Estudantes da Olimpíada de Língua Portuguesa se encantam com Brasília

A cidade é desconhecida para a maioria deles, que se preparam para escrever novos tempos

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postado em 30/11/2010 08:23

Rayanne Portugal

Brasília se transformou ontem na capital das letras ao receber 152 estudantes vindos de todas as regiões do país para a final da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Eles desembarcaram na cidade para a divulgação e a entrega dos prêmios, realizadas no Museu Nacional pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, evento no qual apenas 20 deles foram premiados com medalhas de ouro, cinco de cada uma das quatro categorias. Para a maioria, a vinda à capital transformou-se em uma oportunidade única de partir de suas pequenas cidades, no interior do Brasil, para mostrar que o gosto pela leitura não tem limites.

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Entre os escritores, espalhados pelos monumentos de Brasília, havia um verdadeiro batalhão de olhos buscando inspiração nas construções de concreto: a Catedral Metropolitana, a Praça dos Três Poderes, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Palácio da Alvorada. Campeã na categoria Memórias Literárias, Eduarda Moura Pinheiro, 13 anos, veio de Cruzeiro do Sul (Acre) para mostrar o legado das cidades do interior de seu estado. “Adorei conhecer Brasília. É muito diferente de tudo o que vi. É uma cidade que vale a pena ter sua história contada também. Quem sabe não faço um texto sobre ela?”

Para o índio xavante Adolfo Si Ruipi Simisuté, 12 anos, participar da competição foi uma oportunidade única, mesmo não tendo sido anunciado pelo presidente para receber uma das 20 medalhas de ouro. Morador de Campinápolis, interior de Mato Grosso, Adolfo estava maravilhado com a visita. “Não viria a Brasília tão cedo se não fosse essa oportunidade. Participar da Olimpíada é uma vitória”, alegrou-se. A família do estudante vive dividida pela língua em uma cidade onde a maioria dos índios não conclui os estudos. “Minhas quatro irmãs vivem em nossa aldeia, chamada Dzeiwahu, porque ainda não aprenderam português. Eu e meus cinco irmãos estudamos na cidade, onde vivemos com meus pais”, contou o jovem.

Oportunidade
Depois de quatro seletivas, os estudantes chegaram a Brasília para a homenagem prestada pelo presidente Lula e pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, que anunciaram juntos o compromisso de perpetuar o evento, independentemente dos próximos governos. “As olimpíadas têm um valor sagrado para o estudante da escola pública, que busca vencer o desafio da descrença na educação”, disse o presidente durante a solenidade.

“Sou a prova de que lutar pela educação vale a pena. Não importa o que digam para me convencer do contrário”, afirmou Rossana Dias Costa, 17 anos, vencedora na categoria Artigo de Opinião. Grávida de sete meses, a estudante de Pedra Lavada (Paraíba) estava orgulhosa com a premiação. “Minhas amigas dizem que estou perdendo tempo, que estudar e ter um filho não é possível. Eu estou mostrando que isso não é verdade. Quero ser o exemplo para a minha filha quando ela nascer. Tenho o sonho de me formar farmacêutica e nada vai me parar até que ele seja cumprido. Acredito que, no Brasil de hoje, você só é alguém com educação, com opinião. É isso que vim mostrar hoje.”

Representantes locais
“Não estou triste. Já estou pensando em 2012.” Com um sorriso no rosto, Pedro Kennedy Oliveira, 16, estudante do Centro de Ensino Médio 1 do Núcleo Bandeirante, comemorava a participação na Olimpíada Escrevendo o Futuro. Medalha de prata na competição pela crônica Beleza cega, o jovem não pôde realizar o desejo de apertar a mão do presidente e receber dele a terceira medalha. Mas quem acha que Pedro ficou triste se engana. “Para um estudante que nunca se imaginou escrevendo, participando de um concurso nacional, chegar até aqui é uma enorme vitória. Estou emocionado”, declarou. Pedro conta que, ao contrário da maioria dos competidores inscritos, teve pouco tempo para elaborar a redação, que chegou à fase eliminatória. “Foi a primeira vez que minha escola participou da Olimpíada de Língua Portuguesa e por isso o tempo de preparo foi reduzido. É uma honra para mim, com tudo o que enfrentamos, ser o representante da minha escola e do Distrito Federal”, festeja o cronista.

Ao lado de Pedro na disputa de um título para o DF, estava Joyce Hellen Braga de Jesus ,14 anos, do Centro de Ensino Fundamental de Brasília. “Daqui a dois anos, quando participar da próxima etapa, pode ter certeza que você vai ouvir meu nome naquele palco”, disse a estudante. Autora da memória Lembranças da nova capital, Joyce não desanimou. “Vou começar a estudar com a professora assim que sairmos daqui. Em 2012, para mim será a vez de fazer uma crônica. Até lá, quero estar craque.”


7 milhões - Número de alunos inscritos na edição 2010 da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro
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