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Lelé era um arquiteto tecnológico e moderno, mas acima de tudo, humano Pianista e acordeonista, o arquiteto da tecnologia de pré-fabricados e dos edifícios hospitalares reverenciava o mestre Oscar Niemeyer e seguiu um caminho tão autoral quanto valioso socialmente

Conceição Freitas

Publicação: 22/05/2014 06:04 Atualização: 22/05/2014 06:27


João da Gama Filgueiras Lima, arquiteto, conhecido como Lelé
Embora fosse filho único de classe média baixa, havia um piano na sala da casa, herança da avó paterna. O pai era músico profissional, do tempo em que se tocava ao vivo a trilha sonora dos filmes do cinema mudo. Quando se casou, deixou a música por um emprego mais seguro, foi ser postalista dos Correios e Telégrafos - o profissional que separa as correspondências por região da cidade.

Do pai, Lelé herdou o gosto pela música. Tocava piano e acordeão em bailes - instrumento que o levou à boemia. Ao mesmo tempo, foi o recurso de que dispôs para cuidar de si e da mãe quando o pai morreu precocemente, aos 59 anos, de câncer do pulmão.

O homem discreto, solidário, afetuoso era um arquiteto tecnológico, mas de uma tecnologia comprometida com a funcionalidade e com a qualidade de vida dos usuários dos edifícios e dos equipamentos urbanos que projetava - a maioria deles, pacientes de hospitais. Uma das mais belas obras de Lelé é um centro de reabilitação do aparelho locomotor plantado à margem do Lago Norte.

Se Oscar Niemeyer gostava de repetir que a arquitetura deveria causar espanto, foi Lelé quem produziu - durante toda a vida profissional - uma arquitetura espantosa, por ser conectada com o tempo tecnológico e comprometida com a responsabilidade social. E ao mesmo tempo moderna. Chegou a projetar conjuntos para o programa Minha Casa, Minha Vida, mas suas ideias não casaram com as do atual governo petista. “A solução era diferente, nova. Para manter as populações todas nos bairros e não removê-las, como acontece”, declarou à repórter Clara Campoli, do Correio, em 2012.

 (Iano Andrade/CB/D.A Press - 21/5/14 )
Foi Brasília quem ensinou a João Filgueiras Lima o senso de compromisso social. Arquiteto recém-formado, desenhista no Instituto de Assistência e Previdência dos Bancários (IAPB), Lelé se apresentou ao chefão: "Que coragem, hein, rapaz!", comentou Niemeyer diante daquele que viria a ser um de seus mais valiosos colaboradores e um dos grandes e mais fiéis amigos. Quando Brasília reagiu ferozmente contra a construção da Praça da Soberania, na Esplanada dos Ministérios, Lelé escreveu um texto em defesa do amigo. Fiel, como o quê.

Outro encontro que dividiu as águas do destino de Lelé foi com o ortopedista Aloysio Campos da Paz. Vítima de grave acidente de carro, quando vinha do Rio para Brasília, em 1963, o arquiteto e a mulher, a também arquiteta Alda Rabello Cunha, foram internados no então Hospital Distrital (hoje Hospital de Base). Campos da Paz coordenava a unidade de ortopedia. O tratamento, o gosto pela música (o arquiteto no piano, o ortopedista no pistom) e o compromisso com o bem-estar do ser humano uniram esses dois homens para o resto da vida. Houve desentendimentos, que acabaram com trocas de flores (literalmente).

Em parceria com Oscar Niemeyer, Athos Bulcão e Darcy Ribeiro, Lelé projetou algumas das mais grandiosas, inteligentes, funcionais, sociais e belas obras de Brasília. Com Oscar, fez o Minhocão e o Quartel-General do Exército, por exemplo; com Athos Bulcão, as unidades da Rede Sarah; com Darcy, o Beijódromo.

A produção de Lelé não pode ser alinhada numa só lista de obras projetadas e executadas, como se faz com qualquer outro arquiteto, consagrado ou não. A fortuna crítica da obra de João da Gama Filgueiras Lima divide os projetos por afinidade tecnológica. Obras nas quais foram aplicados materiais pré-fabricados pesados em concreto armado; obras com pré-fabricados leves em argamassa armada; obras com industrialização em aço, plástico e argamassa armada. (Imagens de sua obra serão expostas na Bienal de Veneza deste ano, como parte do panorama da arquitetura moderna brasileira).

