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Após a separação, quem fica com a guarda dos filhos precisa planejar gastos

Julia Borba - a

Publicação: 04/12/2011 08:01 Atualização:

Quem vai ficar com os filhos? Essa é a primeira pergunta que surge quando um casal decide se divorciar. Além do componente emocional, que é preponderante, essa é uma decisão que terá grande peso no futuro financeiro dos novos solteiros. Cuidar e educar os filhos sem a presença constante do pai ou da mãe é por si só uma tarefa difícil. Mas ter condições econômicas de arcar com as despesas é outro desafio.

Na avaliação da professora de finanças pessoais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Myrian Lund, existem dois fatores que pesam nessa decisão. O primeiro é o quantitativo. “Sim, coloque no papel. Você vai descobrir que suas despesas serão maiores. Gastos eventuais não são considerados a ponto de serem colocados no papel para dividir com o antigo companheiro. Isso significa que essa pessoa terá de pagar o material escolar extra, o presente para o aniversário do amigo etc.”, explica a economista.

Em contrapartida, pelo lado qualitativo quem fica com os filhos ganha mais um impulso para recomeçar a vida. “O filho empurra para frente. Ele te motiva a trabalhar, ver a vida. A gente observa que quem fica com a criança e olha isso com prazer acaba conseguindo o retorno adequado. Você está separado, mas tem alguém em casa te esperando. É uma motivação”, diz Myrian.

Jucélia Torres, policial rodoviária, tem 53 anos e permaneceu casada por mais de 20 anos. Após o divórcio, ficou com a guarda das duas filhas. Além de ter recebido o apoio delas, Jucélia lembra que optou por abrir mão de qualquer discussão por bens ou pensão. “As duas já eram grandes, eu sozinha conseguia nos manter e fiz toda força para que não houvesse um clima ruim entre nós dois (ela e o ex-marido). Ele ficou de continuar pagando a faculdade, esse foi nosso acordo”, conta. “Não vou dizer que não ficaram marcas. Mas fez muito bem para a gente se separar, tanto economicamente quanto psicologicamente. Eu e ele nos recuperamos e hoje, seis anos depois, estamos muito melhor que antes.”

Controle
A educadora física Luciana Bim, 37 anos, conta que passou por grande transformação após o divórcio. Ela se casou aos 21 anos, mas a união só durou oito. Durante todos esses anos, o marido, que ganhava mais, custeava os gastos da casa. O salário dela servia apenas para as despesas pessoais e ela nunca poupou. “Ganhava e gastava, simples assim. Mas, depois que tive que começar a me sustentar e a cuidar da nossa filha, que hoje já tem 13 anos, eu me vi atolada em dívidas”, recorda.

Ainda que recebesse pensão no início, ela diz que não sabia nem o que fazer com o dinheiro. “Por sorte, durante as seções de terapia em grupo, conheci um consultor financeiro que foi o meu grande amigo. Ele sentou comigo, abriu um programa de computador e me fez anotar todos os gastos, até com balinha”, diz. Além de se tornar mais disciplinada, Luciana finalmente descobriu o quanto ganhava. “Como profissional liberal, o pagamento não é unificado e eu nem sequer sabia meu salário. Após oito meses, consegui me reerguer. Hoje, tenho meu próprio negócio e me considero uma empresária de sucesso”, orgulha-se.

Ter ficado com a guarda da criança, segundo ela, foi o melhor impulso que poderia receber. “Nos dias em que eu estava cansada, triste ou com preguiça, bastava olhar para o lado e ver que ela precisava de mim. Não dava tempo de ficar parada. Tinha que correr atrás. E foi pensando nela que tomei minha decisão: ela vai preferir uma mãe infeliz e casada ou separada e feliz?”

