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Estado de Minas

Mãe que pegou o volante após beber convive com a dor da morte da filha


postado em 18/12/2011 14:00 / atualizado em 18/12/2011 14:11

Flávia e o marido Fred com as duas filhas sobreviventes: o alto teor alcoólico a impediu de lembrar o momento do acidente fatal(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A.Press)
Flávia e o marido Fred com as duas filhas sobreviventes: o alto teor alcoólico a impediu de lembrar o momento do acidente fatal (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A.Press)


Flávia Viana estudou em escolas tradicionais. Foi aluna do Sagrado Coração de Maria, do Marista. Morou na Asa Norte, no Lago Norte e em Águas Claras. Tem 35 anos. Cursou até o segundo semestre de Direito. Mas largou a faculdade, quando engravidou de Gabriela, no fim de 2005. Em cinco anos, teve três filhos com o atual marido, Fred. O mais velho, hoje com 15 anos, é de relacionamento anterior. É uma grande família, onde é bem-vinda também na casa do Condomínio RK, em Sobradinho, a primogênita adolescente de Fred.

Representante comercial, Fred vende alimentos para supermercados. O casal dividiu assim a tarefa de criar os filhos: ele trabalha fora, ela abriu mão de construir uma carreira para se dedicar às crianças, Gabriela, 5 anos, Giulia, 3, e Manoela, 1. Flávia ainda amamenta e tem como rotina dar o banho nas crianças, arrumá-las para a escola, voltar e preparar o almoço, buscar as meninas, fazer o jantar e aprontá-las para dormir. As tarefas de dona de casa lhe custaram o tempo de se cuidar, de trabalhar, de ser mulher. Tornou-se insegura como amante. Já não sabia como agradar ao marido. As brigas tornaram-se frequentes.

No calor das discussões, Fred, às vezes, ensaiava desaparecer. Era da boca para fora. Ele nunca saiu de casa. As coisas pioraram quando o pai de Flávia morreu de cirrose. Era o alicerce da família dela. Funcionário aposentado do Senado, chegou à chefia de gabinete de vários senadores. Flávia cortou os cabelos. Parou de fazer as mechas loiras. Sentia-se deprimida.

Em 13 de agosto, era dia de vacinação contra poliomelite, doença viral contagiosa, que causa paralisia e deformações. Flávia colocou as três filhas no carro. Seria a última dose de Gabriela, que estava perto de completar 5 anos. As garotinhas foram vacinadas no posto da 406 Norte. Naquele dia, ela cumpriu uma obrigação de mãe, mas, em seguida, tomou uma atitude que lhe marcaria a existência.

Era um sábado de sol, antes de ir para casa, Flávia decidiu conversar com uma amiga. Precisava desabafar. Marcou o encontro em um bar da 411 Norte, onde a colega morava. As três meninas acompanharam. As mulheres beberam. Primeiro vodca, depois, cerveja. Por mais de quatro horas. A partir daí, Flávia conta a história com a ajuda de testemunhas. Ela não se lembra de colocar a chave na ignição. Mas dirigiu. Pôs as três filhas no banco de trás. Manu e Giulia foram acomodadas nas cadeirinhas do Santana 1996.

Gabriela adorava dançar. Era apaixonada pelo personagem de desenho animado Pica-pau. Por ser a mais velha de uma escadinha, tinha senso de proteção. As irmãzinhas eram suas bonecas. Tinha personalidade. Assumia os cabelos crespos que puxou da mãe. Gostava de usar trancinhas rastafari. Mas, às vezes, queria o cabelo liso igual ao de Giulia e Manu. Flávia atendia ao capricho da menina. Por ser muito agitada, alegre, conversadora, extrovertida, Gabriela era considerada hiperativa.

No dia do acidente, Gabi estava no meio das duas irmãs. Um dos lapsos na memória de Flávia. Não se lembra se a filha de 5 anos estava presa no cinto de segurança. Provavelmente, não. A menina voou muitos metros para fora do carro. Um vidro acertou a cabeça de Gabriela. A mãe também foi arremessada. Apagou. Protegidas pelas cadeirinhas, Manu e Giulia saíram ilesas. Escaparam da estatística da morte. São um exemplo de um fenômeno que anima os técnicos de trânsito do Departamento de Trânsito do DF. Antes de 1º setembro de 2010, quando tornou-se obrigatório o uso de cadeirinhas, crianças com menos de 5 anos morriam três vezes mais. Entre setembro de 2009 e agosto de 2010, 29 crianças perderam suas vidas em desastres no DF. Até setembro de 2011, foram10.



Presa
Flávia quebrou a bacia, a clavícula, duas costelas, teve perfurações na barriga e uma fratura na coluna. Desacordada, foi encaminhada ao Hospital Regional de Sobradinho. Naquele dia, faltou luz por mais de duas horas. Ao receber os primeiros socorros, a mulher recobrou os sentidos. Vomitava, uma reação ao impacto e à bebida. Quando voltou a si, além de sua mãe, a sogra, irmãos, o marido, havia um desconhecido ao seu lado. “A senhora está presa pelo homicídio de Gabriela Viana”. Assim que a mãe soube do acidente na BR-020, fatal para a sua menina.

Alcoolizada, ela não se deu conta de que a entrada para o condomínio RK já tinha passado. Não sabia onde estava. De repente, o carro saiu da pista a caminho de Planaltina. Agora, quatro meses depois, o casal tenta ainda entender os detalhes do acidente. Há uma marca de pintura na lataria traseira do Santana, que teve perda total. Ainda na maca, Flávia foi transferida para a Comeia. Passou 12 horas no presídio feminino, no Gama, antes de ser operada da coluna, da bacia, do ombro. “No hospital, fui tratada como uma bandida. Na cela, três presas limparam minhas feridas. Serei grata para sempre.”

O caso dessa mãe ainda não foi analisado pelo Ministério Público, que vai decidir se ela deve ou não ser julgada pela morte da filha. Mas Flávia cumpre uma pena de sofrimento e culpa imposta por ela e por muitos que condenaram sua atitude. Não há um só dia desde o acidente que não chore. Toma remédios para depressão. Converteu-se. Frequenta uma igreja evangélica por incentivo da irmã Fernanda. “Nunca vou me perdoar. Queria poder mudar as coisas, ter morrido no lugar dela”, disse, muito abalada, ao Correio.

Quando se acidentou, Gabi desapareceu da vida de Manu e de Giulia. Elas estavam na mesma cena. Foi assim em toda a existência das meninas. Agora, estão orfãs da irmã mais velha. Após o acidente, o casal se reaproximou. Fred nunca julgou a mulher pela morte da filha. Gabriela morreu às 4h do segundo domingo de agosto, dia dos pais.

Regras e punições
A Resolução nº 277/2008 do Contran regulamentou o transporte de crianças de até 10 anos. Bebê de até 1 ano deve ser levado no bebê-conforto, com o equipamento de costas para o motorista. De 1 a 4 anos, a criança precisa ficar na cadeirinha. De 4 a 7 anos e meio, em assento de elevação com cinto. A multa é de R$ 191,54 e sete pontos na carteira. Em 2010, foram registradas 656 infrações no DF. No primeiro semestre de 2011, foram 203.

Colaborou Adriana Bernardes

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