeyer, Joaquim Cardozo. De seu escritório de arquitetura, no Rio de Janeiro, o ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ativou a memória e relembrou “um momento vigoroso do país, de conquistas fundamentais para a formação do Brasil”.

O testemunho de Campello é triplamente importante: pelo pioneirismo, pela proximidade com Niemeyer e pela singularidade de seu olhar, ao mesmo tempo humano, político e social. O arquiteto era ainda um estagiário quando se apressou a ajudar as duas filhas de Lucio Costa. Elas chegavam à então sede do Ministério da Educação no último minuto do prazo para inscrição dos projetos candidatos ao concurso do Plano Piloto. “Quando começamos a desembrulhar e montar as pranchas do projeto, vimos que eram de uma singeleza que me espantou. E ao mesmo tempo tinha um encanto muito especial. Digo com orgulho que naquele tempo eu fui capaz de perceber esse encanto. Meu primeiro contato com Brasília aconteceu antes de ela existir.”

Pouco tempo depois, Glauco Campello veio morar em Brasília, recém-casado. Alojou-se numa das unidades da Fundação da Casa Popular, na W3 Sul, e de lá saía de caminhão ou de caminhonete para o barracão instalado onde hoje está o Ministério da Justiça. “Era um ritmo alucinante, baseado sobretudo num emprego de mão de obra maciça. Tirava-se partido de uma mão de obra que estava ali numa oferta provavelmente a preços muito cômodos”, comenta o arquiteto de formação marxista. Se era cordial o clima entre operários, arquitetos,
Arquivo do Escritório Glauco Cam/D.A Press
engenheiros e técnicos, na Cidade Livre o contato adquiria uma atmosfera muito mais democrática.

Aprendizado

Campello não romantiza a convivência entre operários e profissionais qualificados. “Não quero dizer que os arquitetos e os engenheiros se sentavam com os operários, a não ser em relações de trabalho. Mas isso era possível acontecer nas diversões da Cidade Livre. Havia um homem muito vivo, cheio de esperteza, que tinha o apelido de Quebra-Galho, que também era chamado de Pará, estado de onde veio. Pará fazia com que rompêssemos as barreiras sociais, uma coisa tão bonita que acontecia sem que a gente percebesse.”

O jovem estudante de arquitetura que deixou Recife para tentar um estágio no escritório de Oscar Niemeyer conseguiu o que queria e muito mais do que imaginava: participar da mais monumental aventura da arquitetura e do urbanismo brasileiros. Além de detalhar os projetos do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, Campello assinou suas próprias obras. São dele o projeto da Catedral Episcopal Anglicana (na 309/310 Sul), as capelas do Campo da Esperança, a primeira sede da Rede Sarah e o projeto de equipamentos do Parque da Cidade.

Durante a construção da capital, Campello conviveu com grandes mestres de sua área de conhecimento e de áreas circunvizinhas. Teve o privilégio de estar próximo de Joaquim Cardozo e Samuel Rawet, por exemplo. “O Cardozo, eu conhecia de Pernambuco. Me lembro de que ia visitá-lo no escritório. Ele me cumprimentava, nos sentávamos e a partir de um mote qualquer ele falava uma meia hora de forma contínua, ampla e extremamente culta. Eu ficava fascinado com aquilo, e então chegava a hora e ia embora. Era disso que constava minha visita”, relembra.

Com Samuel Rawet, o outro engenheiro-literato de Brasília, as relações foram mais pessoais, e desse modo o arquiteto pôde conviver com a “alma torturada, complexa” do contista. Glauco Campello conta que Rawet teve uma “briga injustificável” com Cardozo, talvez por conta de uma mania de perseguição que o fazia acusar o principal calculista de Niemeyer de atitudes “absolutamente injustificadas”. Rawet foi encontrado morto na casa onde morava em Sobradinho em 1984.

Idas e vindas

Pouco tempo depois de a cidade ser inaugurada, Campello voltou para Recife, atraído pela “força de gravidade da família e dos velhos amigos”. Mas outra força, em sentido contrário, o trouxe de volta a Brasília. Veio participar da criação do curso de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB). Ficou até 1968, quando aderiu à demissão coletiva de mais de 200 professores em represália à perseguição política da Reitoria a alguns colegas. O arquiteto voltou a morar em Brasília uma terceira vez, nos anos 1990, quando assumiu a Presidência do Iphan nacional. A esse tempo, a capital já havia recebido o título de Patrimônio da Humanidade. “Retomei meu contato com a cidade para liderar uma instituição que cuidava da preservação”, resume. O projeto de Lucio Costa, que ele havia ajudado a desembrulhar, continuava cruzando seu caminho em trechos extensos e intensos.

É preciso ter cuidado, Campello comenta, para não confundir o tombamento de um edifício, de um objeto cristalizado, com o de uma cidade. Ela é um organismo em evolução. Há trechos que vão permanecer imutáveis, porque foram tombados. A Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes, por exemplo. Ou as escalas (a gregária, a monumental, a bucólica, a residencial). Para o arquiteto modernista, a Brasília real está se desenvolvendo ao mesmo tempo em que o projeto de Lucio Costa mantém as suas qualidades, ressalvadas algumas exceções. Ele cita, por exemplo, os setores hoteleiros Sul e Norte com sua urbanização precária: “A iniciativa privada constrói os edifícios e não cuida do entorno, das calçadas, dos jardins”.

A propósito dos escândalos políticos e da desigualdade social na capital do país, Campello diz que Brasília tem “uma grande importância simbólica que está acima de tudo isso”. E que seus maiores problemas, a precariedade de seus representantes e a extrema distância entre ricos e pobres, só se resolverão quando o Brasil resolver seus graves problemas. Afinal, Brasília é o Brasil.