O Lelé da arquitetura feita com materiais pré-fabricados também nasceu em Brasília. “Nós tínhamos de fazer alojamentos para os operários que estavam chegando do Brasil inteiro. Tínhamos de fazer casa para os engenheiros, para os administradores. E tudo de madeira. Aí entrou o pré-fabricado porque, se fôssemos fazer aquilo de forma artesanal, não acabaríamos nunca”, contou ele à repórter Cynara Menezes no livro O que é ser arquiteto (coleção Memórias Profissionais, da editora Record, 2004).

Na década de 1980, Lelé fechou o escritório particular em Brasília e se arriscou numa empreitada tão arriscada quanto utópica. Construiu em Abadiânia (GO), a 134km do Plano Piloto, uma miniusina de pré-moldados leves em argamassa armada a fim de erguer escolas rurais e pontes para estradas vicinais. Como pano de fundo, formava operários para a tecnologia a serviço das populações carentes e da viabilidade urbana. “Por incrível que pareça, acho que meu maior sucesso profissional foi nessa cidadezinha de Goiás, porque houve um envolvimento total das pessoas.” A experiência de Abadiânia só foi possível por conta do entusiasmo do então reitor da UnB, frei Mateus Rocha

A iniciativa trouxe para o sertão de Goiás o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola. O resultado: Lelé se mudou para a cidade onde nasceu e fundou uma usina de pré-fabricados em argamassa armada, a Fábrica de Escolas e Equipamentos Urbanos (Faec) do Rio de Janeiro. A produção era destinada a obras em comunidades carentes, desde escolas até postos de saúde e saneamento básico.

Menos de cinco anos depois, o então vice-governador do Rio, Darcy Ribeiro, convidou Lelé para construir perto de 5 mil obras destinadas ao atendimento integral às crianças de periferia. Eram o Ciacs, os Centros Integrados de Atenção à Criança, que deveriam ser implementados em todo território nacional.

Lelé gostava de contar que teve de fazer um exame de próstata, no começo dos anos 2000. Chegou à médica e foi convidado a se instalar numa maca tecnológica. Acomodado, o paciente não precisava mudar de lugar. A maca se deslocava para que a médica pudesse fazer o exame sem constrangimentos. Ela comentou com o arquiteto a funcionalidade do equipamento, ao que ele acrescentou: “Fui eu quem projetou”. Os dois gargalharam.

A dedicação à arquitetura de hospitais também começou em Brasília, não no Sarah, como se poderia imaginar, mas no Hospital Regional de Taguatinga, construído em 1968. Mas, a essa altura, Lelé já tinha contato com Aloysio Campos da Paz e sua febril dedicação à Rede Sarah. Febre dupla, como conta Lelé: “Nos dias em que fiquei internado, ficávamos até altas horas da madrugada revendo o centro de ortopedia do hospital que na época estava vendo instalado. A partir daí, fiz muitos desenhos de fraturas, de próteses, de tração, essas coisas, todas a pedido do Aloysio”, disse em entrevista a Ana Gabriella Lima Guimarães, em 2003, em Salvador.

No fim dos anos 1990, Campos da Paz deu um depoimento incisivo sobre a contribuição do arquiteto para a inequívoca eficiência da Rede Sarah: “Os hospitais de Lelé, ao contrário de espaços constrangedores de sofrimento, tornaram-se locais amenos, generosos, ricos em volumes e cores: a própria expressão e sentido da palavra reabilitação. Quando um velho titular de ortopedia e reabilitação da mais antiga e tradicional universidade inglesa visitou os belos espaços horizontais do Sarah Salvador, virou-se para mim e murmurou com os olhos marejados: sempre sonhamos com isso! Hoje, você me trouxe ao próximo século”.

Lelé teve três filhas, Luciana, Adriana e Sônia, nascidas em Brasília, três netos e a ex-mulher, Alda. Luciana nasceu com paralisia cerebral, o que motivou o arquiteto a tomar o rumo da reabilitação dos movimentos. Adriana é arquiteta; Sônia, jornalista. O corpo de Lelé não será sepultado no Rio de Janeiro, onde nasceu, ou em Salvador, onde morou nas últimas duas décadas, mas em Brasília, onde brotou o arquiteto tecnológico, socialmente responsável e, sobretudo, de uma inesquecível sensibilidade para com o bem-estar humano, sem abdicar do encanto e da beleza.
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