Era feriado de Nossa Senhora de Aparecida em 1920 quando veio ao mundo Jovelina Ferreira de Souza Nascimento. O primeiro ar que respirou foi o da pequena cidade Sítio d’Abadia, interior de Goiás. “Era o fim do mundo”, lembra Jovelina, sentada à mesa de uma casa de festas onde vira e mexe alguém vem cumprimentá-la e felicitá-la pelo aniversário de 90 anos. Convida um dos amigos para “tomar uma cervejinha” dali a pouco. A companhia do tempo a tornou mais suave — garantem os filhos — e mais brincalhona. Perdeu preocupações, ganhou netos e recentemente bisnetas gêmeas. Jovelina é assertiva quando faz o balanço da vida que teve até aqui: “Sou completamente realizada”. Ela conseguiu o que tanto teimou para ter: sete dos oito filhos e 14 netos têm diplomas de nível superior. Todos são formados pela Universidade de Brasília (UnB).
Foi para garantir a educação dos filhos — teve 12, mas quatro não sobreviveram — que insistiu com o marido, Clóvis, para trocar a roça por uma cidade maior capaz de garantir uma vida melhor para a prole. Clóvis fechou o comércio que tinha em Sítio d’Abadia e partiu para Formosa (GO), onde duas das filhas já estudavam. Apesar de ser uma cidade maior, Formosa ainda não atendia às exigências da resoluta Jovelina. “Ela sempre foi extremamente comprometida com a nossa educação. Sempre disse que o caminho para uma vida melhor era estudar. Minha mãe foi uma mulher à frente do tempo dela”, comenta a filha Maria de Fátima, professora formada pela UnB.
Era 1970 quando a família chegou a Brasília e se fixou em Sobradinho, onde Jovelina mora até hoje. “Quem me disser que veio para Brasília no começo e não sofreu, eu digo que está mentindo. A vida era muito difícil, os aluguéis caros. Havia muita poeira”, relembra a nonagenária. A figura mitológica de Juscelino Kubitschek também exerceu seus encantos sobre Jovelina. “Eu vi JK montado em cima de um trator”, conta, entusiasmada.
Foi batalhando muito que ela e o marido conseguiram manter os filhos focados e direcionados rumo à universidade. Nem mesmo os quatro filhos do primeiro casamento de Clóvis escaparam da obsessão de Jovelina. “Se eles não queriam estudar, eu ia pessoalmente buscá-los em Formosa e os trazia para cá. Fazia questão”, diz. “Mesmo com as dificuldades, ela tinha essa certeza que só através da educação que a gente teria possibilidades na vida. E realmente, ela não estava errada!”, diz Maria de Fátima. Dos oito filhos que teve com o marido, falecido em 1999, aos 84 anos, apenas um não se formou. “Não o fez porque não quis, porque ela insistiu”, garante Maria de Fátima.
Não bastou também entrar e se graduar. Para a matriarca, era preciso ter desempenho exemplar. A filha mais velha, Neuma, garante que nota baixa sequer era perdoado pela mãe. “Ela achava que pelo fato de nós virmos de uma família mais humilde, de uma cidade pequena, nós tínhamos que nos destacar. Nota baixa era sinônimo de punição”, explica. A obstinação da mãe em garantir um futuro melhor para a família começou a render frutos logo após a mudança para a nova capital. As irmãs mais velhas, Euma e Neuma, já eram professoras formadas e ajudaram a custear os gastos da casa da mãe. “Meus filhos são muito bons pra mim. Hoje, tomam conta de tudo”, diz Jovelina.
HerançaA teoria de Jovelina foi passada dos filhos para os netos. Até hoje, 14 deles já entraram na UnB. João Henrique Nascimento Dias, 23 anos, se formou recentemente em ciências políticas. A vovó (e para ele também madrinha) Jovelina estava na plateia quando seu nome foi chamado para receber o diploma. “Minha mãe me passou o que minha avó ensinou a ela. É uma mulher de muita força. Ela foi visionária em uma época em que as mulheres mal saíam de casa. Até hoje faz questão de votar”, diz João. “Ela sofre quando vê um neto estudando para o vestibular. Dá a maior força”, completa. Josemar Nascimento se orgulha de o filho ter passado em duas universidades federais para cursar agronomia. Escolheu, como todo resto da família, a UnB e se forma no ano que vem.
Ver a família trilhar um futuro com um diploma debaixo do braço foi a maneira que Jovelina encontrou de se realizar já que ela mesma não pode dar sequência aos estudos. “Era eu quem cuidava da casa, lavava, fazia comida. Não fosse eu, quem ia fazer isso?”, questiona. Mas não se engane. Se a ela foi impedido o direito de se sentar em uma sala de aula, a sala de estar de casa serviu, e continua servindo, para que ela leia sobre qualquer coisa. “Minha mãe está sempre com um livro. Todos os dias lê o jornal ou revistas de atualidades”, afirma Clóvis Filho, matemático e funcionário público. Histórias de Juscelino Kubitschek, biografias ou poesias figuram entre as leituras preferidos da matriarca.
Ao falar da mãe, é difícil um filho de Jovelina que não se emociona. “Eu queria ser filho da minha mãe um trilhão de vezes. Ela é de um caráter, de uma força, que só sendo filho dela para saber”, diz Josemar. Abraçada à mãe, Euma atesta. “Ela é uma guerreira”. Neuma, com quem a mãe mora, não contém as lágrimas. “É uma mãe muito amiga. Ela sempre foi muito presente, muito cuidadosa, muito preocupada com a nossa educação. Nada passa despercebido para ela. Toda a vida ela soube o que os filhos estavam fazendo”, explica a pedagoga e bibliotecária. Notoriamente o xodó da mãe, o filho Eumar retribui o carinho: “Minha mãe é tudo”. Nenhum deles sabe dizer, exatamente, de onde veio a determinação da mãe e o empenho dela em ser rodeada por filhos acadêmicos. Clóvis Filho talvez resuma bem: “É um desses dons de Deus, não sei explicar”.
DestinoA união de Jovelina e Clóvis merece um capítulo à parte. “Eramos namorados. Mas minha mãe não o aceitava de jeito nenhum”, lembra Jovelina. Para impedir os planos do casal, Jovelina foi mandada para Januária (MG), a 500km de distância, para estudar. Nos quatro anos em que ficaram separados, Clóvis ficou noivo e se casou com a prima de Jovelina. A primeira mulher de Clóvis faleceu durante o parto do quarto e último filho. Clóvis e Jovelina se reencontraram e prevaleceu o amor entre os dois. “Ele era o amor da minha vida. Ele também era completamente apaixonado por mim”, conta. Quando a mãe de Jovelina morreu, seu pai se casou com a irmã de Clóvis. “Meu pai era, ao mesmo tempo, sogro e cunhado do Clóvis”, explica.
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