A piauiense Maria do Amparo Teixeira está em busca de ressurreição. Assim mesmo, no sentido literal da palavra. A moradora do Paranoá tem endereço próprio, telefone, registro no INSS e anda para lá e para cá como fazem todos aqueles que estão vivinhos da silva. Mas nada disso parece ser suficiente para garantir a vida — pelo menos no papel — da mulher de 52 anos. Essa mãe de três filhos aparece como morta em parte dos arquivos públicos candangos. E há mais de um mês ela luta para provar o contrário. “Essa é hoje a história da minha vida. É a ressurreição de Maria do Amparo”, diz, com segurança.
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| Maria do Amparo tem cistos no estômago, nos rins e no fígado e sofre de hérnia de disco: "Quero retomar a minha vida, fazer as minhas cirurgias e recuperar a saúde" |
A postura firme, no entanto, é momento raro no dia a dia da doméstica aposentada. O drama começou em 23 de março deste ano, quando ela se submeteu a uma cirurgia na vesícula no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). A operação transcorreu dentro da normalidade. Maria ficou três dias internada e, às 10h33 de 26 de março, acabou liberada pela equipe médica. O que ela não imaginava era o que seria escrito no prontuário. Segundo o documento, assinado por uma médica da rede pública de saúde, a paciente recebeu “alta com óbito”.
Por mais estranha que a expressão pareça, revelou-se suficiente para transformar a vida de Maria do Amparo. Essas poucas palavras indicaram à burocracia pública que a piauiense radicada no Distrito Federal desde 1991 estava morta. Assim, a aposentada se viu impedida de fazer consultas e exames e conseguir receitas para medicamentos essenciais ao bem-estar. “Já fui três vezes ao Hospital de Base (do Distrito Federal, HBDF) e não consigo ser atendida porque dizem que estou morta. Em nenhuma das vezes, os funcionários encontraram o meu nome no sistema”, lamentou.
A aposentada nem mesmo conseguiu fazer a revisão da cirurgia de vesícula, marcada para 16 de junho. A consulta caiu em um dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo da África do Sul. Soube no local que não haveria expediente. Foi mais uma vez à unidade de saúde e nada. Maria do Amparo procurou ajuda. Encontrou na Subsecretaria de Proteção às Vítimas de Violência (Pró-Vítima), da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejus). Ao ir em setembro ao HBDF, dessa vez acompanhada por uma servidora da Pró-Vítima, descobriu a informação do óbito no próprio prontuário.
A mulher, então, entrou em desespero. Isso porque a vesícula não é o único problema de saúde dela. Tem cistos no estômago, nos rins e no fígado, além de sofrer de hérnia de disco. Cada doença exige um tratamento, mas nem na fila de espera Maria do Amparo figura porque, para o sistema de saúde brasiliense, não vive mais. “Para mim, parecia uma brincadeira. Quando a ficha caiu, fiquei perturbada. Eu levo a minha vida agora estressada. Às vezes, nem me reconheço mais no espelho. Às vezes, não sei mais quem eu sou. Penso se estou viva mesmo”, conta (leia depoimento).
ChoroMaria do Amparo tem dificuldades em tocar no assunto. A falha no sistema público acabou com a autoestima dela. Chora com facilidade. Enche os olhos de lágrimas sempre que é confrontada com o problema. Recebe hoje auxílio psicológico dos profissionais da Pró-Vítima. Alguns deles, como Maria Derminda da Silva Pereira, diretora executiva do Centro de Apoio Social do órgão assistencial, viraram amigos. “Atribuo tudo isso a um erro do sistema. Sabemos que a demanda é muito grande e a oferta de funcionários, pequena”, avalia Maria Derminda.
Em 18 de outubro, a diretora encaminhou um ofício à direção do Hran (veja fac-símile). Também abriu um relatório de acompanhamento do caso. Os documentos detalham a situação de Maria do Amparo e cobram uma posição do Hran. “A cidadã necessita de cuidados médicos e, na situação em que se encontra na saúde pública, isso se torna inviável”, escreveu Maria Derminda. Por iniciativa da Pró-Vítima, a história também virou caso de polícia. Há ocorrência registrada na 6ª Delegacia, no Paranoá, desde 30 de setembro.
Enquanto aguarda uma solução, Maria do Amparo se segura na fé. Frequenta a igreja, segue uma rotina de orações e sempre que encontra um amigo ou conhecido na rua pede que reze por ela. “Deus é o meu escudo.” A experiência, porém, lhe rendeu muitas decepções. Fica triste devido ao descaso das autoridades públicas com a vida alheia. Sobre o futuro, deseja apenas que tudo volte ao normal. “Quero retomar a minha vida do jeito que ela estava. Quero fazer as minhas cirurgias e recuperar a saúde”, pede a aposentada, piauiense de Campo Maior.