'Ganhava e gastava, simples assim. Mas, depois que tive que começar a me sustentar e a cuidar da
nossa filha, que hoje já tem 13 anos, eu me vi atolada em dívidas', diz Luciana Bim (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
"Ganhava e gastava, simples assim. Mas, depois que tive que começar a me sustentar e a cuidar da nossa filha, que hoje já tem 13 anos, eu me vi atolada em dívidas", diz Luciana Bim


Ter a própria renda é fundamental

Pedir ajuda para reorganizar a vida pode ser um passo importante para quem está em processo de separação. Reestruturar as finanças é algo que requer atenção, raciocínio e muito planejamento. Justamente por ser difícil conciliar esse processo com um estado emocional fragilizado, a dica é recorrer a amigos, à família ou a especialistas em consultoria financeira. A dificuldade é ainda maior quando, antes de se casar ou quando nasce o primeiro filho, a mulher opta por parar de trabalhar. Após ficar afastada do mercado de trabalho por anos, as possibilidades de ingressar na área de interesse tendem a ser menores, dificultando ainda mais o rearranjo financeiro pós-divórcio.

Myrian Lund, professora de finanças pessoais da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que deixar o emprego pela família é uma opção, mas nem por isso as mulheres devem ficar completamente desprevenidas para a hipótese de o casamento acabar. “Faça uma poupança à parte. Essa é a regra. Ninguém precisa fazer isso pensando no divórcio, mas aquela reserva é sua. Ninguém tem que tomar conhecimento. Esse dinheiro deve sair das despesas da casa. É ele que vai dar liberdade, um suspiro, em um caso de emergência”, recomenda a especialista.

Ter dinheiro em caixa ajudaria também em outras conquistas. “Gera satisfação, sensação de liberdade, de poder, de capacidade. Se você trabalhasse fora também teria como juntar. Isso vai crescendo mês a mês, de pouquinho, mas pense sempre em guardar pelo menos 10% do valor repassado para as despesas”, completa a especialista.

Cristina* parou de trabalhar logo antes do casamento. “Eu era concursada, tinha estabilidade, mas ele era empresário, gostava de viajar, e eu optei por ficar livre para acompanhá-lo”, lembra. Depois de 20 anos se dedicando à família, o casal de separou. “Eu o ajudava na empresa, mas de maneira esporádica e informal. Nós éramos sócios, mas foi só durante o divórcio que descobri que tínhamos bens que eu nunca conheci.”

Ainda que a situação financeira do casal fosse boa — eles tinham quatro carros e moravam no Plano Piloto —, era preciso passar as contas a limpo. Como ela não tinha qualquer renda e os filhos estudavam em escola particular, por mais que tenha ficado com o apartamento, não tinha condições de mantê-lo. Completamente alheio às dificuldades que os próprios filhos teriam de enfrentar, o marido se escondeu e não ajudava nas finanças.

Caos financeiro
A escola deixou de ser paga. Combustível, condomínio e até comida começaram a faltar. “Durante quase dois anos, eu e meus filhos passamos por uma situação extremamente difícil. Conseguíamos R$ 200 por mês com o aluguel da vaga de garagem. Eu tentei vender doces, dar aula, trabalhar em casa de família, mas nada disso elevou a nossa renda”, relata Cristina. Mesmo após tanto esforço, ela nunca mais conseguiu um emprego formal. “Foi uma barreira intransponível para mim. E não apenas pela idade, mas pelo fato de ter ficado tanto tempo fora do mercado.” O processo foi ainda mais longo porque ela não conseguia um advogado que tratasse o caso com imparcialidade. “Eu só consegui alguma coisa quando busquei a Defensoria Pública. As pessoas precisam saber que eles atendem a todos que não podem pagar, seja qual for o motivo”, recomenda.

Recebendo o atendimento gratuito do governo, ela conseguiu que a Justiça obrigasse o ex-marido a pagar pensão. “Hoje, recuperamos um pouco da vida que tivemos no passado. Mas o meu carro continua o mesmo daquele tempo, nunca pude fazer reforma na casa, viajar. Minha prioridade foi dar educação aos meninos”, diz, orgulhosa. “Até hoje a partilha não saiu. Mas ainda não faço planos com esse dinheiro.” O sonho de Cristina, agora, é conseguir voltar a trabalhar.

*Nome fictício a pedido da entrevistada

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: SIMPLICIO
Ola. Parabéns pela matéria. Fiquei bastante interessado na experiência de vida da Cristina (nome fictício) na reportagem "Ter a própria renda é fundamental". Estou a procura de uma pessoa para TRABALHO na empresa que dirijo. Caso haja interesse da pessoa na reportagem favor passar um email. Obrigado. | Denuncie |

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