Correios adotam novo sistema de identificação dos endereços no DF

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postado em 19/01/2011 08:34

Juliana Boechat

A partir desta quarta-feira (19/1), os Correios passam a considerar as regiões administrativas como bairros de Brasília. O modelo de divisão territorial, adotado também pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), trata o quadrilátero do Distrito Federal como um único município e as 28 cidades — exceto o Plano Piloto — como setores habitacionais. A medida prevê a facilidade no sistema de endereçamento de correspondência e formulários por moradores que, atualmente, esbarram nas peculiaridades da capital federal para informar o local onde moram ou trabalham. Até ontem, o banco de dados dos Correios não identificava Código de Endereçamento Postal (CEP) e endereços de algumas regiões. Segundo a instituição, não haverá alteração nos atuais endereços. A mudança, no entanto, traz à tona antiga discussão em torno da autonomia das regiões administrativas, enraizada com o passar dos anos.

Na prática, a população deverá readaptar a forma de endereçar cartas e preencher documentos. O campo reservado a informações do município será preenchido por Brasília. O nome da região administrativa onde a pessoa mora ocupará o espaço restrito ao bairro. “O Sudoeste, por exemplo, faz parte da RA (região administrativa) do Cruzeiro. Até hoje, se procurarmos no nosso sistema um CEP do Sudoeste, aparece como se o morador vivesse no Cruzeiro”, explicou o gerente de Operações dos Correios, Edson Batista Moraes. Ele considera a medida positiva à população. “Registramos muitas reclamações de pessoas questionando o sistema de busca de CEPs dos Correios e com dúvidas em relação às localidades de Brasília e das cidades-satélites. A situação do DF é diferente de todo o Brasil. É como se o banco de dados estivesse errado”, disse.

Edson exemplificou o caso do Riacho Fundo I e II. O padrão de endereçamento das duas cidades é o mesmo. “Se você não especificar Riacho Fundo I ou II na hora de pesquisar o CEP, é impossível achar o destino. Agora, com a diferenciação por bairros, essa confusão vai diminuir”, explicou. A pensionista Maria do Rosário Marino de Oliveira, 38 anos, espera melhorias. Desde que se mudou para a QN 5c, Conjunto 1, do Riacho Fundo II, ela sofre com a confusão das correspondências. “Carteiros e visitas em geral ficam perdidos. Nem a gente, que mora aqui, sabe direito a organização da cidade”, criticou. Com frequência, a dona de casa se depara com encomendas de outras pessoas na caixinha dos Correios ou não recebe a correspondência. “Tive que procurar meu CEP correto na internet e informar no INSS. Não recebia nada deles”, relatou.

Concepção
O pesquisador associado do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB) Alvo Paviani comemorou a atitude dos Correios. Ele acredita que Brasília é uma só. “Cidade é o nome de uma localidade com sede municipal, as demais são chamadas de subúrbios e bairros”, considerou. Segundo Paviani, o orgulho das pessoas em viver nas regiões administrativas poderá ser transferido a Brasília como um todo. E ressalta que, quando os moradores do DF viajam, costumam informar a cidade de origem como Brasília e não Taguatinga, Ceilândia etc. “A estruturação da cidade deu margem a essa concepção de regiões administrativas. Mas podemos dizer que Brasília é um município com área urbana polinucleada e uma grande área rural”, defendeu.

Ao contrário do especialista, o empresário Edion Ferreira Brito repudiou a atitude dos Correios. “A gente sente como se a nossa cidade desaparecesse, sendo que existem leis dando autonomia às regiões administrativas”, criticou. Para o morador e trabalhador de Ceilândia, o Distrito Federal foi concebido de forma diferente e deve ser respeitado. “Isso afeta a população inteira. É a nossa identidade. Por que nós, GDF, não podemos manter esse diferencial? Se não valorizarmos o que temos aqui, perderemos tudo no futuro”, ressaltou o ceilandense com orgulho.


MEMÓRIA
Sapo Queijo Nada (SQN)
As peculiaridades de Brasília podem render histórias engraçadas. Em novembro do ano passado, veio à tona o caso do designer Mateus de Oliveira Pinto, 34 anos. Ele protagonizou um diálogo com o atendente de telemarketing da operadora de telefonia móvel. Ao tentar corrigir o endereço residencial para correspondências, informou: “Moro na SQN 214, Bloco E”. A pessoa do outro lado da linha, acostumada a preencher os campos em branco com nomes de rua, complementos e pontos de referência, não entendeu as coordenadas e se confundiu várias vezes com o fonema das letras: “Ok. FQM, 214 Bloco E…”; ou então: “Ah, sim, desculpe… SQM 214, Bloco E”.

Irritado com a dificuldade na comunicação, Mateus lançou: “Ai, meu santo… É SQN… Sapo Queijo Nada… SQN… Sapo Queijo Nada!!”. Satisfeito com a solução do problema, desligou o telefone. Ele não imaginou, no entanto, que a conta chegaria com o endereço Sapo Queijo Nada (SQN), Bloco E. O caso ganhou repercussão na época e Mateus chegou a idealizar um site na internet para compartilhar casos parecidos.