Em brancoO Correio entrou ontem em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde do Distrito Federal. Às 17h de ontem, a reportagem foi orientada a conversar com a assessoria do Hospital de Base do DF. A primeira informação deu conta de que Maria do Amparo deveria ir ao arquivo médico da instituição e apresentar o cartão de saúde para resolver o problema. A segunda, repassada mais tarde também por telefone, revelou que o prontuário da paciente no Hospital de Base estava em branco. Mas a funcionária da Pró-Vítima que acompanhou a mulher a uma das idas ao HBDF afirmou ter visto o documento com a data da morte. E Maria Derminda garantiu que, em conversa privada, equívocos foram admitidos por um servidor do Hran — onde toda a confusão começou.
AssessoriaO programa existe desde março de 2009. Tem como finalidade dar visibilidade aos direitos dos cidadãos atingidos direta ou indiretamente por crimes violentos, assegurando atendimentos multidisciplinares nas áreas psicossocial e jurídica.
Esta matéria tem: (16) comentários
Autor: Maxwilson Duarte
Tatiane Moraes, você interpretou errado. Sujeito todo mundo está, até o Lula. A questão é a SOLUÇÃO para resolver esse tipo de problema. Entendeu, minha jovem? | Denuncie |
Autor: Maira Ramos
Parece até um caso literário, pena que é real... E imagino a dificuldade para provar que se está vivo... | Denuncie |
Autor: SANZIO ANTONIO Mendes Vieira
enquanto nao houver puniçao, haverá casos como esses descaso. se as leis/regimentos fossem realmente seguidos a risca, muitos funcionários seriam demitidos. | Denuncie |
Autor: Geraldo Calado
A cada dia que passa acredito mais na máxima que "OS ERROS DA MEDICINA A TERRA ESCONDE", kkk. Todos podemos errar, agora, permanecer o impasse é ausência de inteligência. Que resolvamos o problema da paciente e apuremos responsabilidades. Sugiro não passarem perto do HRAN, você pode ter seu óbito dec | Denuncie |
Autor: Moacir Lana
Junta os DEUSES que são os Médicos e a incopetencia desse GDF, uma união perfeita. | Denuncie |
Autor: Tatiane Moraes
Maxwilson Duarte, descordo do seu ponto de vista, pois qualquer um que utilize o sistema público de saúde esta sujeito a isso. | Denuncie |
Autor: Maxwilson Duarte
Desrespeito, isso sim. Se fosse um filho do GDF o caso já teria sido solucionado. | Denuncie |
Autor: Israel Alcantara
Retrato da ineficiência do serviço público de saúde local. | Denuncie |
Autor: Sergio Goncalves
Tsss... tsss... tsss... tem coisas que se a gente contar, ninguem acredita. Sugiro a d. Maria do Amparo contratar um bom advogado e pedir um polpudo "danos morais" ao GDF. Só assim erros como este serão corrigidos mais rapidamente, sem criar mais transtornos ao cidadão de bem. | Denuncie |
Autor: André Rocha
A diferença entre a Sra Mª do Amparo e os milhares de contribuintes que não conseguem atendimento na Rede Pública de Saúde é fato destes últimos ainda não terem seus atestados de óbito! | Denuncie |
Autor: Francisco Rocha
A reportagem não cita a médica, não comenta se tentou ouvi-la. Não quiseram saber a versão dela para tal absurdo? E a direção do hospital, oq ue disse do "novo" prontuário em branco que surgiu nos arquivos? é mesmo um descaso com a vida dos outros. | Denuncie |
Autor: Francisco Rocha
Só faltou sabermos o nome da médica que "dá alta com óbito" papel para evitarmos ser atendidos por ela no HRAN. | Denuncie |
Autor: Valdir de Castro
Pois é, né? Os hospitais publicos não atendem corretamente nem os ditos vivo ou fizeram isto pra diminuir a fila nos hospitais? | Denuncie |
Autor: marcelo gonzaga
Seo sistema operacional utilizado pela sesdf funcionasse, bastaria reverter a informação no prontuario, nao se sabe que é pior, o servidor publico que marcou errado ou o sistema operacional que não permite reverter a informação errada. | Denuncie |
Autor: Adalberto lima
Mais uma falha de um servidor que deseja ter aumento de salario. Estamos de olho ! | Denuncie |
Autor: PatrÃcia Monteiro
É um absurdo! e porque não divulgam o nome do(a) profissional que cometeu esse erro? E será que é tão difícil assim, corrigir? Será que o nome dela deixou de constar também nas contas de água, luz, IPTU, etc... A situação é LAMENTÁVEL! Espero que ela consiga resolver o mais breve esse problema. | Denuncie |