O mesmo ocorreu com um outro morador de Brasília, que preferiu não se identificar. O morador da SQS 112 explicou o endereço como “Serra Quebec Serra”. A fatura passou a ser endereçada à Rua Serra Quebec Serra 112, em Brasília. Na tentativa de corrigir desentendimentos, os moradores da capital federal apelam para os apelidos: as QNN e as QNM de Ceilândia foram rebatizadas de Quê Nada Nada e Quê Nada Maria, respectivamente.

PARA SABER MAIS
Criadas a partir de 1964
O Distrito Federal conta com 30 regiões administrativas. Brasília, Gama, Taguatinga, Brazlândia e Sobradinho, Planaltina e Paranoá são as mais antigas, criadas em 10 de dezembro de 1964, segundo informações da Codeplan. Vicente Pires, ainda localizada em terreno irregular da União, passou a ser considerada uma região administrativa em 26 de maio de 2009. Originalmente, o Distrito Federal não contava com divisões. Quatro anos após a inauguração da capital federal, ocorreram as primeiras divisões. Em 1989, o Governo do Distrito Federal oficializou a criação de mais quatro localidades: Núcleo Bandeirante, Ceilândia, Cruzeiro e Samambaia. De 1992 a 1994 surgiram Santa Maria, São Sebastião, Recanto das Emas, Lago Sul, Riacho Fundo, Lago Norte e Candangolândia. A partir de 2003, as demais localidades se transformaram, aos poucos, em regiões administrativas. São elas: Águas Claras, Riacho Fundo 2, Varjão, Park Way, Sudoeste, SIA, Estrutural, Sobradinho 2, Jardim Botânico, Itapoã e Vicente Pires.


PALAVRA DE ESPECIALISTA
Simétrica e atípica
Pelas características, a estrutura de Brasília é simétrica e construída com base em conceitos. Se o setor de bancos fica na parte norte da cidade, ganha a terminologia do Setor Bancário Norte. Mas é uma cidade atípica. Quem não conhece, se complica. Principalmente porque não usamos a expressão completa e preferimos falar as siglas do endereço. Assim, virou uma terminologia própria da cidade. Para os brasilienses é comum, mas para o pessoal de fora, que não conhece a estrutura, há estranhamento em relação à organização da região.

Entretanto, a partir do momento que a pessoa conhece a cidade, fica mais fácil entender a organização. Chegamos ao ponto que não falamos mais Superquadra 415 Sul e apenas o número e a direção. Talvez a melhor forma seja a divulgação da terminologia correta a ser usada. O usuário tendo essa ideia poderia se localizar melhor em meio à cidade e aí não seria necessário realizar mudanças drásticas no conceito. Passar a considerar as regiões administrativas como bairros muda o conceito da cidade. Aqui é Distrito Federal, não é um município.

Flávia de Oliveira Maia Pires, mestre em linguística e autora de um glossário sobre as terminologias de Brasília


Confusões e polêmicas
O primeiro contato com Brasília pode causar estranhamento. A cidade dividida em setores, identificada por números em vez de nomes, sem esquinas e bairros definidos se destaca em relação ao restante do Brasil. As peculiaridades ficam ainda mais evidentes quando os brasilienses precisam trocar endereços com pessoas de outras regiões. O SQN, de Super Quadra Norte, vira FQN ou SQM e o espaço reservado para o ponto de referência acaba em branco. Na tentativa de corrigir desentendimentos, os moradores da capital federal apelam para os apelidos: as QNN e as QNM de Ceilândia foram rebatizadas de Quê Nada Nada e Quê Nada Maria (leia Memória). Além da sopa de letrinhas, o mesmo endereço pode ser encontrado em cidades diferentes do Distrito Federal. Nestes casos, o único jeito de diferenciar um do outro é pelo CEP.

A padaria onde Joselândia de Carvalho, 30 anos, trabalha no Riacho Fundo II tem endereço semelhante no Riacho Fundo I. “Toda vez que pedimos uma mercadoria, o caminhão para no Riacho I. Aí, me ligam e eu tenho que corrigir as informações”, contou. A operadora de caixa tem dificuldades em dizer o endereço do local de trabalho. “Sei que aqui é o Conjunto 4, da Quadra 7e. Mas ninguém acha a loja. Eu moro na cidade há 5 anos e não entendo como as quadras funcionam”, confessou.

Segundo ela, seria possível encontrar o mesmo endereço no Riacho Fundo I, se não fosse a letra “e” da quadra. Nas redondezas da padaria, não há placas de localização, e a fachada do estabelecimento não conta com identificação. O jeito é apelar para pontos de referência. “Para achar a loja, eu falo da escola que tem aqui perto”, explicou.

O administrador do Riacho Fundo I, Artur da Cunha Nogueira, confirmou a confusão dos endereços entre as duas cidades. Mas considerou a decisão dos Correios polêmica. “As pessoas não querem que a RA (região administrativa) se transforme em bairro. Está mudando para pior, regredindo. Ainda não sabemos os efeitos práticos disso. Até com melhoras na entrega de correspondências vai haver muita reclamação no status da cidade”, considerou. (JB)

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